Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 9

Frei Neylor J. Tonin

Sobre a graça de ter fé (2)

Há poucos dias, ao refletir sobre a graça de crer, ressaltamos as dificuldades de ter fé. Nem sempre a fé é uma festa. Que o diga Jesus que teve que suar sangue por fazer a vontade do Pai. Todos nós, possivelmente, também já passamos por grandes dificuldades e experimentamos como foi difícil rezar: “Seja feita, o Pai, a tua vontade, assim na terra como no céu!” Os santos e os Mestres Espirituais, homens e mulheres de Deus, testemunharam que a vontade de Deus é muitas vezes tenebrosa, crucificante. Em mais de uma oportunidade, eles, como Jesus, rezaram pedindo a Deus que afastasse deles o cálice do sofrimento. De Santa Tereza de Jesus se conta que, por longos 17 anos, pediu, entre lágrimas, que Deus não a abandonasse. Sentia-se mergulhada na noite escura do sentidos e do espírito.

Pois bem, hoje, vamos continuar a pensar um pouco sobre a fé, esta força interior que é, ao mesmo tempo, uma graça de Deus e um compromisso luminoso em nossas vidas. Ter fé é bom, é muito bom. Quem a tem não sabe porque a recebeu e quem não a tem não sabe o que está perdendo. O que é a fé? Qual é a natureza da fé?

A FÉ, em primeiro lugar, não é um negócio, mais ou menos do tipo: EU CREIO E DEUS ME ABENÇOA. Em algumas religiões modernas, cujos Pastores têm pouca teologia e conhecimentos religiosos, a fé é assim apresentada, como se fosse um contrato ou um negócio entre Deus e o fiel. Fala-se, então, muito em milagres e prosperidade, dentro do seguinte pensamento: Se você crer, você será abençoado com riquezas e prosperidade. Deus se fará como que um secretário a serviço de sua vida. Repete-se à exaustão que Deus é fiel às suas promessas e que não abandona aos que ama e O amam. Isto é verdade, mas Deus não promete benesses em troca de fé. Não é Ele que deve fazer a nossa vontade, mas nós a dEle. Por isso, a fé não é um negócio ou um contrato entre partes desiguais: Deus e nós.

A FÉ, em segundo lugar, não é um raciocínio. A cabeça humana é muito pequena para aprisionar Deus. Muitas vezes, temos que confessar, não entendemos Deus e não conseguimos explicar porque as coisas estão acontecendo tão estranhamente em nossa vida. Quanto mais rezamos, mais fantasmas nos aparecem, como diz o povão. Mais simplesmente, temos que admitir que Deus é mais do que o que pensamos dele e Ele nem sempre atenderá o que lhe pedimos, porque nos atenderá melhor do que lhe pedimos. Temos que perder a presunção de reduzir Deus a um pequeno raciocínio de nossa pobre cabeça. Ele nunca nos defraudará, mas Ele nunca será contido num raciocínio de nossa lógica e desejos, porque Ele é infinitamente mais do que nós.

A FÉ, em terceiro lugar, não é uma vidência, ou seja, ninguém vê a Deus. Não só ninguém vê a Deus, como ninguém pode vê-lo. Se alguém visse a Deus, teria que morrer. Deus é tão maravilhoso e beatificante que, se alguém o visse, não conseguiria mais continuar vivendo. Tudo, as coisas mais maravilhosas deste mundo passariam a ser lixo, como diz São Paulo. Só Deus poderia, a partir de nossa visão dEle, ser então desejável. Quando alguém fala que viu Deus, estejam certos de que teve uma miragem, ele viu apenas o que gostaria de ter visto, mas o que viu não foi Deus, foi apenas a concretização de um desejo, humanamente bonito, mas inconsistente. Não desconheço que a Deus nada é impossível: se Ele quisesse, poderia mostrar-se a alguma de suas criaturas, mas sei também que, nesta vida, somos chamados a buscar a Deus, tateando-O nas trevas, por entre dores e desejos. Vê-lo só nos será concedido quando já não precisarmos mais ter fé, isto é, quando morrermos e formos chamados para o abraço bem-aventurado da eternidade.

A FÉ, em quarto lugar, não se reduz a um conjunto de sentimentos, de bons sentimentos. Digamos sem problemas: Na fé, em geral, há muitos sentimentos. A fé é acompanhada por sentimentos. Sentimos muita alegria e felicidade em crer; mas, mesmo quando cremos e sentimos Deus, ainda assim não podemos reduzir a certeza da fé aos sentimentos que acompanham o ato de crer. Em certos movimentos dentro da Igreja católica ou não, os fiéis se referem a Deus a partir dos sentimentos que têm por Deus. Tais sentimentos que são bons, podem ser enganosos. Quando subimos na cruz, não sentiremos, certamente, Deus. Pelo contrário, como Cristo, teremos que gritar, em meio ao desespero: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Em última análise, não podemos dizer que cremos em Deus, apenas porque O sentimos. Muitas vezes, não O sentiremos, mas, mesmo assim, teremos que continuar a acreditar em Seu poder e misericórdia.

Se a fé não é um contrato ou negócio, se não é um raciocínio, que repousa apenas na frieza da lógica, se não traz uma vidência do invisível, embora seja iluminada, e se não repousa em sentimentos, embora seja por eles acompanhada, o que é então a fé? Antes de responder a esta pergunta, escutemos uma música para distender nossos espíritos.

O que é, então a fé, se a fé não é um negócio, um raciocínio, uma vidência e não se alicerça em sentimentos? A fé, nos diz a Teologia e a Espiritualidade, é uma certeza e, desta certeza, não temos mérito. A fé é um dom, que nos é concedido pela graça de Deus. Ele nos capacita a crer nEle. Ele infunde em nós a alegria de acreditar em seu poder e em seu amor. Quem tem fé afasta-se do desespero durante a vida e, principalmente, na hora da morte. Porque, na vida e na morte, o que conta não são as nossas forças e as disposições do nosso espírito, mas a generosidade da graça de Deus. A fé, por isso, é uma graça sem preço, impagável, transfigurante e imerecida, inexplicável e única. Quem a tem Não sabe porque a ganhou; quem não a tem não sabe o que está perdendo.

Cristãmente, a fé é definida como adesão firme e definitiva à pessoa de Cristo. Quando acreditamos em Cristo, nosso Salvador, esta fé irrompe com uma alegria torrencial, alegria que já fez os mártires entrar na arena romana cantando e os homens de Deus a preferirem a morte à vida. Só a graça de Deus é capaz de conferir à fé esta certeza inabalável.

Terminemos este LEVANTANDO A VOZ rezando e pedindo fé, mais fé:

Muito obrigado, querido Deus, por acreditar em ti, mas como os apóstolos te suplicamos: “Aumenta nossa fé”.

Ajuda-nos, querido Deus, grande e bom, a crer que teu amor nos ama sem medidas, que teu poder nos protege sempre e em toda parte, que teu perdão será sempre abundante e nunca nos faltará.

Ajuda-nos a não ter medo de teu coração, a nunca nos cansar de caminhar em tua direção e a não desesperar nos momentos da provação.

Ajuda-nos a ver para além das aparências, descobrindo em cada ser um irmão

e em cada acontecimento uma graça.

Que a cruz não nos cause revolta nem o sofrimento nos seja fonte de amarguras. Pelos caminhos de Jesus, que se humilhou por nós, que amemos a vida e sempre rendamos graças a teu Nome.

Muito obrigado, meu Deus, por acreditar em ti, mas como os apóstolos, de todo o coração, te suplicamos: “Aumenta nossa fé”. Amém.

 

 

 
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