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Fugindo da dissolução dos costumes nas grandes cidades
e, principalmente, desejando viver mais intensamente o ideal evangélico
da pureza e oração, floresceram, graças aos Pais
e Mães do Deserto, eremitérios e cenóbios, aos quais
grandes mestres da vida espiritual atraíam grande número
de discípulos. Uma das caraterísticas da vida destes monges
era o distanciamento do barulho e a busca da paz exterior e interior.
Nem todos os alunos, no entanto, resistiam ao silêncio e desconforto
do deserto. A pouco e pouco, o ideal da paz deixou campo aberto à
tentação das novidades, propiciando o surgimento de monges
conhecidos como giróvagos ou, mesmo, vagabundos, que, para fugirem
aos rigores da disciplina e às penitências, se transferiam
de lugar em lugar, sempre à cata de novos e melhores mestres. Esta
movimentação se tornou uma verdadeira calamidade, a ponto
de um mestre dizer a um aluno que buscava mais conhecimentos: "Entra
em tua cela e ela tudo te ensinará". Em outras palavras, deixa
de zanzar como um mosca e vive como um monge para teu Deus. É neste
sentido que se deve entender o seguinte diálogo ocorrido entre
um mestre e um discípulo:
- Encontrei - dizia este último - um lugar que oferece toda a
quietude necessária. Queres que vá viver lá?
O Ancião apenas respondeu-lhe:
- Mora onde não causes dano a teu irmão.
É muito fácil se enganar com sonhos e utopias. Todo mundo
procura o paraíso, ao invés de lutar com os demônios
para criá-lo. Prefere-se apostar na sorte, fugindo ao desafio da
realidade. Mas o paraíso, para os monges do deserto, não
era um lugar, mas experiência de vida na qual um irmão não
fazia mal ao outro. Quem trama o mal e não tem paz interior não
encontrará o paraíso nem mesmo na quietude do melhor lugar
ou na companhia do mais excelente dos mestres.
"O paraíso - explicou o grande contemplativo norte-americano
Thomas Merton - não é "o céu". O paraíso
é um estado, ou mesmo um lugar na terra. O paraíso pertence
mais propriamente à vida presente, não à futura.
Em certo sentido, pertence a ambas. É o estado em que o homem
foi originariamente criado para viver na terra. Não devemos imaginar
o paraíso como um lugar onde se esteja à vontade, onde
exista o prazer sensual. É, sem dúvida alguma, um lugar
de paz e descanso. O que os Pais do Deserto procuravam, quando acreditavam
poder encontrar o "paraíso" no deserto, era a inocência
perdida, o vazio e a pureza de coração, de que fruíam
Adão e Eva, no Éden. Evidentemente, não podiam
pretender encontrar belas árvores e jardins num deserto sem água,
queimado pelo sol. É óbvio que não esperavam descobrir
um lugar entre as pedras escaldantes e as cavernas, onde se pudessem
reclinar confortavelmente, em recantos cheios de sombra, à beira
da água corrente. O que buscavam era o paraíso dentro
de si, ou melhor, acima e além de si próprios. Procuravam
o paraíso na recuperação daquela "unidade"
que havia sido destroçada pelo conhecimento do bem e do mal".
(in "Zen e as Aves de Rapina", p. 109).
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