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Os Pais e Mães do Deserto mostravam-se extremamente rigorosos
com os pecados de dureza do coração, que se manifestavam
em julgamentos impiedosos, em falta de caridade e misericórdia,
em intrigas e atitudes que feriam a fraternidade e dificultavam a boa
convivência entre os irmãos. Por outro lado, enalteciam a
compreensão para com os pecados de fraqueza, como atestam as seguintes
historietas:
* Certo irmão confessou ao Padre Poemen:
- Se vejo um irmão que eu saiba estar em pecado, evito levá-lo
a minha cela. Mas se vejo um bom, alegro-me com ele.
Ao que o Ancião lhe disse:
- Se fazes um pouco de bem ao irmão bom, ao outro fá-lo
em dobro, porque está doente.
E contou-lhe o seguinte caso: Encontrava-se, num cenóbio, um anacoreta
de nome Timóteo. O Superior soube de uma fraqueza de um irmão
e perguntou a Timóteo sobre como agir em relação
a ele. Timóteo aconselhou-o a expulsar o irmão. Tão
logo o fez, a tentação daquele irmão pousou sobre
Timóteo, e ele caiu em pecado. Timóteo, então, chorou
diante de Deus, dizendo:
- Pequei, Senhor, perdoa-me!
E escutou uma voz que lhe dizia: "Timóteo, não permiti
que te acontecesse isto por nenhuma outra razão senão porque
desprezaste teu irmão em tempo de tentação".
* Certo irmão veio confessar ao Padre Poemen suas tentações
carnais, que punham sua vida em perigo. O Ancião conduziu-o para
fora da cela, sobre uma alta rocha, onde soprava um forte vento e disse-lhe:
- Alarga o peito e pára o vento!
- Não consigo fazer isto, disse com humildade.
- Se não podes fazer isto, emendou o Ancião, não
poderás também impedir que te venham tais pensamentos, mas
depende de ti resistir-lhes.
* Existia um irmão cheio de zelo em seu comportamento, mas que,
por sentir-se gravemente perturbado pelo demônio da carne, dirigiu-se
a um Ancião e lhe revelou seus pensamentos. Inexperiente, indignou-se
ante a confissão e chamou-o de miserável e indigno do hábito
monacal. Diante disto, o irmão, desesperado, abandonou a própria
cela e estava para retornar ao mundo, mas, por disposição
divina, encontrou-se com o Padre Apolo que, ao vê-lo tão
aflito, perguntou-lhe:
- Filho, qual é a causa de tua tristeza?
Para começar, nem conseguia falar, tanta era sua confusão,
mas depois, dada a insistência do Ancião, confessou-lhe o
que se passava.
- Estou atormentado por pensamentos carnais; confessei-os a um Ancião
e, se devo crer em suas palavras, não há mais salvação
e esperança para mim. Desesperado, estou voltando para o mundo.
Escutando tais palavras, o Padre Apolo, como sábio médico
que era, começou por acalmá-lo e aconselhá-lo muito,
dizendo-lhe:
- Não te espantes, meu filho, nem desesperes. Até eu, malgrado
minha idade e tipo de vida, sinto-me perturbado por tais pensamentos.
Não desanimes em tais circunstâncias, que podem ser resgatadas
não tanto pela solicitude humana, antes, mais pela misericórdia
de Deus. Agora, por hoje, faze-me somente um favor: volta a tua cela.
Assim fez o irmão. E o Padre Apolo, distanciando-se dele, dirigiu-se
à cela do Ancião, rezando ao Senhor, em lágrimas:
"Senhor, que por nosso bem mandas as tentações, faze
cair sobre este Ancião a guerra que aquele irmão está
sofrendo, para que, através da experiência, aprenda, na velhice,
aquilo que em tantos anos não aprendeu, para poder sentir compaixão
daqueles que se sentem atormentados por tais tentações".
Ao final de sua oração, viu um demônio que lançava
flechas contra o Ancião. Transpassado, este arrastava-se pela cela,
como que embriagado. Não aguentando mais, saiu de sua cela e estava
para tomar o caminho do mundo, quando o Padre Apolo, ciente do que se
passava, foi-lhe ao encontro, e perguntou-lhe:
- Aonde vais? Qual é a causa de tua perturbação?
Mas, percebendo que o santo homem tinha tudo compreendido, ele nada disse.
Falou-lhe, então, o Padre Apolo:
- Volta a tua cela e, doravante, reconhece tua fraqueza e recorda-te sempre
dela. Pois, até hoje, ou foste ignorado ou desprezado pelo demônio,
não merecendo, como os homens virtuosos, seres tentado por ele.
Não pudeste resistir a um só assalto, num só dia.
E isto te aconteceu porque, acolhendo aquele jovem, deverias tê-lo
ungido com palavras de consolação contra os ataques do inimigo;
mas, ao contrário, levaste-o ao desespero, sem pensar naquele sapientíssimo
preceito que nos manda libertar os que foram entregues à morte
e não descurar de resgatar os que são conduzidos ao cadafalso
(cf. Pd 24,11). Nem mesmo te lembraste da parábola de nosso Salvador,
que afirma que não se deve quebrar a cana partida, nem extinguir
a mecha que ainda fumega (Mt 12,20). Ninguém, na verdade, pode
fazer frente às insídias do adversário, nem extinguir
o fogo da natureza incandescente, se a graça de Deus não
proteger a fraqueza humana. Com todo tipo de oração, supliquemos,
pois, ao Senhor que, em seus planos salvíficos, afaste de ti o
flagelo que te enviou, porque é Ele quem faz sofrer e, de novo,
faz experimentar a salvação, aflige e cura com suas mãos,
humilha e exalta, conduz à morte e salva, faz descer aos infernos
e de lá sair (1Sm 2,6-7).
Após estas palavras, orou a Deus e aquele Ancião sentiu-se
livre, instantaneamente, da guerra que o martirizava. O Padre Apolo admoestou-o
para que tivesse misericórdia dos pecadores e pedisse a Deus uma
língua sábia para saber falar no tempo oportuno.
É muito fácil julgar as fraquezas alheias. Difícil
é seguir o conselho dos sábios: "Antes de rir-se
dos outros e de condená-los, procure calçar suas sandálias",
ou seja, coloque-se em sua situação e experimente suas
incertezas e dificuldades. Quando perguntaram a um velho frade se não
estava com medo de morrer, disse que não e explicou que, como
nunca tinha julgado ninguém, também Deus não o
julgaria. Julgamentos são atropelos ao mistério da vida
e manifestam impaciência diante do mal. Deus, que é bom,
não julga, mas, ao contrário, encomprida a graça
de viver para que o pecador tenha tempo de cair em si e emendar-se.
Os santos mais parecidos com Deus são aqueles que tiveram misericórdia
para com seus semelhantes.
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