Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 5

Frei Neylor J. Tonin

Coisas chocantes

Para três coisas, gostaria hoje de levantar a voz.

1ª) Apareceu, no jornal esportivo Lance, edição de domingo, dia 6, p. 13, o célebre quadro da Criação de Miguelangelo, que faz parte da Capela Sistina, do Vaticano. Até aí, nada demais! Acontece que a fotomontagem, com as caras do jogador Giovanni, como Adão, e de Carlitos Tevez, como Deus, queriam ilustrar o jogo divino (assim anunciava a manchete da matéria) daquele domingo. A fotomontagem me pareceu burlescamente infeliz. Nem digo quer tenha sido desrespeitosa, mas imprópria e sem graça. Acredito que a liberdade de imprensa deveria ser acompanhada com um mínimo de senso de responsabilidade e alguma sensibilidade. Os jornalistas, com certeza, não podem tudo. Não podem, por exemplo, ofender a sensibilidade de quem os lê e os acompanha. Para a liberdade de imprensa há, ao menos, um limite: o do ridículo, para não falar em educação e respeito. Para o jornal Lance talvez se deveria dizer: “Não usem o nome e a imagem de Deus em vão!”

2ª ) A Rádio Catedral, que pertence à Arquidiocese do Rio de Janeiro, se apresenta como 100% católica numa propaganda de sua grade de programas. 100% católica? Não estará sendo isso um pouco pretensioso? De quê e de quem se poderia dizer 100% católico? Do Papa? Do nosso querido Cardeal? Das nossas igrejas? Do Convento de Santo Antônio? De mim, que lhes falo? Por não sermos 100% católicos e cristãos, santos e homens de bem, é que começamos todas as missas batendo no peito e pedindo perdão. Compreendo que uma rádio queira ser muito católica, o mais católica possível, mas... 100% católica? Só como jogada mercadológica e com uma boa dose de pretensão. Perdoem-me seus Diretores e Apresentadores, mas seus ouvintes, com certeza, prefeririam que ela fosse apenas 100% eficiente e ocupasse o primeiro lugar no ranking das mais escutadas. No mais, já seria bom demais se ela tivesse uma orientação legitimamente evangélica, integralmente de paz e fosse um bom serviço em defesa da justiça e da cidadania.

3ª ) As manchetes e as matérias dos jornais anunciaram, ultimamente, uma outra face de Paris. Para nós, que vivemos olhando com longos olhos invejosos para as cidades do Primeiro Mundo, a Cidade-Luz, de repente, nos parece ostensivamente de trevas e violência. E tomamos conhecimento de um desfile de pobreza, desemprego, discriminação e xenofobia. Isto nos faz pensar. O ser humano não aceita, por longo tempo, ser maltratado, desprezado, marginalizado, discriminado, desumanizado. Lembro-me de uma escritora romena que, num Congresso Internacional de Antropologia, ainda nos tempos da Cortina de Ferro, alertava os seus parceiros de todo o mundo: “Cuidado! Não adulteremos o ser humano! A natureza, dizia ela, um dia, se vingará!” Parece que é isto que esteve acontecendo em Paris. As populações periféricas e desprezadas da cidade, sem chances de saírem de sua pobreza, sem poderem viver e realizar suas esperanças, encontraram no caminho da violência a vazão para suas frustrações longamente reprimidas. Os pobres também são fortes e têm dignidade. Não se pode adulterar o ser humano e tentar, com força policial, domesticar nossa natureza! Um dia, a panela explode e numa só noite serão queimados 900 carros, destruídas escolas e padarias, centros de atendimento à saúde e lojas de celulares. Terminamos estas considerações levantando a voz para afirmar: ou cuidamos da verdade, do ser humano, com respeito e sem desprezo, ou uma Cidade-Luz poderá ser iluminada com o fogo, transformando-se numa cidade das trevas e da violência, sem paz, sem merecer a inveja de quem a olha de longe e não sabe nada de sua escondida miséria e de seus possíveis dramas

 

 

 
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