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As historietas dos assim chamados Pais e Mães do Deserto (viveram
a partir do século IV, principalmente no Egito, em lugares como
Tebas, Nítria, Celas e Cetas, mas difundiram-se um pouco por todas
as partes) sempre me causaram grande admiração pelo vigor
de suas vidas, grandiosidade de seus intentos e generosidade de seus comportamentos.
Como todos os seus estudiosos, sempre apreciei sua saudável humanidade
e sabedoria espiritual. Foram, ao mesmo tempo, de Deus, sem deixar de
ser inteiramente dos irmãos. Rezavam e gostavam de ser fraternos.
Combatiam tanto o demônio do orgulho, que os dispensava de esperar
a salvação do Alto, quanto execravam a dureza de coração
diante das faltas dos irmãos. Estes monges eram verdadeiros atletas
de Cristo, sem se eximir, no entanto, de serem verdadeiros irmãos
uns dos outros.
Eis alguns valores que privilegiavam, sem se envaidecerem por possuir
algum deles: sobriedade de vida, contentamento, pureza de sentimentos,
paz de espírito, obediência alegre e digna, pobreza interior
e exterior, vigilância e domínio de si, oração
contínua, hospitalidade calorosa, perdão das ofensas e condescendência
para com os faltosos, ausência de julgamento, horror a intrigas,
concentração mental, ajuda mútua, misericórdia,
humildade, descanso do coração em Deus, compunção
e dor dos pecados e a ímpar e sorridente virtude do bom-humor.
Tudo isto, enriquecido por uma altíssima sabedoria e refinado senso
psicológico, que tão bem os fazia distinguir o pecador esforçado
do fariseu caiado, o neófito cheio de boa-vontade, mas ainda atrapalhado
no caminho das virtudes, do falso santo, travestido de luz, mas oco por
dentro.
São destes homens e mulheres maravilhosos, conhecidos como Pais
e Mães do Deserto, algumas das histórias que mais marcaram
minha vida e que aqui relembro.
Uma delas fala de dois irmãos, Pésio e Isaías, que
viveram em Nítria, um dos centros da Espiritualidade monacal. Eram
filhos de um comerciante que negociava com a Espanha. Tendo morrido, deixou
enorme fortuna: cinquenta mil denários, terras, rebanhos e muitas
propriedades. Os filhos, pessoas de bem e santos, decidiram, de comum
acordo, escolher o caminho da verdade e a regra e a vida dos verdadeiros
cristãos. "Faremos bom uso - disseram - da riqueza deixada
por nosso pai, sem, no entanto, colocar em risco o bem de nossas almas".
Um deles decidiu dividir sua herança, doando uma parte às
igrejas, outra aos mosteiros e outra aos pobres e indigentes. Ao mesmo
tempo, aprendeu um ofício, com o qual garantia a própria
subsistência, não descurando a vida de oração
e penitência. O outro, diversamente, não distribuiu seus
bens, mas com eles construiu um mosteiro, no qual se instalou um grupo
de monges, com a missão de acolher os peregrinos, os idosos, os
doentes e os pobres. Todas as segundas-feiras e sábados, armava
uma grande mesa onde era servida refeição aos indigentes.
Assim gastou toda a sua herança. Quando os dois morreram, todo
mundo os louvava, uns por uma razão, outros por outra, tendo surgido
uma grande disputa sobre qual dos dois teria sido mais perfeito e superior.
O problema foi levado ao santo Padre Pambão, um dos mais famosos
mestres espirituais do Deserto, que sentenciou: "Ambos foram perfeitos.
Um encarnou a hospitalidade de Abraão; o outro, o espírito
de renúncia de Elias". Mas os monges não se deram por
achados e perguntaram:
- Como é possível que os méritos dos dois tenham
sido iguais? Nós, em particular, disse um grupo, louvamos e exaltamos
mais aquele que escolheu a pobreza. Fez como manda o Evangelho: vendeu
tudo e deu-o aos pobres. Além do mais, foi fiel à cruz que
abraçou, seguindo o Senhor no jejum e na oração.
- Nós, argumentou o outro grupo, preferimos o que mostrou compaixão
para com os pobres e deserdados. Não somente salvou a própria
alma, como também transmitiu confiança aos desanimados e
cansados pelo peso da vida. Teria, sem dúvida, aceitado até
o ônus da morte para aliviar o sofrimento dos desgraçados.
Diante do impasse, o santo Padre Pambão tentava explicar:
- Asseguro-lhes que ambos tiveram os mesmos méritos. Tentem entender:
Se o primeiro não tivesse praticado o jejum, não teria estado
à altura da enternecedora bondade do outro; e como aquele que vendeu
tudo para dá-lo aos pobres teve a paz do corpo, assim também
este (uma vez que, embora o homem pense se sobrecarregar de graves incômodos,
abraçando os problemas dos outros, neles, no entanto, encontra
a paz do corpo).
As palavras do santo homem não foram totalmente convincentes para
os irmãos. Por isso, ele pediu alguns dias para meditar e se inspirar
diante de Deus. Após uma semana, os monges voltaram a sua presença
e quiseram saber o que Deus lhe revelara. E ele disse:
- Vi os dois irmãos no paraíso, na presença de Deus.
Principiantes da vida espiritual discutem, com ardor e paixão,
os caminhos da virtude e, com argumentos aparentemente inapeláveis,
classificam quem é "mais" ou "menos", no
ranking da santidade. Verdadeiros mestres sabem, no entanto, que tudo
isto não passa de um inútil bater-de-asas de quem ainda
não aprendeu a voar com segurança. Para eles, o que importa
é o destino e não o caminho. Estão por isto sempre
de olho pregado na estrela que os guia, esquecendo-se dos possíveis
e inevitáveis tropeços da caminhada. Não se perdendo
de vista a estrela, ela conduzirá os viajantes até a gruta
onde está Deus.
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