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Entrei, no último dia do ano, numa capela e deparei-me com inúmeras
bengalas penduradas nos parapeitos das janelas, ao longo das paredes.
O espetáculo era, ao mesmo tempo, pitoresco e inspirador. A visão
e o choque de tantas bengalas me fizeram pensar.
A bengala, que já pode ter sido um distintivo de nobreza e moda,
não é exatamente, hoje, um instrumento que nos deixa felizes.
Quem dela necessita não gostaria de usá-la. Embora sendo
útil, todos prefeririam dispensá-la. Mas a bengala é
um símbolo imensamente rico. E vale a pena perguntar quais as bengalas
que, em nossas vidas, nos trouxeram até aqui. Foram muitas. O médico
que nos operou foi, sem dúvida, uma bengala preciosíssima
e providencial. Sem ele, que teria sido de nossa caminhada? E a cozinheira
que, a cada dia, colocou a comida de seu carinho a nossa frente, como
a recomendar-nos: "Se não comer, não vai ter força
para prosseguir!" Que grandes e abençoadas (e esquecidas)
bengalas sãos as cozinheiras! E a família, as crianças,
a parentela, os amigos, os colegas de trabalho? Graças a estas
muitas bengalas, aqui estamos. A elas todas e a tantas outras, dá
uma vontade louca de dizer "muito obrigado". Como gostaríamos
de trocar com elas um longo e gostoso abraço, para que sentissem
o quanto lhes somos gratos pelo bem que nos fizeram!
Mas houve bengalas que foram ilusórias. Pareciam ser rijas, seu
punho de prata e pontão esmaltado brilhavam. Eram, digamos, bem
torneadas e atraentes, mas quando nelas nos apoiamos - que decepção!
- sossobramos por sua frágil consistência. Nem sempre, é
verdade, a culpa foi das bengalas; muitas vezes, devemos confessar, fomos
vítimas de nossa sofreguidão e incúria. Ao invés
de nos firmarmos em nossos próprios pés, preferimos o encosto
cômodo de uma falaciosa bengala. Azar nosso e grande lição
de vida! Se pelas primeiras, que nos ajudaram a chegar mais lampeiros
até ao dia de hoje, gostaríamos de agradecer, para as segundas,
as ilusórias, que foram, ao mesmo tempo, decepção
e escola, é importante estender a mão. Com tropeços
e quedas, na verdade, também se faz o caminho. Todas as bengalas
são boas, desde que não tomem o lugar de nosso pé.
Elas só servem como ajuda. O passo será sempre nosso e a
estrada é sempre de todos, quer sejam bons amigos ou falsos companheiros
de caminhada.
E, nós, que bengala fomos para os outros? Boas, firmes, seguras,
retas e eretas, prestativas e disponíveis, ou aparentamos apenas
o brilho enganoso do ouro, iludindo o passo dos que em nós buscaram
apoio? Ah, ter e ser bengala!
Um instrumento tão simples, e até temido e mal-querido,
mas que nos pode lembrar de nossa história, propiciando-nos, quem
sabe, até uns momentos de oração.
Obrigado, Senhor Deus, por todas as bengalas, amadas ou não,
queridas ou temidas, que nos fizeram chegar até este dia. E perdão
pelas vezes em que fomos uma falsa bengala na vida das pessoas que confiaram
em nós. Dá-nos a graça de ser uma bengala simples
e verdadeira, mesmo quando pendurada no parapeito duma janela, ou esquecida
por seu usuário num canto qualquer de sua casa.
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