Levantando a voz 8
Frei Neylor J. Tonin
Sobre a graça de ter fé (1)
Queridos amigos, gostaria de levantar, hoje, a voz para
agradecer a Deus a graça de ter fé. Nós cremos porque Deus nos deu a graça de
crer nEle. Ninguém chega a fé por um ato de vontade. Um ateu, por exemplo, não
pode acordar de manhã cedo, dizendo: “Hoje, vou começar a acreditar, a ter fé
em Deus”. Não é assim que, normalmente, começa, na vida das pessoas, a
experiência da fé em Deus. O caminho normal para a fé é outro. Em geral, uma
pessoa crê porque outras pessoas, de sua convivência, também crêem, assim como
há os que deixam de crer porque, ao contacto com pessoas que crêem, se sentem
desestimuladas e... descrentes. O testemunho que elas dão é tão negativo que a
fé acaba lhes parecendo uma experiência pouco animadora. Costuma-se dizer que a
fé é uma chama, tenra e luminosa, que se alimenta ao contacto com a chama da
comunidade dos crentes. Por esta razão, é tão importante a celebração da fé nos
cultos das Igrejas. Ali, fala-se da fé, canta-se e alimenta-se a fé, ali a fé
cresce e se purifica, torna-se mais luminosa e aconchegante.
A fé é, essencialmente, uma experiência: uma experiência
de Deus. E é Deus quem no-la concede. No-la concede através de nossos pais, da
comunidade dos fiéis, do encontro com uma grande figura que, sem medo,
vivenciou a fé. Um mártir, por exemplo, um santo ou uma pessoa que qualquer em
quem reconhecemos a força e a beleza da fé.
Poderíamos nos perguntar se é fácil ter fé e crer. A
resposta seria: é e... não é. É fácil crer quando nos sentimos bem,
quando a vida transcorre normalmente, quando parece que Deus está próximo,
cobrindo-nos com suas bênçãos. É fácil crer quando rezamos e cantamos em
nossas Igrejas, quando os padres e pastores parecem ser homens de Deus,
desapegados das coisas da vida, quando não fazem do dinheiro a principal preocupação
de sua pastoral. É fácil crer quando nossa oração parece ser atendida,
quando pedimos e recebemos, quando a Palavra de Deus nos enriquece e alimenta.
Por outro lado, devemos admitir que, também, não é fácil crer. Não é fácil
crer quando as nuvens tenebrosas das dúvidas parecem cobrir nossa vida. Não
é fácil crer quando escândalos abalam nossas Igrejas, quando somos
cobrados, aparentemente, para além de nossas forças. Não é fácil crer quando a doença bate à nossa porta, quando a morte nos arrebata uma pessoa
querida, quando rezamos e Deus parece não responder, fazendo-se surdo, às
nossas orações.
O que fazer, então, em tais circunstâncias? Os Mestres
Espirituais aconselham, então, duas coisas: 1a.) Não desanimar. Não duvidar de
Deus. Não entrar em desespero. 2a.) Continuar rezando como se nada estivesse de
trágico acontecendo. É, então, dizem eles, que mais devemos rezar e acreditar.
Eles argumentam que Deus não pode abandonar os que nEle crêem, porque Deus é
fiel à Sua palavra e promessas. E a palavra de Cristo é clara: “Quem me segue
não andará em trevas”, não se perderá. “Eu estarei convosco até o fim”, em
todas as situações. “Eu sou o vosso pastor e vos conduzirei a pastagens
verdejantes”. Este é o discurso de Deus em nosso Senhor, Jesus Cristo.
De Deus, não podemos duvidar em nenhuma hipótese, por
nenhuma razão, porque suas palavras são eternas e seu amor é sem limites. Para
que não duvidássemos de seu amor infatigável e inegável, Ele não duvidou em dar
a vida de seu próprio Filho. Quem de nós seria capaz de um tal gesto? Deus o
foi. Os Mestres da Espiritualidade afirmam que esta é a maior prova do amor de
Deus por nós. Podemos sentir-nos abandonados e derrotados, mas Deus não nos
abandonará nem seremos derrotados por nada deste mundo, uma vez que Deus, além
de amar-nos apaixonadamente, é senhor da vida e da morte.
Querido amigo, nunca duvide de Deus, de seu amor por você
e de seu poder! Quando as trevas cobrirem momentaneamente sua vida, quando suas
orações parecem cair no vazio e não obterem resposta, continue de joelhos
diante de Deus, crendo nEle, inabalavelmente! Deus continua sendo seu Pai e
amando-o entranhadamente. Sua mão, possivelmente, o estará, então, conduzindo
para o deserto, para falar-lhe mais intimamente ao seu coração. Em Sua divina
providência, Ele o estará conduzindo para a Terra Prometida, onde corre leite e
mel. Hoje, você poderá estar experimentando a secura da areia em seus lábios.
Amanhã, será a aurora de um novo dia, de um lindo novo dia.
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