Rádio HAROLDO DE ANDRADE 1060 AM – 1°. aniversário

QUERIDOS AMIGOS: Fazemos todos os dias, normalmente, os mesmos caminhos. Assim é nossa vida de adultos, sem grandes novidades. Este é o preço da bendita rotina, que é boa e pode ser chata, ao mesmo tempo. Vamos e voltamos fazendo quase sempre os mesmos caminhos e as mesmas coisas. Gostaria de lhes apresentar, com alguns singelos comentários, o caminho que faço quando venho à RÁDIO HAROLDO DE ANDRADE.

Com isso, gostaria de saudar a nossa Rádio que está, hoje, completando seu primeiro aninho. É, ainda, uma criancinha, rechonchudinha, cheia de vida, de olhos irrequietos, que, como toda criancinha, causa tantas alegrias e está com o futuro todo pela frente.

Antes de sair do meu Convento, passo pela igreja, que é a Casa de Deus. Lá na frente, ao lado do altar, vejo uma luzinha tremeluzindo e assinalando que o dono da casa está presente. Assim como a bandeira anuncia que o Presidente está no palácio, assim a pequena luz em nossas igrejas atesta que Jesus está no sacrário. Nos bancos, vejo muitas pessoas ajoelhadas, rostos contritos, rezando. O que estarão rezando? O que estarão dizendo a Deus? Mistério. Não dá para saber. Mas, com certeza, estarão fazendo algumas confidências ao Senhor de todos os corações. Estarão falando de suas vidas e dificuldades. Uma mãe estará pedindo por seu filho que é dependente das drogas e que está numa pior; um homem estará rezando por sua família, para que haja mais amor e união em casa entre pais e filhos; um jovem estará suplicando a Deus por uma prova que deverá fazer, ou por um emprego que está buscando, ou por um amor que está difícil de acontecer. Há muitas pessoas no silêncio e no escuro da igreja. Todas contritas e rezando. E eu penso: quantos dramas tem o coração humano! Não disse o poeta: “Há lágrimas que rolam pela face e há outras que rolam no coração”? Numa igreja, na nossa igreja do Convento de Santo Antônio, comparecem e acontecem o mundo e a vida de muitas pessoas. E nós passamos ao lado do mundo e da vida e não lhes damos suficiente atenção. Às vezes, eles estão chorando de tristeza; outras, de alegria. E nós, passando ao largo. O mundo e a vida acontecem sem a nossa participação. Não dá, é verdade, para participar de tudo, mas é também verdade que participamos de tão poucas coisas na vida, e assim mesmo nos achamos com o direito de avaliar o mundo, a terra e o céu. Bem, deixo a igreja. Ajoelho-me antes de sair para a rua e peço a Deus que me proteja. Santo Antônio, lá do alto do seu trono, parece me dizer: “Vai em paz! Os anjos de Deus estarão contigo”.

Desço para o Largo da Carioca. E aí encontro o mundo dos pobres, dos nossos queridos pobres que são os privilegiados de Deus. Jesus os declarou bem aventurados, dizendo que deles é o Reino dos Céus. É difícil imaginar estes pobres numa vida diferente da que levam. Aí estão corpos que não tomam banho, rostos sofridos, cabelos desgrenhados, roupas sujas e amarfanhadas, acomodados ao lado de alguns sacos de roupas e restos de coisas, mas com olhos brilhantes e esperançosos. Sempre esperançosos de uma esmola por amor de Deus. Assim é a eterna imagem dos pobres de todos os tempos: olhares compridos, mãos estendidas, esperanças suplicantes e sofridas. Ser pobre é viver assim: maltrapilho, sujo por falta de banho, dependente da caridade dos passantes. Sempre à espera da solidariedade humana. Ninguém quer ser pobre, penso eu, quando me aproximo deles. Ser pobre é uma cruz e uma desventura. Será um destino? Os filhos destes pobres serão também pobres e pedintes? Convido-os a tomar café e a comer um sanduíche, um joelho, um quibe ou um pedaço de bolo. Eles aceitam. Levantam-se com presteza e me seguem. Já me conhecem. Eu também os conheço, até pelo nome. Gosto deles. Já não posso mais viver sem eles. Se um dia acabarem com os pobres em nossa cidade, o Largo da Carioca já não será mais o mesmo. Os pobres fazem parte deste espaço, assim como as árvores floridas e os funcionários do BNDES que passam, engravatados ou em vestidos esvoaçantes, em busca de seus escritórios de trabalho. Igreja e pobres se atraem. Aliás, é bom que assim seja. Os pobres devem poder encontrar um lugarzinho e um refúgio junto às igrejas. Não são as igrejas casas de Deus? Não veio Jesus para os pobres, doentes e pecadores? Pois, então, entremos em acordo, permitindo que os pobres fiquem perto daquele que mora na igreja e, um dia, nasceu para eles. Sim, queridos pobres, venham para a porta de nossas igrejas! É Deus quem os chama e é, em nome de Deus, que nós os recebemos e lhes oferecemos o café da manhã e a generosidade do nosso coração e do nosso bolso.

