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No filme Gandhi, de Richard Attenborough, há, quase no final,
uma cena de grande força espiritual, só protagonizável
por pessoas que pairam acima de desimportantes diferenças políticas,
sociais ou religiosas. Gandhi estava entregue a um rigoroso jejum, já
muito debilitado, quase morrendo, pois não aceitava que a Índia,
ao se libertar dos ingleses, se dividisse entre hindus e muçulmanos.
(Na verdade, ele viria a ser assassinado, pouco depois, por um separatista.)
Estava estirado em seu enxergão, quando se apresentou um hindu
que lhe disse merecer o inferno. Gandhi lhe perguntou:
- Por que falas assim? Que fizeste?
- Matei uma criança muçulmana, confessou envergonhado.
- Por que razão?
- Porque eles também mataram meu filho.
Gandhi, então, ensinou-lhe com extrema doçura:
- Há uma porta de saída do inferno: a da tolerância,
a do perdão, a da boa convivência. Agora, vai e adota uma
criança muçulmana e não tentes mudar suas convicções
religiosas. Deixa-a viver como muçulmana.
Não há, no fundo da maioria das pessoas, um bicho
mau, amedrontado e amedrontador, pronto para o crime do desamor?
Não existe em cada pessoa o que a cineasta italiana, Liliana
Cavani, chama de "o porteiro da noite", sempre à espreita
para surpreender o outro, que pensa ou age diferente de nós?
E com eles nos mostramos intolerantes, quase ansiosos por sua eliminação,
como se com isto estivéssemos garantindo mais paz para nosso
espírito e, até, prestando um culto agradável a
Deus. No fundo, nossas convicções humanas e religiosas
não são puras, nem têm profundidade, não
passando de carne que servimos à besta assustada, assustadora
e intolerante que vive dentro de nós. Temos, infelizmente, uma
religião de nazistas e pensamos que Deus se compraz com fogueiras
e altares de sacrifícios. Somos como que minotauros-de-morte,
ajoelhados, em adoração, diante do Deus-da-vida. Seria
importante que cada pessoa tivesse um pequeno muçulmano em casa
para testar o próprio respeito e amor à liberdade.
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