QUERIDOS AMIGOS: Eu poderia, e até deveria, falar deste evangelho, apenas lido, mas não consigo e não quero, e creio que Deus também não o quer. Porque, nesta semana, a glória de Deus, o amor e a santidade de Deus e a nossa alma humana foram agredidas por um crime monstruoso, inadmissível, de insuportável sofrimento. Ficamos todos aterrorizados! Chocados! Assustados! Entristecidos! Revoltados! Emudecidos! Com lágrimas nos olhos, o nosso coração humano pisoteado! A nossa humanidade foi ferida de morte, os nossos sentimentos ficaram gelados! Assim ainda estamos e todos ficamos quando soubemos da morte cruel e impensável daquela inocente criança, daquele alegre menino chamado JOÃO HÉLIO FERNANDES VIEITES, arrastado por facínoras, marginais, animais, demônios desqualificados, por 7 quilômetros, num espetáculo macabro, pelas ruas de nossa cidade.

Não nos servem de consolo os versos gritados por Castro Alves em seu poema O Navio Negreiro : “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, se é loucura... se é verdade tanto horror perante os céus! ‘O Mar, por que não apagas co'a esponja de tuas vagas do teu manto este borrão?” - Diante de nossa revolta assustada, os versos do mesmo poeta em Vozes da África parecem-nos apenas retóricos: “Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em que estrela Tu te escondes, embuçado nos céus? (...) Se choro, bebe o meu pranto a areia ardente! Talvez... pra que meu pranto, ó Deus clemente, não descubras no chão! (...) Basta, Senhor! De teu potente braço role através dos astros e do espaço perdão para os crimes meus. Há dois mil anos... eu soluço um grito. Escuta o brado meu lá do infinito. Meu Deus! Senhor, meu Deus!”

Parece que chegamos ao fundo do poço da nossa frágil humanidade. Diante dos olhos de Deus, encontramos, de repente, o rosto terrível e diabólico que podemos ter. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, mas podemos chegar a ser um demônio sem graça e sem piedade.

Ficamos e estamos estupefatos, porque não se pode matar uma criança, como não se pode desrespeitar um velhinho. O começo e o fim da vida são sagrados, porque ambos repousam nos braços de Deus. Agredir uma criança de 6 anos é levantar o braço assassino contra os braços amorosos de Deus. Por isso, a Bíblica reza: “Levantai-vos, ó Deus, levantai-vos e castigai os opressores!”

Se pudéssemos abraçar os pais do JOÃO HÉLIO, talvez não conseguiríamos lhes dizer nada. Apenas os apertaríamos com imenso carinho e repassada compaixão. E lhes enxugaríamos as lágrimas com o lenço de uma oração.

E depois gritaríamos da janela de nossas casas aos Três Poderes da República: “Cuidem mais da Paz de nossa sociedade. E parem de discutir os próprios salários, ó Governantes insensíveis e egoístas! Parem de brigar por cargos e mais privilégios, políticos sem alma! Não os comove ver o Povo morrendo por falta de pão e de paz? Não se sentem vocês abalados ver uma criança pura e inocente arrastada, sem piedade, pelas ruas de nossos olhos atormentados?”

QUERIDOS AMIGOS: Não podemos mais ficar em silêncio. O poder e a glória de Deus foram ofendidos, um seu pequeno filho foi assassinado, uma família perdeu a alegria de viver. A nossa sociedade está de luto. De luto está a nossa humanidade. A violência é sempre um mal, é sempre um crime, é um crime contra a humanidade.

Que a voz de Deus, que o trovão da voz de Deus acorde as nossas consciências. Não pedimos a Deus que nos reconduza ao Paraíso Perdido, mas, ao menos, que nos livre e não nos deixe cair no inferno. E que os demônios sejam, por São Miguel Arcângelo e pelos Anjos bons, precipitados e amarrados em sua verdadeira casa, o inferno.

Queremos paz! Paz para viver. Paz para amar e sermos amados. Paz para rezar e trabalhar. Paz em nossas casas e em nossas ruas.

Se isso não for possível, que voltemos todos para a floresta e sejamos inocentes animais, sem alma, sem valores, sem Deus. Mas se tivermos que ser gente, que não vivamos como animais ou demônios, pois somos filhos de Deus, temos um Salvador, e devemos ser , pura e simplesmente, segundo o mandamento divino, irmãos uns dos outros. Amém!

Frei Neylor J. Tonin, irmão menor e pecador

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