Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 11

Frei Neylor J. Tonin

Sobre a morte

Queridos amigos, em meu livro TUDO É GRAÇA, entre várias graças, falo também sobre a graça de morrer. São Francisco, meu querido pai espiritual, em seu famoso “Cântico ao Irmão Sol” ou “Cântico das Criaturas”, assim termina seus louvores a Deus: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a Morte Corporal, da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrem em pecado mortal! Felizes os que ela achar conformes à tua santíssima vontade. Porque a morte, então, não lhes fará mal algum”.

A morte, como tema geral, como realidade inevitável da vida, pode ensejar um belo e civilizado discurso. Mas, como dado pessoal – ter que morrer – o discurso será, sem dúvida, bem diferente. A morte dos outros pode ser, para nós, trágica e lamentável; a nossa é simplesmente indesejada e a pior das frustrações. Como padre, já estive mil vezes em cemitérios, acompanhando a dor de pessoas e famílias que tinham perdido entes queridos. O drama da morte é indescritível. E a dor será sempre mais aguda quanto mais inesperada e imprevisível foi a morte. Quanta dor na morte de um filho, de uma criança, de um jovem, de uma pessoa em plena idade madura! Quanta dor, embora mais suportável e mais facilmente aceita, na morte de um querido vovô, de uma adorável vovó, de uma pai e de uma mãe, de um amigo querido e, até, de um ídolo nacional!

Diante da morte, sempre nos fazemos a mais cruel das perguntas: POR QUÊ? A pergunta da morte não só é cruel como é também, principalmente para quem não tem fé, irrespondível. Para todos, mesmo para os que crêem, qualquer explicação sobre a morte será sempre insuficiente e inacabada. Na verdade, ninguém quer morrer e ninguém aceita, sem dor e sem uma ferida no coração, a morte de alguém próximo ou querido. A tragédia da morte é sempre maior do que qualquer outra tragédia, pelo fato de ser definitiva e não deixar espaço para uma possível recuperação. Com a morte terminam nossas esperanças humanas. É por isso que se diz: Enquanto há vida, há esperança. A morte decreta o fim delas.

A morte, por isso, humanamente falando, é a grande vilã, a grande inimiga da vida, pois coloca em cheque e frustra não um, mas todos os sonhos de quem parte e deixa uma inconsolável saudade em que4m fica.É difícil, senão impossível, acostumar-se com a idéia ou a realidade inescapável da própria morte. Isto, aliás, não deveria causar estranheza a ninguém. Bastaria que nos lembrássemos que grandes santos e pessoas de ímpar grandeza, e até o próprio Cristo, tremeram, suaram sangue e pediram a Deus para não beber do cálice da morte. Isto não significou neles falta de fé, mas apenas medo humano normal e chocante horror diante da frustração maior de ter que morrer.

A morte, sempre falando humanamente, é a pior das desgraças e para ela não há explicação plausível, se esta explicação não estivesse pregada numa cruz de salvação, onde morreu um homem que era, ao mesmo tempo, também Deus.

Sobre Ele, sobre Jesus, e sobre o sentido pascal da morte, falaremos depois de escutarmos uma música de relaxamento e de meditação..

Queridos amigos: continuemos a refletir um pouco mais sobre a morte. Confesso-lhes que o grande medo que sinto é o de vulgarizar, com palavras fáceis e formulações sem alma, o grande POR QUÊ da morte. Se você, querido ouvinte, está sentindo na carne a separação dolorosa e recente de um ente querido, e se minhas palavras não conseguirem traduzir devidamente todo o sofrimento que você está sentindo, e se eu me mostrar inábil para levar-lhe um pouco de consolo, eu lhe peço, do fundo do coração: me perdoa! Que tuas lágrimas possam inundar meu coração. Disponho-me a sofrer contigo e quero estar ao teu lado, como padre e irmão. É assim que pretendo falar de agora em diante.

Embora de difícil aprendizado, a verdade é que viver é também estar sempre morrendo. Cada minuto que passa é uma pequena morte que acontece. Não morremos apenas nos minutos, mas também nos acontecimentos. Morremos para tudo que fazemos e estas mortes nós chamamos de “passado” ou “nossa história”. E disto vamos criando e sentindo saudades. Nós, adultos, já morremos para nossa infância, para nossa juventude e para tantos outros acontecimentos e idades. Para quantas experiências e sonhos, cada um de nós já morreu! Eu queria, a um certo momento de minha vida, ter me casado. Para me tornar sacerdote, tive que morrer para o casamento. Queria ter sido um cantor, um grande e admirado cantor, que entretivesse com uma sonhada linda voz as multidões. Nada disso me foi possível. Não tive voz para tanto nem chance de desenvolvê-la. Para este sonho, também morri. E quantas outras mortes já aconteceram na minha vida e, quem sabe, na tua também!

Hoje, nesta noite, aqui estamos, eu e eu. Eu te falando e tu me ouvindo. Poderíamos, quem sabe, trocar de lugares. Você falando e eu escutando. Mas assim não é. Cada qual, tu e eu, estamos com uma pequena morte neste momento de nossas vidas. Que fazer? Dir-nos-iam os Mestres Espirituais: fazer bem o que estamos podendo fazer. Você me ouvindo e eu te falando. Uma coisa não é melhor do que a outra. As duas podem ser boas e ricas, sendo as duas partes da nossa vida e da nossa morte. Ou, melhor, ambas nos preparam para a morte definitiva. Ambas estão cheias de Deus, porque Deus está igualmente inteiro em quem fala e em quem escuta. Cristo não deu sua vida para salvar somente os que falam nem somente os que escutam. Seu sangue é redentor para uns e outros. Igualmente.

Espiritualmente, morrer é voltar para Deus, falando e escutando. E isto o estamos fazendo desde o instante em que nascemos. A morte definitiva acabará com a fala e com a escuta. Nascemos cheios de cuidados pela vida e morremos na maior pobreza, mas cheios dos cuidados de Deus. Deus que cuida da vida, porque a vida lhe pertence, Deus também cuida dos que morrem, porque Ele é o senhor da morte.

Como não temos medos invencíveis de viver – medos sempre os teremos – também não temos que ter medos invencíveis de morrer. Ultrapassada a porta final da vida, garante-nos a fé no Cristo ressuscitado, que venceu o pecado e a morte, encontraremos um grande e bom Pai, de braços abertos, com um grande sorriso nos lábios, nos dizendo: “Que bom, meu filho, que você voltou!” Ele, talvez, nos perguntará: “Como foi a vida lá embaixo, meu filho?” E nós lhe diremos: “Foi boa, foi uma aventura maravilhosa, graças a Ti, graças a Deus!” E acrescentaremos diante da felicidade que, então, estaremos sentindo: “Se a vida foi uma graça, e isto não podemos negá-lo, a morte também o foi ou está sendo. Bom mesmo é estar, agora, aqui, de volta, diante de Ti, contigo, em teus braços. Obrigado, querido Deus, por me abraçares! Eu temi tanto morrer. Agora, eu só temeria fugir de teus braços de Pai e afastar-me da batida de teu coração. Abraça-me, meu Deus! Abraça-me fortemente para que nunca mais me afaste de Ti”.

A morte dos outros nos faz chorar de tristeza e de saudades. Mas eles estão com Deus e estão felizes. A nós, cabe-nos honrar suas vidas na terra, conservando sua memória, e aceitando que, agora, já não queiram outra coisa do que viver, na paz e na alegria, na luz e na felicidade, com Deus, na vida eterna. Amém.

 

 

 
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