Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 10

Frei Neylor J. Tonin

Assuntos vários

Levanto, hoje, a voz para focalizar meia dúzia de assuntos que merecem a consideração de todos. Três assuntos têm uma tônica mais negativa e três mais positiva.

01. Tive a oportunidade de passar duas semanas numa reserva dos índios Xavante, ao sul do Mato Grosso. Aprendi muito com eles. Tem histórias lindas sobre a criação do mundo e sobre a igualdade social. Não desprezam ninguém, mas estão longe de qualquer complexo de inferioridade. São nobres e simples. São acolhedores, amigos, orgulhosos de suas tradições e sempre pacíficos. Perguntei a eles se é justa a observação dos brancos de que os índios, em geral, são preguiçosos. Me responderam que “não” e me garantiram que os índios estão sempre fazendo alguma coisa... mas devagar. Lembrei-me disso quando esteve entre nós o jornalista e escritor canadense, CARL HONORÉ, para apresentar seu livro Devagar, que já foi traduzido em 25 línguas. Afirmou: “Não sou fundamentalista da lentidão, mas é preciso dar tempo adequado a cada momento”. Precisamos evitar a neurose da pressa. Não podemos, como diz a autora americana, BARRY STEVENS, apressar o rio. Ele corre sozinho. A pressa não é, na maioria das vezes, uma boa companheira. Muitas coisas acabam sendo mal feitas pelo descontrole do açodamento. Comer, fazer amor, escrever, telefonar, cozinhar, falar com um amigo, escutar uma pessoa necessitada, rezar são coisas que precisam de tempo, de calma, de paz interior. Não somos máquinas. Como diz o autor canadense, precisamos nos conectar com nossa tartaruga interior. Ela é benéfica ao nosso modo de agir e de bem fazer as coisas mais importantes de nossa vida. Caso contrário, por pressa, acabamos por fazer mal e por passar aos outros nossas ansiedades e angústias. Sirva-nos, como princípio, o que disse o escritor português, JOSÉ SARAMAGO: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.

02. O Brasil tomou conhecimento dos trotes nefandos, com torturas inomináveis e ridículas, de que foram vítimas jovens novatos recém formados de nossas Forças Armadas, no 20o. Batalhão de Curitiba, Paraná. Choques elétricos, chineladas nas plantas dos pés, simulação de afogamento, queimaduras com ferros em brasa. Nada disso se justifica. Todas estas manifestações beiraram a irracionalidade de quem queria apenas se divertir com a infelicidade de colegas indefesos. O ser humano se assemelha, às vezes, mais a um animal, por desrespeito e crueldade, do que a um companheiro de tarefas e destino. Para tudo há limites! Quando este limites são ultrapassados, nossa natureza humana é adulterada e ofendida. Não se pode rir, como fizeram os veteranos das Forças Armadas de Curitiba, da desgraça dos outros, mesmo que seja em nome de uma promoção justa e merecedora de celebração.

03. O TRE (Tribunal Regional Eleitoral) absolveu o Sr. Garotinho e a Governadora Rosinha Mateus, acusados de uso indevido dos recursos públicos em campanha eleitoral em Campos. Estava em jogo a inelegibilidade do casal para as eleições nos próximos oito anos. O resultado dos Desembargadores ficou empatada em 3 a 3. Pelo voto de Minerva, o Presidente do TRE, o Desembargador e meu amigo, Marlan de Moraes Marinho, desempatou a pendência em favor dos acusados, alegando que, em caso de dúvida, deve prevalecer a decisão pro réu. Acontece que os ilícitos foram largamente atestados por inúmeras denúncias claramente documentadas, inclusive pela TV e por jornais. Nada disso, no entanto, foi suficiente. Aos leigos, sobra uma grande frustração e uma pergunta: Dá para crer na Justiça? O que é preciso acontecer para que os poderosos experimentem os rigores da Lei, que é tão pródiga em punir ladrões de galinhas e indefesos cidadãs?

