Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Eu amo Olga - Frei Neylor J. Tonin
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47. Perigo e medo do inferno  

As "Santas Missões" populares, pelos anos 40-50, eram uma espécie de retiro espiritual em alta voltagem, um liquidificador religioso, em marcha acelerada, para os pecados e virtudes do povo, tudo terminando num ato público de bons propósitos para o futuro, sob as renovadas bênçãos de Deus, dadas pelos santos missionários, normalmente, pessoas altas e fortes, de voz tonitruante. Tinham algo de Moisés descendo do monte, após se terem encontrado com Deus. O vilarejo, em que nasci, não tinha mais que 2 mil almas (para os missionários), entre descendentes de alemães e italianos. Estes últimos, sabiam-no os missionários, gostavam de bestemiar, isto é, imprecar o céu e as coisas santas, para desafogar as próprias iras e possíveis frustrações. Daí explicar-se a seguinte história que um missionário contou, com voz tonitruante e grandes gestos teatrais.

* Existia, certa vez, dizia ele, um camponês que bestemiava, sem o menor escrúpulo, os santos nomes de Deus, da Virgem Maria e dos santos. Quando os padres o alertavam para seu mau costume, que é um pecado mortal, ele, meio na galhofa, dava de ombros e lhes garantia que, no último momento, antes de morrer, haveria de se converter, arrependendo-se das bestêmias proferidas, e assim se salvaria, a exemplo do bom ladrão da Cruz.

- Certa noite, contava o missionário com voz de tragédia e gestos impressionantes, quase que prelibando o final inglório do pecador, o camponês teve que enfrentar uma terrível borrasca (e aí ele imitava a chuva, com raios que cortavam o céu e trovões amedrontadores que ribombavam nas quebradas dos vales), viajando a cavalo (e o missionário, então, ensaiava uma certa piedade para com o cavalo) de sua casa até a vila (aí, descrevia o breu da noite, o silêncio do mato em torno à estrada e a própria estrada, cheia de buracos e coberta de água: um perigo só!). E o camponês, encolhido em seu cavalo (o missionário chegava a se abaixar), prosseguia a viagem, assustado, mas sem se lembrar de Deus. Não sabia que seu fim estava próximo. (O missionário, à medida em que ia contando a história, também tornava mais cavernosa sua voz, enquanto, como bom orador, colhia com satisfação a atenção e o silêncio total de seu auditório). Só o cavalo, "santo cavalo", dizia ele, "que carregava um ímpio", dava-se conta do perigo iminente que se aproximava. O pecador, não! Ele que, em vida, não respeitava Deus, a Virgem Maria e os santos, também não respeitava a chuva, as más estradas e o perigo em que se encontrava, explicava o missionário. A morte o esperava numa ponte do caminho. Quando chegou diante dela, o animal, mais inteligente do que ele (garantia o orador), empacou e não queria prosseguir. Um raio, última graça de Deus para o pecador, ainda iluminou-lhe o perigo, mas ele, que nunca se lembrava de Deus em vida, senão para bestemiá-lo, desdenhou da graça e esporeou o cavalo, galopando para a morte. A ponte, na verdade, devido às chuvas, estava semidestruída. O cavalo pisou em falso e precipitaram-se ele e o camponês blasfemo nas águas barrentas do rio, que a ponte mal cobria, no negror da noite. Ouviu-se ainda - dizia, penalizado, o missionário - uma última bestêmia, e tudo o mais foi só silêncio e... castigo.

Esta história impressionou muito a todos quantos a escutaram, descendentes de italianos ou não. Até hoje, em minha terra, sempre nos lembramos, ao ouvir qualquer bestêmia, da história do camponês que, numa noite de terrível borrasca, nunca chegou à vila, porque se afogou nas águas revoltas do Rio Limeira, segundo relato de um santo missionário.

* Hoje, poucos padres falam sobre o inferno, mas o inferno era uma das pregações mais esperadas nas Semanas Santas ou, mesmo, em algum domingo durante o ano. E existia aquela pregação sobre a eternidade sem fim do inferno e do conseqüente suplício sem fim do pecador. E lá dizia o pregador:

- Imaginem vocês uma montanha toda de ferro, de mil metros de altura, com mil metros de diâmetro. Em nossa terra, dizia o padre, não temos nenhuma montanha tão alta assim. Imaginem também, sem se esquecerem de que ela é toda de ferro, que, de mil em mil anos, viesse um passarinho e nela passasse, de leve, seu biquinho. Quantos milhões e quatrilhões de anos levaria ele, perguntava o pregador, para acabar com esta montanha, que tem mil metros de altura, mil metros de diâmetro e é toda de ferro puro? Pois bem, quando tal montanha viesse a desaparecer pelo leve roçar de bico de um passarinho, uma vez só, de mil em mil anos, não se teria passado, assegurava ele, para espanto dos ouvintes, nem um segundo da eternidade do inferno.

A pedagogia dos sermões era absolutamente eficiente. Todo mundo saía da igreja disposto a ser santo e a não pecar mais. Depois de descrições como esta, roubar, mentir, alimentar ódios, viver brigado, não cumprir os deveres religiosos: nem pensar. Não se pintava, certamente, com o mesmo vigor, a bondade de Deus e a graça da vida. Mas os tempos eram outros e a pastoral era baculina (do chicote). Esta pedagogia ressaltava os aspectos morais da religião que criava heróis, embora não necessariamente pessoas solidárias com os destinos alheios e os interesses comunitários. Vivia-se com medo do inferno e cada um tratava de salvar sua alma. Para encantamento dos pastores, a sociedade era composta de cidadãos honestos, que pautavam suas vidas pelo toque dos sinos da igreja. A liberdade era menor? Certamente! Havia menos libertinagem? Certamente! A vida era melhor? Quem sabe! O passarinho do inferno, sem dúvida, estava em todas as mentes.


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