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* Para encerrar esta coletânea de histórias, escolhemos
um tema que assusta a muitos e que não foi considerado, explicitamente,
até aqui: a morte. Um apotegma ("dito", em português)
anônimo, conta os últimos momentos de um Mestre do cenóbio
de Cétis, no Baixo-Egito. Todos os irmãos o rodeavam, já
o tinham vestido com o hábito dos monges e estavam a chorar. Ele,
no entanto, abriu os olhos e pôs-se a rir. Os monges ficaram surpresos.
Pouco depois, riu de novo e eles lhe perguntaram:
- Pai, explica-nos por que, enquanto choramos, o senhor ri?
- Estou rindo de vocês terem medo da morte, porque não estão
preparados para ela e porque, agora, vou passar do trabalho ao descanso.
E adormeceu, placidamente, no Senhor.
* Frei Fidélis Vering, frade franciscano e inteligentíssimo
professor de Filosofia, pediu à enfermeira que o assistia, em seus
últimos momentos, que o deixasse, por favor, sozinho, pois desejava
morrer em paz. A enfermeira, mesmo conhecendo o estado grave do paciente,
ainda tentou desconversar:
- O que é isto, Frei? O senhor ainda vai viver muito tempo, vai
ficar bom e voltar a seu convento.
Mas o bom Frei, que era uma fonte de doçura e bom-humor, pediu-lhe
carinhosamente que o deixasse a sós. Quinze minutos depois, quando
ela voltou, o bom Frei já tinha morrido, com um disfarçado
sorriso estampado no rosto.
* O imigrante judeu, Max Dreifuss Alexander, já não vivia,
sobrevivia apenas. O médico atestara ao filho dele, René
Armand Dreifuss, um dos maiores politólogos do Brasil, embora nascido
uruguaio, que já não havia mais esperanças, mas que
poder-se-ia apenas mantê-lo, com enormes sacrifícios e sedado,
artificialmente vivendo. O filho sentiu de comunicar isto ao pai. Este,
com a lentidão própria de quem já está morrendo
e com a grandeza igualmente própria de quem já não
duvida de seu destino, sussurrou com firmeza ao filho:
- Mas, assim, eu perco a dignidade!
Uma grossa lágrima rolou-lhe pela face e o filho pediu ao médico
que deixasse seu pai enfrentar a morte sem sedá-lo, conscientemente,
como devem morrer os que não tiveram medo de viver.
* Eu não tinha mais de 22 anos quando conheci Frei Ângelo,
um velho e bonachão confrade alemão. Era um bom pastor,
nada tinha de intelectual, falava com lentidão e sempre com grande
paciência, e adorava um schnaps, ou um trago, o que não o
impedia de ser um bom frade e pessoa muito piedosa. Perguntei-lhe, um
dia, qual a razão de sua longevidade. Tinha mais de 80 anos. Sinalizou
com os dedos polegar e indicador o que seria o tamanho de um pequeno copo
e disse:
- Cada noite, antes de dormir, faço o sinal-da-cruz e bebo um schnaps.
Sinto-me bem e durmo em paz.
Em seus últimos momentos, toda a comunidade estava junto de seu
leito-de-morte. Já tínhamos feito as últimas orações,
todas as orações possíveis, da Ordem e da Igreja,
cantado, ele já recebera os últimos sacramentos e continuava
respirando meio ofegantemente, com os olhos fechados. A um dado momento,
o Guardião (Superior) lembrou-se de lhe perguntar se desejava mais
alguma coisa ou se tinha um último desejo. Abriu os olhos, seu
rosto iluminou-se, sinalizou com os dedos polegar e indicador o tamanho
de um pequeno copo e disse:
- Um schnaps.
Foi-lhe servido o trago final. Tomou-o e morreu... feliz.
Morrer não precisa ser uma tragédia. É verdade
que não precisa ser uma festa, mas quando chegar o momento melhor
seria não perder o bom-humor. Se não conseguirmos rir,
como o velho Mestre de Cétis, nem pedir um derradeiro schnaps,
como Frei Ângelo, podemos ao menos, queira Deus, não fazer
da morte um último espetáculo de vaidade para nós
e de tristeza para os outros. Que a morte seja para nós uma bênção
e um derradeiro ato de dignidade, assim como o foi a vida. Quem sabe,
valeria a pena rezar todos os dias, antes de dormir, a oração
que minha mãe me ensinou, ainda em seu colo: "Jesus, para
vós eu vivo. Jesus, para vós eu morro. Jesus, vosso sou
na vida e na morte. Amém."
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