Finalmente, a Igreja do Brasil, depois de venerar por quase 500 anos os santos do mundo inteiro, mereceu também ela, na pessoa de Frei Antônio de San'Anna Galvão, as honras dos altares. No dia 28 de outubro de 1998, o Papa João Paulo II beatificou a FREI GALVÃO, oficializando-o como o primeiro beato brasileiro e reconhecendo-lhe publicamente “o grau heróico de virtudes”. A partir deste dia, todos os seus devotos puderam rezar e invocá-lo: “Beato Frei Galvão, rogai por nós!” E, agora, em 11 de maio, o Papa Bento XVI está proclamando Frei Galvão santo para o mundo todo.

O primeiro santo brasileiro – dele disse Visconde de Taunnay: “Corria-lhe nas veias uns duzentos e cinqüenta e seis anos de sangue americano” - foi filho de Antônio Galvão de França, culto e remediado patrício português que aportou no Brasil em torno a 1730, e de Isabel Leite de Barros, nascida em Pindamonhangaba, São Paulo. Ambos pertenciam a famílias profundamente religiosas (católicas) e, depois de terem seus primeiros três filhos em Pinda, mudaram-se para Guaratinguetá onde nasceu em 1738/9 o filho que recebeu o nome de Antônio de Sant'Anna Galvão. Foi batizado na igreja-matriz da cidade, dedicada a Santo Antônio. O casal teve, ao todo, 10 filhos.

Antônio desejou, desde cedo, seguir a carreira eclesiástica. Queria ser padre e missionário. Seu pai, esperto português, desaconselhou-o a fazer-se jesuíta, embora tivesse sido chamado de “flor da formação jesuítica” pelos estudos que fez com eles em Salvador, Bahia, pois, naquele tempo, eram perseguidos pelo Primeiro Ministro português, Marques de Pombal. Seus pais eram Terceiros Franciscanos e Antônio ingressou no Noviciado dos Frades Menores em 1760. Dois anos mais tarde, precisamente no dia 11 de julho de 1762, foi ordenado sacerdote muito provavelmente no Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca da cidade do Rio de Janeiro.

Não se demorou muito nesta cidade. Seu destino era São Paulo a 400 quilômetros do Rio. Para lá se dirigiu o recém-ordenado padre, com pouco mais de 24 anos. Merece registro o que reportam os relatos da época: foi a pé! Aliás, sabe-se, com certeza, que fez este trajeto a pé pelo menos duas vezes. Era a forma que escolhia para ir evangelizando as populações ao longo do Rio Paraíba.

Quando chegou a São Paulo, a atual metrópole de quase 15 milhões de habitantes era uma esquálida vila de apenas 3.852 moradores. Frei Galvão deve ter sido, nesta esquecida cidadezinha, uma figura proeminente, pois foi logo ocupando cargos e ministérios. O livreto Louvores a Frei Galvão o descreve como “astuto conforme o evangelho”, “instrumento franciscano de paz”, “místico e fecundo na ação”, “testemunho do trabalho”, “porteiro e fiel acolhedor” . Amparava as três Ordens franciscanas e empenhou quase toda a sua vida a construir o Mosteiro da Luz, onde teve lugar a fundação das Irmãs franciscanas Concepcionistas, em homenagem à Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Tendo terminado seus estudos em 1768, aos 30 anos, foi nomeado pregador, confessor dos leigos e responsável pela Portaria do Convento de São Francisco de São Paulo. Mas ele queria mais, muito mais, e isto foi sua glória e sua cruz.

O Capitão-General da Comarca, Dom Luís, Governador da Capitania e homem profundamente culto e religioso, resolveu criar uma Academia de Letras, que incluía a presença de Frei Galvão. Itu, Sorocaba, cidades do Vale do Paraíba foram visitadas pelo pregador franciscano, insigne por sua sabedoria e eloqüente por sua retórica.

Mas nem tudo foi céu-de-brigadeiro na vida de Frei Galvão. O que Dom Luís teve de amigo, seu sucessor, Dom Martim Lopes, foi de espinho. Para agradar seus chefes imediatos que eram declaradamente anticlericais, Dom Martim ordenou o imediato fechamento do Recolhimento da Luz, obra que vinha ocupando as forças e o engenho construtor de Frei Galvão e cujos benefícios já se faziam sentir na vida dos habitantes de São Paulo. Mas o clamor popular foi mais forte e o Governador teve que voltar atrás, pela primeira vez.

Mas houve uma segunda que ocorreu quando o filho do Governador se envolveu numa bebedeira e brigou com um soldado chamado Caetaninho que o feriu. O pobre soldado foi condenado à morte, o que revoltou a população e encontrou em Frei Galvão o advogado forte que o caso precisava. Como o Governador era maldoso, acabou expulsando o frade da cidade que se prontificou em obedecer, sem reagir. Mais uma vez o povo, que tanto já o reverenciava, o salvou e o decreto foi revogado, podendo Frei Galvão permanecer na cidade.

No Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro (Largo da Carioca), seis ilustres figuras do tempo do Império ocupam o corredor principal do Convento. Entre elas estão Frei Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio, um dos artífices da Independência do Brasil e conjurador do Dia do Fico e Frei Francisco de Monte Alverne, o maior pregador da época e pregador oficial da Capela Real. Pois bem, um dos seis quadros retrata Frei Antônio de Sant'Anna Galvão. Isto significa que, tendo vivido 84 anos – morreu no dia 23 de dezembro de 1822, foi um pico soberano em meio à paisagem do século XIX, alteando-se como cultura e santidade, como realizador de uma obra admirável e figura fascinante de extrema grandeza e beleza espiritual. Foi corajoso sem ser duro, foi dedicado sem ser conivente. Enfrentou os tiranos e acudiu os necessitados. Nunca mostrou medo e foi sempre frade menor em seus serviços apostólicos. Hoje ocupa, com méritos próprios e por graça divina, os altares da Igreja como o primeiro santo brasileiro declaradamente na glória dos santos.

Frei Neylor José Tonin, irmão menor e pecador

 

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