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Nós temos um rosto, rosto conhecido, com traços
acentuadamente evangélicos, traços admiráveis
em si e admirados por meio mundo. É o nosso rosto franciscano.
Ninguém de nós, possivelmente, quererá
mudar de rosto. Temos orgulho dele, embora sintamos necessidade
de retocá-lo, de tempos em tempos, diante dos espelhos
da nossa casa.
Sem nos ocuparmos com o rosto dos outros, que podemos aplaudir
mais ou menos, sentimo-nos felizes com o rosto teológico-espiritual-existencial
que temos. Este rosto tem muita história, vem lá
do fundo dos tempos, e teve um primeiro escultor: São
Francisco de Assis, a quem Pio XI chamou de "um quase
Cristo redivivo".
Em sua cola, seguiram-se muitos outros escultores, que foram
aprimorando os traços do nosso rosto, sempre fiéis
à inspiração original. Ele foi tomando
sempre mais o jeito do rosto de Cristo. Poderíamos
perguntar-nos se não houve deformações,
se não se acrescentaram traços estranhos? Não
seria o caso de negá-lo.
Mas o rosto continua aquele, que nos encanta e fascina, que
nos desafia e provoca. Hoje, com um esforço que já
tem seis anos, estamos tentando resgatar os traços
deste rosto para nossa ação evangelizadora.
Como franciscanos, qual é a nossa vocação?
Nossa vocação, e razão de ser na Igreja
e no mundo, é seguir Jesus Cristo, vivendo encantados
por ele, como fraternidades evangelizadoras.
Na base deste encantamento vocacional, já não
existem, em verdade, perguntas para uma definição,
mas tão-somente tentativas de respostas para uma adesão
mais superlativa.
Para nós, viver é Cristo. Cristo é a
nossa vida. Cristo é nossa vida e morte, é o
ar que respiramos, é o chão que queremos pisar.
A qualquer franciscano, pede-se apenas que saiba ler o evangelho
vivo que é Jesus, porque Jesus é a palavra que
devemos entender e a vida que mais prezamos e desejamos partilhar
com todas as pessoas.
Nenhum outro projeto pode, por conseguinte, tomar o lugar
de Cristo. Cristo é a forma minorum, o projeto matriz
da nossa forma vitae
Por definição, somos arautos do Grande Rei,
a ele pertencemos numa aliança de vida e morte. Ele
é o tesouro onde deve estar nosso coração.
Como ninguém é avaro e vive só para
si, à vocação segue-se o imperativo da
missão evangelizadora que é nosso modus vivendi.
Vivemos para o Reino, como frades e como fraternidade. O mundo
é nosso convento. A evangelização é
o nosso apanágio.
Como frades, somos chamados a semear, a ir aos areópagos,
a não ter outra missão senão a de pregar
o evangelho, curar os doentes e leprosos e expulsar os demônios.
Esta é a nossa missão em sentido amplo. Num
sentido estrito, nossa missão tem um endereço
certo e obedece a uma inequívoca opção:
a vida e a casa dos pobres, dos mais pobres.
Estes são, como desde o início foram para São
Francisco, os novos e privilegiados areópagos da missão
franciscana. Como Cristo, os pobres são o tesouro do
nosso coração evangelizador.
Mas para bem evangelizarmos os pobres, temos que evangelizar,
primeiro, as nossas pobrezas, mudando e curando as raízes
do nosso eu. Isto inclui evangelizar nossos medos e aversões,
evangelizar nosso modo pecador de ser e o barro de nossa vida.
Em outras palavras, importa ser, fazer-se e sentir-se menor.
E este minorismo que, purificando-nos de ambições
e vontades pessoais, de sonhos plausíveis mas não
de grupo, dará força para sermos fraternidades
evangelizadoras.
» Identidade franciscana
Colocadas estas duas premissas - vocação
e missão -, podemos nos voltar para a identidade
e elencar os valores do nosso modus vivendi e operandi. Podemos
perguntar-nos: De onde nasceu a inspiração franciscana
para nosso viver e agir?
As Fontes testemunham que o móvel de ser e de agir
de Francisco lhe veio, em verdade, de dois exemplos: o de
Cristo: crucificado, fora dos muros de Jerusalém, e
o dos leprosos execrados, fora das muralhas de Assis.
O primeiro se fez, para Francisco, ordem irrecusável,
quando o mandou reconstruir Sua Igreja. E os leprosos, os
homens das dores da Idade Média, cobraram-lhe a gratuidade
de um beijo, que lhe foi, inicialmente, penoso, mas que, finalmente,
lhe encheu a alma de gozo e doçura.
Estes dois encontros abriram-lhe a alma para os grandes valores
de nossa espiritualidade: a providência de Deus e o
amor pela signora e donna povertá: o relacionamento
casto com Clara e com todas as mulheres; a convivência
benévola com os irmãos e estranhos, ladrões
e sultões, prelados da Santa Igreja e pobres de todas
as pobrezas; a cordialidade para com todas as criaturas, lobos
e cotovias, riachos congelados e pessegueiros em flor.
Exortava os irmãos a que pregassem a Paz e ensinava-lhes
que a única tristeza possível seria a do pecado.
