Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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14. A porta de saída do inferno  

No filme Gandhi, de Richard Attenborough, há, quase no final, uma cena de grande força espiritual, só protagonizável por pessoas que pairam acima de desimportantes diferenças políticas, sociais ou religiosas. Gandhi estava entregue a um rigoroso jejum, já muito debilitado, quase morrendo, pois não aceitava que a Índia, ao se libertar dos ingleses, se dividisse entre hindus e muçulmanos. (Na verdade, ele viria a ser assassinado, pouco depois, por um separatista.) Estava estirado em seu enxergão, quando se apresentou um hindu que lhe disse merecer o inferno. Gandhi lhe perguntou:
- Por que falas assim? Que fizeste?
- Matei uma criança muçulmana, confessou envergonhado.
- Por que razão?
- Porque eles também mataram meu filho.
Gandhi, então, ensinou-lhe com extrema doçura:
- Há uma porta de saída do inferno: a da tolerância, a do perdão, a da boa convivência. Agora, vai e adota uma criança muçulmana e não tentes mudar suas convicções religiosas. Deixa-a viver como muçulmana.

Não há, no fundo da maioria das pessoas, um bicho mau, amedrontado e amedrontador, pronto para o crime do desamor?
Não existe em cada pessoa o que a cineasta italiana, Liliana Cavani, chama de "o porteiro da noite", sempre à espreita para surpreender o outro, que pensa ou age diferente de nós? E com eles nos mostramos intolerantes, quase ansiosos por sua eliminação, como se com isto estivéssemos garantindo mais paz para nosso espírito e, até, prestando um culto agradável a Deus. No fundo, nossas convicções humanas e religiosas não são puras, nem têm profundidade, não passando de carne que servimos à besta assustada, assustadora e intolerante que vive dentro de nós. Temos, infelizmente, uma religião de nazistas e pensamos que Deus se compraz com fogueiras e altares de sacrifícios. Somos como que minotauros-de-morte, ajoelhados, em adoração, diante do Deus-da-vida. Seria importante que cada pessoa tivesse um pequeno muçulmano em casa para testar o próprio respeito e amor à liberdade.


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