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Li pela primeira vez esta história quando era ainda jovem e sentia
o sangue ferver nas veias pelas grandes causas e desejava ser um paladino
intrépido da liberdade. Por um lado, impressionou-me vivamente
e, por outro, foi uma ducha de água fria em meus ardores juvenis.
Os bois, contava a história, reuniram-se, um dia, para deliberar
sobre sua sujeição ao homem e de como se libertar dela.
E havia entre eles um boi particularmente exaltado e eloqüente, que
empolgou a todos e os convenceu de que a liberdade não é
uma concessão, mas uma conquista, que deve ser arrebatada em sua
própria morada, cuja porta ensangüentada, deve ser forçada
com sangue nos chifres. Os bois o fizeram seu líder e marcharam
atrás dele, aos berros: "PARA A LIBERDADE! PARA A LIBERDADE!"
E continuaram avançando até uma casa, cujas paredes e portas
estavam manchadas de sangue. Então, o líder apontou teatralmente
para elas e comandou:
- Eis a morada da liberdade! Eis sua porta! Arremetei-vos contra ela!
Botai-a abaixo e não desistais, mesmo que vossos chifres se quebrem
e vosso sangue tenha que correr!
Os bois, diz a história, obedeceram. Seus chifres se romperam,
seu sangue jorrou. Não desistiram até que derrubaram a porta
e entraram e encontraram-se... dentro do matadouro.
Que nunca nos faltem, ó Deus, o sonho das grandes causas
e a sabedoria das coisas possíveis. Se tivermos que quebrar nossa
cabeça, que seja em favor de ideais comunitários e nunca
pela vaidade impensada de paixões inconsequentes. Que nosso sangue
seja de redenção para os outros e não de exaltação
pessoal. Por outro lado, que nunca tenhamos medo de derramá-lo,
nem uma prudência medrosa nos impeça de oferecê-lo,
quando os tiranos desonrarem o sangue dos humildes, ofendendo a dignidade
da vida. Dai-nos amar sempre, com total paixão, a liberdade e
reverenciar os que derramam seu sangue em seu altar. Amém.
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