04. Não há brasileiro que não conheça o astro argentino de Futebol MARADONA, DIEGO ARMANDO MARADONA. Ficou conhecido não apenas por sua arte futebolística, refinada e admirável, mas também por sua dependência às drogas que o levaram ao inferno. Foi ao fundo do poço e só não morreu porque, finalmente, se entregou a um tratamento longo e caro. Ele mesmo afirmou: “Estava morrendo, estava me matando”. Graças a Deus, isto não aconteceu, mas deixou uma lição dolorosa e eloqüente que foi estampada em todos os órgãos da imprensa escrita e mostrada ao vivo nas TVs do mundo inteiro. Sua imagem causava pena. Baixo, com 1m68, chegou a pesar mais de 130 kg. Pior do que sua imagem física, era sua dependência interior às drogas. Irritava-se facilmente, chegando a espantar os jornalistas que o perseguiam a tiros de espingarda. A grande responsável por sua recuperação foram sua mulher, Cláudia, e suas filhas, segundo seu próprio testemunho. Literalmente, após anos de tratamento, deu a volta por cima, recuperou-se para a alegria de seus fãs e para a nobreza de sua autobiografia. Há dias, afirmou: “Eu não sou nenhum mágico. Sou o Diego, o que nasceu em Fiorito (bairro pobre de Buenos Aires). Os mágicos são os que vivem lá, em Fiorito São mágicos porque vivem com mil pesos (cerca de 330 Reais) por mês”. Queria receber, MARADONA, grandíssimo jogador de futebol, nossas homenagens e nossos aplausos. Que o milagre da sobriedade o mantenha como um homem de verdade, longe da maldição das drogas, você que foi o maior jogador de futebol da Argentina.

05. Um outro jogador que merece os nossos aplausos é o nadador brasileiro CLODOALDO SILVA que recebeu, há pouco, o Prêmio Mundial do Esporte Paraolímpico, como o melhor atleta masculino do mundo. Potiguar, 26 anos, ganhou em Atenas em 2004, nada menos do que 6 (seis) medalhas de outro e 1 (uma) de prata. Figura doce, despida de qualquer vaidade, este norte-riograndense encantou o Brasil e o mundo com suas performances na natação e por seu exemplo de vida, esforçado e vitorioso. Até quando parecia que não ia conseguir, arranjava forças do fundo da alma para bater e conquistar as desejadas e improváveis medalhas de ouro. Assim se expressou, ao receber, como deficiente físico, a medalha de melhor atleta paraolímpico do mundo: “É bom que a sociedade nos veja não como pobres coitados, mas como pessoas capazes, cuja deficiência é um detalhe. Não há nada de mais emocionante e recompensador, para um portador de deficiência, do que ouvir de uma criança, sem qualquer deficiência: ‘Quando crescer, quero ser como você’”. Receba, CLODOALDO, grande vencedor e homem de verdade, os nossos aplausos mais calorosos e que muitas crianças de hoje possam ser grandes e vitoriosas, como você, amanhã.

06. Estamos todos de acordo que falar bem o nosso querido idioma não é muito fácil, principalmente para os estrangeiros. Se falar, que é mais fácil, já é difícil, como não será escrever bem! Erros de concordância entre verbo e sujeito, erros gramaticais e de regência nos verbos são comuníssimos. Nem gostaria de repetir os erros grosseiros de regência em nossas novelas, como “Eu lhe amo”, ao invés de “Eu o amo” e “O que mais gosto”, ao invés de “De que mais gosto”. Não sei se os arroubos de amor ficam mais convincentes falando mal a nossa querida língua. Jornalistas à parte, que a pressa na elaboração das matérias os torna mais sem tempo e desculpáveis, desejo exaltar alguns jornalistas de nossa imprensa escrita pelo apuro de seu português, além da profundidade e pertinência de suas colaborações. São eles: Élio Gáspari, Arnaldo Jabor, Merval Pereira, Ancelmo Góes e o Gente Boa Joaquim Ferreira dos Santos. Entre as mulheres, destacaria Tereza Cruvinel, Miriam Leitão, Helena Chagas e.......... É um prazer literário lê-los e lê-las. Todos escrevem bem, muito bem, com rico vocabulário, que foge das platitudes ocorrentes às páginas gerais dos nossos jornais. Dificilmente recorrerão a descrições como: “A festa não tem hora para terminar” ou classificarão de “suposto criminoso” um bandido que foi pego em flagrante. “A palavra, afirmou o ex-Secretário da ONU DAG HAMMARSKJOELD, é a primeira retidão que devemos prestar a nós mesmos. Usar mal a palavra é mostrar desdém pelo homem. Isso mina as pontes e envenena as fontes. Faz o homem regredir pela longa trilha da sua evolução”. E o escritor grego NIKOS KAZANTZAKIS asseverou: “Cada palavra é uma arca; dançamos em torno dela, a sentir o que contém de terrível, que é Deus”.  Para estes escritores e jornalistas, acima citados, e para todos quantos reverenciam a língua em que falam, dedicamos nosso mais sincero aplauso.

 

 

 
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