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As "Santas Missões" populares, pelos anos 40-50, eram
uma espécie de retiro espiritual em alta voltagem, um liquidificador
religioso, em marcha acelerada, para os pecados e virtudes do povo, tudo
terminando num ato público de bons propósitos para o futuro,
sob as renovadas bênçãos de Deus, dadas pelos santos
missionários, normalmente, pessoas altas e fortes, de voz tonitruante.
Tinham algo de Moisés descendo do monte, após se terem encontrado
com Deus. O vilarejo, em que nasci, não tinha mais que 2 mil almas
(para os missionários), entre descendentes de alemães e
italianos. Estes últimos, sabiam-no os missionários, gostavam
de bestemiar, isto é, imprecar o céu e as coisas santas,
para desafogar as próprias iras e possíveis frustrações.
Daí explicar-se a seguinte história que um missionário
contou, com voz tonitruante e grandes gestos teatrais.
* Existia, certa vez, dizia ele, um camponês que bestemiava, sem
o menor escrúpulo, os santos nomes de Deus, da Virgem Maria e dos
santos. Quando os padres o alertavam para seu mau costume, que é
um pecado mortal, ele, meio na galhofa, dava de ombros e lhes garantia
que, no último momento, antes de morrer, haveria de se converter,
arrependendo-se das bestêmias proferidas, e assim se salvaria, a
exemplo do bom ladrão da Cruz.
- Certa noite, contava o missionário com voz de tragédia
e gestos impressionantes, quase que prelibando o final inglório
do pecador, o camponês teve que enfrentar uma terrível borrasca
(e aí ele imitava a chuva, com raios que cortavam o céu
e trovões amedrontadores que ribombavam nas quebradas dos vales),
viajando a cavalo (e o missionário, então, ensaiava uma
certa piedade para com o cavalo) de sua casa até a vila (aí,
descrevia o breu da noite, o silêncio do mato em torno à
estrada e a própria estrada, cheia de buracos e coberta de água:
um perigo só!). E o camponês, encolhido em seu cavalo (o
missionário chegava a se abaixar), prosseguia a viagem, assustado,
mas sem se lembrar de Deus. Não sabia que seu fim estava próximo.
(O missionário, à medida em que ia contando a história,
também tornava mais cavernosa sua voz, enquanto, como bom orador,
colhia com satisfação a atenção e o silêncio
total de seu auditório). Só o cavalo, "santo cavalo",
dizia ele, "que carregava um ímpio", dava-se conta do
perigo iminente que se aproximava. O pecador, não! Ele que, em
vida, não respeitava Deus, a Virgem Maria e os santos, também
não respeitava a chuva, as más estradas e o perigo em que
se encontrava, explicava o missionário. A morte o esperava numa
ponte do caminho. Quando chegou diante dela, o animal, mais inteligente
do que ele (garantia o orador), empacou e não queria prosseguir.
Um raio, última graça de Deus para o pecador, ainda iluminou-lhe
o perigo, mas ele, que nunca se lembrava de Deus em vida, senão
para bestemiá-lo, desdenhou da graça e esporeou o cavalo,
galopando para a morte. A ponte, na verdade, devido às chuvas,
estava semidestruída. O cavalo pisou em falso e precipitaram-se
ele e o camponês blasfemo nas águas barrentas do rio, que
a ponte mal cobria, no negror da noite. Ouviu-se ainda - dizia, penalizado,
o missionário - uma última bestêmia, e tudo o mais
foi só silêncio e... castigo.
Esta história impressionou muito a todos quantos a escutaram,
descendentes de italianos ou não. Até hoje, em minha terra,
sempre nos lembramos, ao ouvir qualquer bestêmia, da história
do camponês que, numa noite de terrível borrasca, nunca
chegou à vila, porque se afogou nas águas revoltas do
Rio Limeira, segundo relato de um santo missionário.
* Hoje, poucos padres falam sobre o inferno, mas o inferno era uma das
pregações mais esperadas nas Semanas Santas ou, mesmo, em
algum domingo durante o ano. E existia aquela pregação sobre
a eternidade sem fim do inferno e do conseqüente suplício
sem fim do pecador. E lá dizia o pregador:
- Imaginem vocês uma montanha toda de ferro, de mil metros de altura,
com mil metros de diâmetro. Em nossa terra, dizia o padre, não
temos nenhuma montanha tão alta assim. Imaginem também,
sem se esquecerem de que ela é toda de ferro, que, de mil em mil
anos, viesse um passarinho e nela passasse, de leve, seu biquinho. Quantos
milhões e quatrilhões de anos levaria ele, perguntava o
pregador, para acabar com esta montanha, que tem mil metros de altura,
mil metros de diâmetro e é toda de ferro puro? Pois bem,
quando tal montanha viesse a desaparecer pelo leve roçar de bico
de um passarinho, uma vez só, de mil em mil anos, não se
teria passado, assegurava ele, para espanto dos ouvintes, nem um segundo
da eternidade do inferno.
A pedagogia dos sermões era absolutamente eficiente. Todo
mundo saía da igreja disposto a ser santo e a não pecar
mais. Depois de descrições como esta, roubar, mentir,
alimentar ódios, viver brigado, não cumprir os deveres
religiosos: nem pensar. Não se pintava, certamente, com o mesmo
vigor, a bondade de Deus e a graça da vida. Mas os tempos eram
outros e a pastoral era baculina (do chicote). Esta pedagogia ressaltava
os aspectos morais da religião que criava heróis, embora
não necessariamente pessoas solidárias com os destinos
alheios e os interesses comunitários. Vivia-se com medo do inferno
e cada um tratava de salvar sua alma. Para encantamento dos pastores,
a sociedade era composta de cidadãos honestos, que pautavam suas
vidas pelo toque dos sinos da igreja. A liberdade era menor? Certamente!
Havia menos libertinagem? Certamente! A vida era melhor? Quem sabe!
O passarinho do inferno, sem dúvida, estava em todas as mentes.
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