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Esta história foi contada por Ben Wakes e apareceu em "Seleções",
no mês de junho de 1963. Numa destas manhãs, quando fazia
a barba, minha filha de seis anos me perguntou de repente:
- Papai, onde é que Deus mora, realmente?
- Num poço, respondi distraído.
- Oh, papai, disse ela meio descrente e surpresa.
Durante o café, minha esposa me perguntou:
- Que foi que você andou dizendo à Debbie, acerca de Deus
morar num poço?
- Num poço? - estranhei. Deixe-me ver: por que lhe teria dito isto?
Então, de repente, recordei-me de uma cena que estivera escondida
em minha memória há mais de trinta anos. Acontecera na cidadezinha
de Kielce, no sudoeste da Polônia. Um bando de ciganos havia parado
junto a um poço. Na época, eu deveria ter uns cinco anos.
Um cigano, em particular, me chamara a atenção. Era um homem
gigantesco. Havia tirado do poço um balde cheio de água
e estava de pé, bebendo. Um pouco da água escorria-lhe pela
barba ruiva e segurava contra os lábios, com as mãos musculosas,
o grande balde de madeira como se fosse uma xícara. Quando terminou,
enxugou o rosto com a manga da camisa. Depois, inclinou-se e olhou para
dentro do poço. Curioso, tentei subir na beirada do poço
para ver o que ele estava observando. O gigante notou, sorriu e me levantou
em seus braços.
- Sabe quem mora lá embaixo? - perguntou-me. É Deus! Olhe!
E segurou-me na borda do poço. Lá, na água parada,
como num espelho, vi meu rosto.
- Mas aquele sou eu!
- Ah - tornou o cigano, pondo-me no chão. Agora você sabe
qual é a casa de Deus.
Rostos de recém-nascidos dormindo em paz, rostos de crianças
buliçosos e traquinas, rostos de adolescentes cobertos de espanto
e espinhas, rostos de jovens sonhadores, confiantes e questionadores,
rostos de trabalhadores cansados e de consciência tranqüila,
rostos de doentes, sofrendo e conformados, rostos de velhos com rugas
e iluminados, rostos de homens e mulheres com todas as alegrias e sofrimentos
do mundo: que melhor lugar do que neles, nos rostos humanos, para Deus
assomar, se refletir e dizer "presente" à vida? Não
há nada mais bonito que um rosto humano, não importa como
seja. Só a morte consegue apagar sua beleza, para então
transmutá-la na beleza daquele que, em vida, nele se mostrou
nos braços fortes de um cigano e na limpidez das águas
de um poço profundo.
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