Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Eu amo Olga - Frei Neylor J. Tonin
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48. É bom morrer assim  

* Para encerrar esta coletânea de histórias, escolhemos um tema que assusta a muitos e que não foi considerado, explicitamente, até aqui: a morte. Um apotegma ("dito", em português) anônimo, conta os últimos momentos de um Mestre do cenóbio de Cétis, no Baixo-Egito. Todos os irmãos o rodeavam, já o tinham vestido com o hábito dos monges e estavam a chorar. Ele, no entanto, abriu os olhos e pôs-se a rir. Os monges ficaram surpresos. Pouco depois, riu de novo e eles lhe perguntaram:
- Pai, explica-nos por que, enquanto choramos, o senhor ri?
- Estou rindo de vocês terem medo da morte, porque não estão preparados para ela e porque, agora, vou passar do trabalho ao descanso.
E adormeceu, placidamente, no Senhor.

* Frei Fidélis Vering, frade franciscano e inteligentíssimo professor de Filosofia, pediu à enfermeira que o assistia, em seus últimos momentos, que o deixasse, por favor, sozinho, pois desejava morrer em paz. A enfermeira, mesmo conhecendo o estado grave do paciente, ainda tentou desconversar:
- O que é isto, Frei? O senhor ainda vai viver muito tempo, vai ficar bom e voltar a seu convento.
Mas o bom Frei, que era uma fonte de doçura e bom-humor, pediu-lhe carinhosamente que o deixasse a sós. Quinze minutos depois, quando ela voltou, o bom Frei já tinha morrido, com um disfarçado sorriso estampado no rosto.

* O imigrante judeu, Max Dreifuss Alexander, já não vivia, sobrevivia apenas. O médico atestara ao filho dele, René Armand Dreifuss, um dos maiores politólogos do Brasil, embora nascido uruguaio, que já não havia mais esperanças, mas que poder-se-ia apenas mantê-lo, com enormes sacrifícios e sedado, artificialmente vivendo. O filho sentiu de comunicar isto ao pai. Este, com a lentidão própria de quem já está morrendo e com a grandeza igualmente própria de quem já não duvida de seu destino, sussurrou com firmeza ao filho:
- Mas, assim, eu perco a dignidade!
Uma grossa lágrima rolou-lhe pela face e o filho pediu ao médico que deixasse seu pai enfrentar a morte sem sedá-lo, conscientemente, como devem morrer os que não tiveram medo de viver.

* Eu não tinha mais de 22 anos quando conheci Frei Ângelo, um velho e bonachão confrade alemão. Era um bom pastor, nada tinha de intelectual, falava com lentidão e sempre com grande paciência, e adorava um schnaps, ou um trago, o que não o impedia de ser um bom frade e pessoa muito piedosa. Perguntei-lhe, um dia, qual a razão de sua longevidade. Tinha mais de 80 anos. Sinalizou com os dedos polegar e indicador o que seria o tamanho de um pequeno copo e disse:
- Cada noite, antes de dormir, faço o sinal-da-cruz e bebo um schnaps. Sinto-me bem e durmo em paz.
Em seus últimos momentos, toda a comunidade estava junto de seu leito-de-morte. Já tínhamos feito as últimas orações, todas as orações possíveis, da Ordem e da Igreja, cantado, ele já recebera os últimos sacramentos e continuava respirando meio ofegantemente, com os olhos fechados. A um dado momento, o Guardião (Superior) lembrou-se de lhe perguntar se desejava mais alguma coisa ou se tinha um último desejo. Abriu os olhos, seu rosto iluminou-se, sinalizou com os dedos polegar e indicador o tamanho de um pequeno copo e disse:
- Um schnaps.
Foi-lhe servido o trago final. Tomou-o e morreu... feliz.

Morrer não precisa ser uma tragédia. É verdade que não precisa ser uma festa, mas quando chegar o momento melhor seria não perder o bom-humor. Se não conseguirmos rir, como o velho Mestre de Cétis, nem pedir um derradeiro schnaps, como Frei Ângelo, podemos ao menos, queira Deus, não fazer da morte um último espetáculo de vaidade para nós e de tristeza para os outros. Que a morte seja para nós uma bênção e um derradeiro ato de dignidade, assim como o foi a vida. Quem sabe, valeria a pena rezar todos os dias, antes de dormir, a oração que minha mãe me ensinou, ainda em seu colo: "Jesus, para vós eu vivo. Jesus, para vós eu morro. Jesus, vosso sou na vida e na morte. Amém."

 

 


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