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Os "Fioretti" ("florezinhas", em português)
são pequenas histórias que podem ter tanto de engraçado
quanto de verdadeiro. Normalmente, primam pela graça dos sentimentos
e do inesperado, ambos puros e espontâneos. Neles, os sabidos são,
quase sempre, vencidos pelos simples. Os prepotentes sempre levam a pior.
Em seu jardim, as "florzinhas" que crescem são as da
bondade, ternura, mansidão, pureza, simplicidade e alegria. As
cenas são variadas, como se poderá ver nos quatro "fioretti"
a seguir, mas a lição é sempre de encantadora e gostosa
sabedoria. Com aparência de inofensivos, eles são alimento
forte para o espírito dos que já perderam uma certa solenidade
enfarada, pois só estes conseguem digeri-los bem.
* Certa vez, vivendo Frei Junípero, o mais simples dos companheiros
de S. Francisco (1182-1226), no vale de Espoleto, e sabendo que em Assis
haveria uma grande solenidade a que muita gente assistiria, com grande
devoção, veio-lhe a inspiração de também
ir àquela festa. Despiu-se e, nu, foi atravessando a cidade de
Espoleto até chegar ao convento dos frades, em Assis. Muito perturbados
e escandalizados, repreenderam-no asperamente, chamando-o de doido e estulto
e vergonha da Ordem de S. Francisco. Como tal, deveria ser acorrentado
nos porões do convento. O Superior Geral, ciente do ocorrido, reuniu
a comunidade e mandou chamar Frei Junípero, em quem passou uma
áspera descompostura. E, depois, com rigorosa justiça, disse-lhe:
- Tua falta é tal e tanta que não sei qual a penitência
que estás a merecer.
Ao que, de pronto, respondeu-lhe Frei Junípero, como pessoa que
se deleitasse com a própria confusão:
- Reverendo Pai, peço-lhe que assim como nu aqui vim, nu possa
regressar, como penitência, a meu convento de origem.
* Certo senhor pediu a Frei Egídio, um dos companheiros mais caros
a S. Francisco, que rezasse por ele.
- Reza tu mesmo, estranhou o frade. Por que ficas para trás, encolhido,
quando tu mesmo podes ir para a frente, e mandas outro em teu lugar?
- Mas, Frei Egídio, desculpou-se o senhor, eu sou pecador, ando
muito afastado da religião. Mas o senhor, que é santo, pode
conseguir tudo o que pedir a Deus.
- Olha aqui, meu irmão, censurou-o o Frei. Se todas as estradas
da Perúgia (região de Assis) estivessem cobertas de ouro
e prata e caso corresse a notícia de que todo mundo poderia colhê-los
à vontade, enviarias tu um emissário em teu lugar para servir-se
destes tesouros?
- De modo algum! Pelo contrário, eu mesmo me apressaria e jamais
confiaria tal missão a quem quer que fosse.
- Pois bem, concluiu o santo, assim é com Deus. O mundo todo está
cheio dele. Todos podem consegui-lo. Não é preciso mandar
ninguém no próprio lugar.
* Certa vez, Frei Egídio, homem muito simples e piedoso, assim
falou ao Ministro Geral, Frei Boaventura (+1274), um dos maiores teólogos
da Igreja:
- Meu Pai, Deus lhe deu muitos dotes. Eu, pessoalmente, não recebi
grandes talentos. O que devemos nós, ignorantes e tolos, fazer
para sermos salvos?
O douto e santo Frei Boaventura lhe ensinou:
- Se Deus não desse ao homem nenhuma outra capacidade senão
a de amar, isto lhe bastaria para se salvar.
- Quer dizer que um ignorante pode amar a Deus tanto quanto um sábio?,
perguntou Frei Egídio, tentando entender.
- Mesmo uma velhinha muito ignorante, disse-lhe com ternura o grande teólogo,
pode amar a Deus mais do que um professor de Teologia.
Dando pulos de alegria, Frei Egídio correu para a sacada do convento
e começou a gritar:
- Ó velhinha, ignorante e bronca, tu que amas a Deus Nosso Senhor,
podes amá-lo mais do que o grande teólogo Frei Boaventura.
E, comovido, ficou ali, imóvel, por três horas.
* Frei Junípero, aquele frade que era simples e trapalhão,
costumava fazer das suas. Certo dia, no entanto, ultrapassou todos os
limites imagináveis, irritando de tal forma seu Guardião
(Superior), que este, de tanto repreendê-lo, em alto e bom som,
acabou por perder a voz. Frei Junípero ficou muito arrependido
pelo fato de, com seu jeito de botar os pés pelas mãos,
ter deixado afônico seu Superior. Foi para a cozinha - ele era,
aliás, o cozinheiro da comunidade - e preparou o melhor mingau
que sabia fazer e foi, no meio da noite, bater à cela de seu Guardião.
Levantando-se, atônito diante de Frei Junípero, que segurava
uma lamparina numa mão e a tigela de mingau na outra, perguntou,
aos berros (mesmo estando rouco):
- Mas o que é isto?
- Sabe, Padre Guardião, disse-lhe com simplicidade o Frei, hoje,
quando o senhor se irritou comigo, notei que foi perdendo a voz. Então,
pensei que uma tigela de mingau...
Nem chegou a terminar a frase. O Guardião não se aguentou:
- Vá pro diabo com este mingau! Se já não bastasse
ter-me estragado o dia, ainda está querendo estragar-me a noite...
Ao que Frei Junípero, com a maior simplicidade do mundo:
- Está bem, Padre Guardião, prometo-lhe obedecer, mas, antes,
por favor, segure a lamparina, enquanto como o mingau?...
Que nossa simplicidade não irrite os outros nem lhes tire
o sono, mas que a irritação dos outros não nos
tire o bom humor nem nos faça perder o mingau. Amém.
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