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O místico árabe de nome Sádi conta que, certo dia,
um homem passeava pela floresta, quando se deparou com uma raposa aleijada,
que perdera as quatro patas. Diante do quadro, perguntou-se como sobrevivia,
sem poder mover-se. Eis que viu aproximar-se um tigre, trazendo um pedaço
de carne na boca, que depositou junto à raposa. No dia seguinte,
a mesma cena se repetiu e o homem começou a louvar a Deus por sua
onisciente sabedoria. E pensou consigo: "Vou dar uma de raposa. Vou
ficar quieto, num canto, à espera de que Deus me mande um tigre
para me alimentar".
Durante alguns dias, nada aconteceu e o pobre homem, já muito enfraquecido,
estava quase desfalecendo, quando ouviu uma voz que lhe dizia:
- Criei-te para seres tigre, meu filho, e não raposa. Estás
no caminho da mentira. Não tentes imitar a raposa aleijada! Sê
um tigre operoso!
Envergonhado, o homem saiu de seu retiro e voltou para a cidade. Numa
rua, viu uma menina maltrapilha e tiritando de frio. Irritado, pensou
consigo: "Por que Deus permite uma coisa destas? Por que não
faz algo para solucionar este problema?" Não ouviu resposta
nenhuma as suas interpelações. Mas, de volta para casa,
e quando já adormecia, ouviu a voz do Senhor, que lhe disse:
- Eu já fiz você, meu filho!
A teologia afirma que Deus, embora podendo agir diretamente sobre a
vida e fazer o que normalmente entendemos por milagre, utiliza-se, no
entanto, de causas segundas, isto é, das próprias forças
da vida, que somos nós, para operar, em Seu nome, as transformações
que se fazem necessárias. Pouco adianta, por isto, interpelar
o céu, diante das misérias do que acontece. Nossa vocação
é de tigres e não de raposas aleijadas.
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