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* Esta aconteceu em Sidon e teve como protagonista o sábio Rabino
Shimon bar Iochai (séc. II aC), que foi procurado por um jovem
casal que, após dez anos de união, não tinha filhos.
Segundo a lei, isto dava direito ao homem de pedir divórcio. E
foi o que ele fez, apresentando-se, com sua esposa, ao Rabino. Este sentenciou:
- Vocês, ao se casarem, deram uma grande festa. Façam o mesmo,
ao se separarem.
E assim foi feito. Reconvidaram os padrinhos, familiares, parentes e amigos
e divertiram-se a noite toda. A mulher ofereceu de beber ao marido, mais
do que o de costume. Quando ele já estava "mais pra lá
do que pra cá", disse à esposa:
- Minha querida, ao voltares para a casa de teu pai, podes levar contigo
o que mais desejares.
Quando ele, bêbedo, já dormia, ela pediu aos servos e servas
que o levassem para a casa de seu pai,no próprio leito sobre o
qual dormia. Ao acordar, ainda tonto, mas já meio curado do porre,
espantou-se por se encontrar longe de sua casa.
- Mas, afinal, onde estou?
- Estás na casa de meu pai, respondeu ela. Lembras-te de que me
disseste que poderia levar comigo o que mais desejasse? Nada me agrada
mais, no mundo, do que tu.
No mesmo dia, voltaram à presença do Rabino Shimon bar Iochai,
que os abençoou novamente e, pouco depois, ela engravidou. Como
nas histórias antigas, viveram felizes para sempre, cercados de
filhos e rindo do porre providencial.
O que pode fazer um bom porre! E, mais do que um bom porre, as matreirices
de um grande amor! A bebida, que estraga tantos casamentos, desta vez
foi salutar e abençoada.
* E já que estamos falando em casamento, existe aquela história
do apaixonado que foi bater à porta de sua bem-amada que vivia
numa floresta. De dentro, ao perguntar, "quem bate?", obteve
como resposta "sou eu, meu amor!". Mas ela não abriu
a porta. Apenas disse:
- Não te conheço.
Ele, então, muito triste e perturbado, retirou-se para o fundo
da floresta para meditar sobre a verdadeira natureza do amor. Após
muito tempo, tornou a bater à porta da casa de sua bem-amada que,
mais uma vez, perguntou "quem bate?", ao que ele respondeu:
- Sou tu, meu amor.
A porta, então, se abriu, e eles "viveram felizes para sempre".
A aventura do casamento não se estriba, em definitivo, sobre as
pulsões intemperantes da paixão, por mais ardentes que possam
ser. Nunca é demais frisar que amar é radicalmente esquecer-se,
é gravar no coração o nome do outro, é cuidar
de seu coração, carregando o outro nas próprias mãos.
E é confessar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença:
Amar-te-ei por amor do amor somente, e quero ser teu eternamente.
* E, por último, mais uma historinha de casamento, que dá
o título a este livro. Conta um novelista russo que, certo dia,
coberto de carvão da cabeça aos pés, um mineiro voltava
para casa. Vamos chamá-lo de Igor, nome bem russo. Pois bem, Igor,
cansado e todo encarvoado, já estava perto de seu lar, quando uma
jornalista lhe perguntou:
- O que fazes na vida?
- Ora, o que eu faço? - estranhou ele. Eu amo Olga, minha mulher!
Mais do que escavar o fundo de uma mina, mais do que atravessar
oceanos e remontar os céus, a mais importante missão humana
é amar. Este é o grande trabalho da vida. O outro é
nossa mina de ouro e de carvão, nossa tempestade e porto seguro,
nosso purgatório e nosso céu. (Só não podemos
ser para ele um inferno.)
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