Gente da favela
Dom Hélder Câmara foi uma figura estelar de nossa Igreja
brasileira e da Igreja Católica universal. Poucas figuras eclesiásticas terão
atingido, no século XX, a grandeza humana e religiosa de Dom Hélder. Foi pobre
e rico, ao mesmo tempo. Foi veemente e doce, a um só tempo. Infelizmente, um de
seus sonhos não se realizou. Ele sonhou, em 1955, há 50 anos atrás, que em 10
anos, nossa querida cidade não teria mais favelas. Algumas seriam removidas por
falta de possibilidade de urbanizá-las. As outras seriam urbanizadas, dando às
pessoas condições dignas de viverem
O que vemos hoje? Nossa querida cidade está cercada de
favelas por todos os lados. Podemos dizer que o Rio de Janeiro tem dois mares:
o mar de nossas praias e o mar das favelas. Estes dois mares estão diante de
nossos olhos, são misteriosos, são bonitos à distância, carregam consigo uma
força sedutora e amedrontadora, ao mesmo tempo. Nossas autoridades, certamente,
também os vêem. O mar das praias é explorado pelo turismo. O mar das favelas
vive quase sempre esquecido.
Pra começar, viver na favela não é nenhum desdouro.
Ninguém deixa de ter dignidade humana por ser favelado. Aliás, ninguém vive na
favela porque o quer. Se alguém vive num barraco é porque não consegue comprar
um apartamento ou ter uma casa mais confortável e sonhada, digna de sua
família. Longe de mim, nem pensar e condenar a quem vive numa favela.
Sobre as favelas, não temos, infelizmente, nem
estatísticas confiáveis para saber o número de nossos irmãos favelados. Na
verdade, o número nem seria importante, se o número não fosse altamente
significativo e denunciador de uma triste degradação ambiental e social. Os
favelados são, acredito, os primeiros a dizer que não é bom viver numa favela.
A imensa maioria se pudesse, deixaria o barraco da favela por uma casinha mais
digna e menos indefesa.
Como padre, tive chances de trabalhar numa favela e ainda
carrego comigo os olhos bons das pessoas que lá viviam e os dramas que nela presenciei,
as angústias que pais e mães de família experimentam em relação a si mesmos e
aos filhos. Numa palavra, não têm paz, vivem preocupados permanentemente, como
se, a cada dia, lhes pudesse acontecer o que mais temem e o pior.
Todos estão de acordo em dizer que, hoje, as favelas
saíram do controle do poder público que já não consegue oferecer segurança aos
favelados e aos cidadãos de nossa querida cidade.
Faz-se necessária uma solução para o aumento diário e
desordenado das favelas? O Secretário da Habitação, o Sr. Fernando Avelino,
afirma: “A expansão de favelas não terá fim, enquanto os governos forem
populistas e não tiverem coragem de dizer: aqui não se pode construir e ponto.
Precisamos – diz ele – criar uma lei de responsabilidade urbana, em que os
governantes sejam punidos caso permitam a expansão. Paralelamente, tem de haver
políticas de habitação,”
Acredito que todo mundo pensa assim e aplaude o Senhor
Secretário. Mas, na prática, o que está acontecendo? Segundo a Fundação Centro
de Informações e Dados do Rio de Janeiro (CIDE), há, em nosso Estado, um
déficit de 293.848 residências, ou seja, quase 300 mil famílias vivem sem um
teto, tendo como endereço a favela. Sem saída, estas famílias buscam o triste
abrigo de um barraco numa favela. Não porque queiram, mas porque o barraco será
a única chance que encontram para abrigar minimamente suas famílias.
Levanto a voz e apelo às autoridades em favor dos
excluídos do asfalto, nossos irmãos favelados. A paz que eles não encontram num
barraco e a mesma paz que começa a ficar ameaçada para os que morram em casas e
apartamentos. As favelas, com tudo o que escondem: pobreza, insegurança,
promiscuidade, crimes, drogas e descontrole social, é o grande problema, é o
principal problema de nossa cidade.
Se quisermos ser uma Cidade Maravilhosa, não podemos
apenas cantar o mar que banha nossas praias, precisamos também olhar para as
favelas, este outro mar de tristeza e exclusão, procurando uma solução
minimamente humana para o drama de tantas pessoas que já se acostumaram à
maldição de viver à margem da sociedade e sob o império da violência e do medo.
Hoje, levanto a voz para acordar nossas autoridades. Por
Deus, peço, olhem mais pelos favelados!