Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Eu amo Olga - Frei Neylor J. Tonin
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21. Tentações da carne  

Os Pais e Mães do Deserto mostravam-se extremamente rigorosos com os pecados de dureza do coração, que se manifestavam em julgamentos impiedosos, em falta de caridade e misericórdia, em intrigas e atitudes que feriam a fraternidade e dificultavam a boa convivência entre os irmãos. Por outro lado, enalteciam a compreensão para com os pecados de fraqueza, como atestam as seguintes historietas:

* Certo irmão confessou ao Padre Poemen:
- Se vejo um irmão que eu saiba estar em pecado, evito levá-lo a minha cela. Mas se vejo um bom, alegro-me com ele.
Ao que o Ancião lhe disse:
- Se fazes um pouco de bem ao irmão bom, ao outro fá-lo em dobro, porque está doente.
E contou-lhe o seguinte caso: Encontrava-se, num cenóbio, um anacoreta de nome Timóteo. O Superior soube de uma fraqueza de um irmão e perguntou a Timóteo sobre como agir em relação a ele. Timóteo aconselhou-o a expulsar o irmão. Tão logo o fez, a tentação daquele irmão pousou sobre Timóteo, e ele caiu em pecado. Timóteo, então, chorou diante de Deus, dizendo:
- Pequei, Senhor, perdoa-me!
E escutou uma voz que lhe dizia: "Timóteo, não permiti que te acontecesse isto por nenhuma outra razão senão porque desprezaste teu irmão em tempo de tentação".

* Certo irmão veio confessar ao Padre Poemen suas tentações carnais, que punham sua vida em perigo. O Ancião conduziu-o para fora da cela, sobre uma alta rocha, onde soprava um forte vento e disse-lhe:
- Alarga o peito e pára o vento!
- Não consigo fazer isto, disse com humildade.
- Se não podes fazer isto, emendou o Ancião, não poderás também impedir que te venham tais pensamentos, mas depende de ti resistir-lhes.

* Existia um irmão cheio de zelo em seu comportamento, mas que, por sentir-se gravemente perturbado pelo demônio da carne, dirigiu-se a um Ancião e lhe revelou seus pensamentos. Inexperiente, indignou-se ante a confissão e chamou-o de miserável e indigno do hábito monacal. Diante disto, o irmão, desesperado, abandonou a própria cela e estava para retornar ao mundo, mas, por disposição divina, encontrou-se com o Padre Apolo que, ao vê-lo tão aflito, perguntou-lhe:
- Filho, qual é a causa de tua tristeza?
Para começar, nem conseguia falar, tanta era sua confusão, mas depois, dada a insistência do Ancião, confessou-lhe o que se passava.
- Estou atormentado por pensamentos carnais; confessei-os a um Ancião e, se devo crer em suas palavras, não há mais salvação e esperança para mim. Desesperado, estou voltando para o mundo.
Escutando tais palavras, o Padre Apolo, como sábio médico que era, começou por acalmá-lo e aconselhá-lo muito, dizendo-lhe:
- Não te espantes, meu filho, nem desesperes. Até eu, malgrado minha idade e tipo de vida, sinto-me perturbado por tais pensamentos. Não desanimes em tais circunstâncias, que podem ser resgatadas não tanto pela solicitude humana, antes, mais pela misericórdia de Deus. Agora, por hoje, faze-me somente um favor: volta a tua cela.
Assim fez o irmão. E o Padre Apolo, distanciando-se dele, dirigiu-se à cela do Ancião, rezando ao Senhor, em lágrimas: "Senhor, que por nosso bem mandas as tentações, faze cair sobre este Ancião a guerra que aquele irmão está sofrendo, para que, através da experiência, aprenda, na velhice, aquilo que em tantos anos não aprendeu, para poder sentir compaixão daqueles que se sentem atormentados por tais tentações". Ao final de sua oração, viu um demônio que lançava flechas contra o Ancião. Transpassado, este arrastava-se pela cela, como que embriagado. Não aguentando mais, saiu de sua cela e estava para tomar o caminho do mundo, quando o Padre Apolo, ciente do que se passava, foi-lhe ao encontro, e perguntou-lhe:
- Aonde vais? Qual é a causa de tua perturbação?
Mas, percebendo que o santo homem tinha tudo compreendido, ele nada disse. Falou-lhe, então, o Padre Apolo:
- Volta a tua cela e, doravante, reconhece tua fraqueza e recorda-te sempre dela. Pois, até hoje, ou foste ignorado ou desprezado pelo demônio, não merecendo, como os homens virtuosos, seres tentado por ele. Não pudeste resistir a um só assalto, num só dia. E isto te aconteceu porque, acolhendo aquele jovem, deverias tê-lo ungido com palavras de consolação contra os ataques do inimigo; mas, ao contrário, levaste-o ao desespero, sem pensar naquele sapientíssimo preceito que nos manda libertar os que foram entregues à morte e não descurar de resgatar os que são conduzidos ao cadafalso (cf. Pd 24,11). Nem mesmo te lembraste da parábola de nosso Salvador, que afirma que não se deve quebrar a cana partida, nem extinguir a mecha que ainda fumega (Mt 12,20). Ninguém, na verdade, pode fazer frente às insídias do adversário, nem extinguir o fogo da natureza incandescente, se a graça de Deus não proteger a fraqueza humana. Com todo tipo de oração, supliquemos, pois, ao Senhor que, em seus planos salvíficos, afaste de ti o flagelo que te enviou, porque é Ele quem faz sofrer e, de novo, faz experimentar a salvação, aflige e cura com suas mãos, humilha e exalta, conduz à morte e salva, faz descer aos infernos e de lá sair (1Sm 2,6-7).
Após estas palavras, orou a Deus e aquele Ancião sentiu-se livre, instantaneamente, da guerra que o martirizava. O Padre Apolo admoestou-o para que tivesse misericórdia dos pecadores e pedisse a Deus uma língua sábia para saber falar no tempo oportuno.

É muito fácil julgar as fraquezas alheias. Difícil é seguir o conselho dos sábios: "Antes de rir-se dos outros e de condená-los, procure calçar suas sandálias", ou seja, coloque-se em sua situação e experimente suas incertezas e dificuldades. Quando perguntaram a um velho frade se não estava com medo de morrer, disse que não e explicou que, como nunca tinha julgado ninguém, também Deus não o julgaria. Julgamentos são atropelos ao mistério da vida e manifestam impaciência diante do mal. Deus, que é bom, não julga, mas, ao contrário, encomprida a graça de viver para que o pecador tenha tempo de cair em si e emendar-se. Os santos mais parecidos com Deus são aqueles que tiveram misericórdia para com seus semelhantes.


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