Deixo os pobres comendo e tomo a calçada da Av. Rio Branco em direção da Rua Buenos Aires 68, onde está a Rádio Haroldo de Andrade, 1060 AM, onde trabalho. Passa por mim um rio de gente. Ninguém anda devagar. Todo mundo tem pressa. Parece que todos estão atrasados. Uns vão esbarrando nos outros, pedindo desculpas ou nem tendo tempo para tanto. Está todo mundo louco para chegar. Chegar aonde? Ora, ao local de trabalho, é claro. Ninguém se cumprimenta, ninguém se olha, ninguém dá atenção aos outros, todos apenas desfilam, apressados e, certamente, preocupados. Que tal se um estranho nos parasse e nos dissesse “bom dia”? Não seria bom? Bom seria, mas seria também estranho. Seria notícia! Contaríamos, depois, a todo mundo a estranha sensação de ter sido cumprimentado por alguém que nunca tínhamos visto antes. Mas isto raramente acontece, porque estamos todos apressados e querendo sempre chegar.

Eu também continuo andando. Vejo uma mãe jovem, roupas pobres, mas muito limpinha, caminhando devagar, carregando, ao colo, com extremo cuidado, o seu filhinho. Aperta-o contra o peito, parece fazer-se um só com ele, passa-lhe calor, após ter-lhe dado, sem dúvida, o próprio leite. A criança parece calma e está bem aconchegada. Talvez esteja até dormindo, no meio daquela barafunda de pessoas apressadas e atrasadas em direção aos seus destinos. A cena da mãe com seu filhinho parece humanizar, ao menos um pouco, o rio das pessoas que se apressam e dos carros quase vazios e dos ônibus quase sempre cheios que deslizam pela avenida. E me lembro de uma frase do escritor português JOSÉ SARAMAGO. “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo!” Sim, não percamos tempo! Mas, numa grande cidade, dá para viver sem pressa? Temos pressa até para comprar o pão para o café da manhã. Chegamos a nos irritar quando o pão acabou e temos que esperar 5 minutos para sair a nova fornada. Temos pressa e nos incomodamos quando o elevador atrasa por qualquer razão. Vejo as pessoas com pressa até quando entram numa igreja. As orações que fazem são, em geral, apressadas, agoniadas. Até Deus, eterno e senhor do tempo, fica sujeito às nossas pressas. Enfim, viver apressado é um jeito moderno de ser. Um mestre oriental disse que nós, do Ocidente, somos infelizes porque quando sentamos já queremos nos levantar, quando nos levantamos já queremos sair correndo e quando corremos já pensamos em chegar.

Bem, estou chegando à RÁDIO. Vi mil outras coisas pelo caminho, eu me levam a pensar e a rezar. Que da vida sejamos todos bons pastores, ardentes profetas e encantados poetas. E que nossos caminhos floresçam e frutifiquem para que os passantes possam encher-se de encantamento e de admiração. Bom seria poder viver sem pressa, mas cuidando de não perder tempo. Que Deus nos abençoe por viver para os outros, e nos ensine que a vida é curta, mas é encantadora. Nela, no meio da multidão, uma jovem mãe pode estar carregando o fruto de suas entranhas. Chego à Rádio. A Rádio é um lugar em que alguém fala e todo mundo faz silêncio. Na Rádio Haroldo de Andrade não é diferente. E, hoje, ela está fazendo um aninho. Que ela continue a falar para você, QUERIDO OUVINTE! De coração aberto, receba as nossas palavras e os nossos silêncios!

Frei Neylor J. Tonin

 

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