Rezava e queria que rezassem. Ele mesmo foi feito uma sarça
ardente de oração, porque não só
se ajoelhava diante de Deus, como reverenciava até
mesmo os indignos ministros do sacratíssimo Corpo do
Senhor.
Mesmo sem castelos, foi cavaleiro e tinha um espírito
repassado de cortesia. Cultivou dois locais emblemáticos
para a espiritualidade franciscana: viveu no estábulo
de Rivotorto e na capelinha da Porciúncula. No primeiro
tinha a companhia de animais; no segundo, a dos anjos que
esvoaçavam em tomo à Santíssima Virgem.
A cada ano, fazia questão de levar dois peixinhos
do riacho que corria junto à igrejinha para o Abade
de Monte Subásio, deixando claro que a Porciúncula
continuava sendo dele, mesmo sendo o berço da Ordem
e o lugar afetivo em que cortara as tranças da Irmã
Clara. Tinha entranhada devoção filial à
Santa Mãe de Deus e ardente paixão pela humanidade
de Jesus.
À moda de conclusão, não ignorando as
muitas falhas desta sumária lista de valores, diríamos
que a identidade franciscana tem as seguintes caraterísticas
que lhe dão um rosto inconfundível: ela é
casta e livre, é de serviço e de companhia,
é misericordiosa e universal, é alegre e de
paz. É vertical e horizontal, como uma cruz que é
de vida e morte.
Francisco não teve vaidades, jamais foi arrogante,
embora a graça de Deus o trabalhasse generosa e visivelmente.
Não alimentou sentimentos de inferioridade diante de
reis e príncipes, nem foi mesquinho e insensível
frente aos necessitados, mas só sentia inveja de irmãos
que pudessem ser mais pobres do que ele. "Ao chegar aos
pobres, não se contentava em dar-lhes o que possuía.
Desejava dar-se a si mesmo e, quando já não
tinha mais dinheiro, entregava suas vestes, descosendo-as
ou rasgando-as às vezes para as distribuir" (LM
1,6). Foi firme com os gananciosos e desarmado diante dos
poderosos. Paciente nas tribulações e doenças,
não apreciava títulos e honrarias e queria que
todos fossem simplesmente irmãos. A si mesmo se considerava
menor, pecador e indigna criatura do Deus Altíssimo.
Por isso, "seu modo de vida o transformou radicalmente:
nas idéias e sentimentos, nas vestes e no comportamento"
(LM 2,1). Como arauto do Grande Rei, morreu deixando para
a história a imagem de um crucificado e colocando nas
mãos de seus seguidores a bandeira da Paz e do Bem.
» A utopia franciscana
Dentro do mundo dividido por roupas bufantes e andrajos
vis, medos e discriminações, classes e guetos,
São Francisco entendeu que a mais radical mensagem
evangélica vinha do céu, mas tinha que ser construída,
aqui, na terra. Cristo trouxe a morte dos exclusivismos, decretou
o fim dos privilégios e abriu as portas do banquete
para todos, indistintamente.
Na pregação de Cristo, o paraíso não
tem cercas. Nem o convento. Por causa do fratemismo. Pobres,
doentes e pecadores são os privilegiados destinatários
do anúncio da Boa Nova. Com Cristo, o Reino de Deus
chegou e são reinagurados os tempos divinos da Fraternidade
definitiva. Somos todos irmãos, porque temos todos
um Deus que é igualmente Pai de todos.
Isto São Francisco intuiu e quis dar corpo a esta
realidade dentro e fora da Ordem..Por isso, não quis
que ninguém fosse Abade ou Prior, mas que todos fossem
simplesmente irmãos. Fora dos conventos, também.
A começar pelos leprosos, pelos pecadores e por Dona
Pobreza, todos deveriam ser tratados da mesma forma. IRMÃO,
eis o grande título resgatado pela utopia franciscana!
SER IRMÃO é o maior e o único titulo
de honra dentro da espiritualidade franciscana. Não
só Deus lhe deu irmãos, mas quis que os frades,
como irmãos, fossem pais e mães uns dos outros.
Uns dos outros e de todas as criaturas.
Outros poderão ostentar nobilíssimos apanágios:
o nosso, o apanágio franciscano, é o de ser
irmão, dentro e fora dos conventos. Seremos franciscanos,
quando irmãos em espírito e de verdade.
Formar um frade é formá-lo para ser irmão.
Trabalhar como frade é servir como irmão. Viver
como franciscano é viver, teimosamente, como irmão.
Podemos não ter outras virtudes, mas só a falta
de fraternismo adulteraria nossa identidade e nos excomungaria
da utopia franciscana. Santos seremos e nos santificaremos
junto com os outros na cruz da convivência fraterna.
O nosso maior pecado, o pecado mortal de nossas vidas, por
isso, será o da falta de amor fraterno.
Entre nós, quem não for irmão será
um estranho no ninho. O maior elogio que podemos dar a uma
pessoa é o de chamá-lo de irmão. Esta
é a nossa utopia, a utopia franciscana para a qual
devemos, como Província, somar alma e coração.
Frei Neylor, irmão menor e pecador |