C A R N A V A L

 

Queridos amigos, um bom Carnaval para todos! Que sejam dias de divertimento para quem pretende se divertir, de elevação espiritual para quem se recolher em algum Retiro e de paz para todos. De paz e de bom senso. Não vale, com certeza, a pena estragar toda uma vida por causa de umas poucas loucuras.

Esta singela reflexão sobre o Carnaval não será de condenação ou de exaltação, pura e simplesmente. Sabemos que o Carnaval é a suspensão na rotina e na seriedade de nossa vida nacional. Para o mundo, que receberá imagens fragmentadas e, possivelmente, apimentadas do nosso Carnaval, nosso país poderá parecer pouco sério, um país “da carne”, um quase que retorno ao Paraíso Perdido, (onde nossos Primeiros Pais andavam nus sem se envergonhar).

Para nós, que conhecemos, mais amplamente, a história e as práticas do nosso Carnaval, sabemos que esta caricatura simplificada não representa, finalmente, a alma destes dias. O Desfile da Escolas de Samba, por exemplo, é uma explosão de cores e de arte, do qual chegamos a nos orgulhar por sua criatividade e inegável beleza. Nosso Carnaval é, reconhecidamente, a maior festa popular coletiva de dança e alegria do mundo. Isso não é pouco.

O Carnaval é um fenômeno social, é a celebração da festeira alma brasileira, alegre e de “costumes despejados”, como definia o nosso escritor maior, Machado de Assis.

Há os que, na verdade, gostam e brincam o Carnaval, onde ocorrem exageros. Mas não devemos ver os dias de Carnaval apenas com olhos moralizantes, pensando que atraem sobre nossa sociedade as “as iras divinas”. Mais irado do que com as loucuras do Carnaval, Deus, com certeza, fica irado com a fome que não termina, com a corrupção que campeia, com a indignidade que assola, o ano inteiro, a milhões de seus filhos. As barbaridades permanentes e endêmicas de nossa vida social são, certamente, muito mais graves do que os exageros passageiros cometidos por alguns nos poucos dias de Carnaval.

Há, com certeza, exageros, excessos, excentricidades e se cometerão, nestes dias, muitas loucuras. Quando ocorrem não podemos deixar de as lamentar. Mas o Carnaval não é, em definitivo, isso. Infelizmente, e o reconhecemos, o bicho humano nem sempre vive dentro de seus limites e dá vazão, no Carnaval e fora dele, a seus devaneios e desvarios.

Mas o Carnaval, por sua beleza e expressão de alegria, está, com certeza, mas perto do céu do que do inferno. É mais coisa de Deus do que do diabo.

Essencialmente, o Carnaval é uma forma exuberante e transbordante de nossa festiva e bonita, alegre e dançante alma brasileira. Esquecemos, momentaneamente, as agruras da vida, pobres e ricos se irmanam num mesmo sonho de reis e rainhas, de luzes e fantasias.

Enquanto as pessoas, no dia a dia, se desdobram, com seriedade, no trabalho e na vida pacata da família, no Carnaval afrouxa-se o laço da gravata e do recato dos comportamentos para o embalo da música e para a soltura inconsciente e coletiva dos corpos.

Não quero fazer destas considerações um tratado sociológico ou moral sobre o Carnaval. Mas também não quero deixar de exaltar o nosso povo que é capaz de criar uma celebração tão bonita, invejada pelos demais países e na qual deveríamos expressar só alegria e aplaudir a beleza.

Queridos amigos, dancem e pulem, brinquem e se divirtam no Carnaval, sabendo que nem tudo terminará na Quarta Feira de Cinzas. Depois destes dias, a vida do trabalho e da família continuará cobrando-nos seriedade e empenho, luta e bom senso. Estes dias são apenas uma pausa festiva no desafio da vida, que tem as bênçãos de Deus.

Frei Neylor J. Tonin

Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 2011.

(Frei Neylor J. Tonin, franciscano, irmão menor e pecador)