Levantando a voz 14
Frei Neylor J. Tonin
Um cartaz do tamanho do céu
Queridos amigos: 30 de julho é o Dia Nacional do Cartaz.
Com certa razão, disse um amigo meu: “Tem dia para tudo. Entre muitos e muitos
outros, tem o Dia do Tintureiro (3 de agosto), o Dia das Devoluções (31 de
dezembro), o Dia do Perdão (18 de setembro), o Dia do Trote e da Mentira (1o.
de abril), o Dia do Protesto (14 de agosto), o Dia da Sogra (28 de abril), o
Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozônio (16 de setembro), o
Dia do Orquidófilo (22 de junho), o Dia do Silêncio (7 de maio), o Dia do Frevo
(14 de setembro), o Dia Nacional do Choro (23 de abril), o Dia do Samba (2 de
dezembro), o Dia Nacional dos Vereadores (1o. de outubro), o Dia do Prefeito (3
de outubro), o Dia do Palhaço (10 de dezembro), o Dia do Vizinho (23 de
dezembro), o Dia Internacional da Pizza (10 de julho), o Dia do Trigo (10 de
novembro), o Dia do Cacau (26 de março), o Dia do Café (24 de maio) e o Dia da
Banana (22 de setembro). Será que tem o Dia do Abacaxi e o do Pepino?”.Que
importa? Para quem está feliz, qualquer dia é sempre um dia de festa. Ao
contrário, para quem está enfezado, até os dias de carnaval são chatos e sem
graça.
30 de julho é, no Brasil, o Dia Nacional do Cartaz. Que
tal imaginarmos o céu como um enorme cartaz, que pudesse ser lido por todo o
mundo, com a chance de escrevermos nele o que bem quiséssemos? O que tu
escreverias?
Há quem, cansado com a violência das grandes cidades e
muito irado, simplesmente escreveria: BASTA, palavra que, aliás, já se encontra
em muitas janelas de casas e apartamentos, expressando a consternação e a
impaciência de uma classe média, até há pouco tranqüila, mas que já começa a
sentir falta de segurança e proteção.
Há quem, diante da estupidez da guerra, que acompanha a
humanidade desde sempre, simplesmente escreveria: PAZ! QUEREMOS PAZ! Em
verdade, sem paz, a humanidade está mais perto do inferno do que do céu.
Imagino que uma pessoa religiosa escreveria: DEUS É PAI,
ou DEUS TE AMA. Se aceitamos que o mundo é uma grande casa, que bom seria se
todos tivéssemos um mesmo Deus, que fosse pai e salvador de todos! A vida,
então, dificilmente mergulharia no flagelo das guerras e da loucura dos
megalomaníacos.
Um namorado, certamente, circundaria com um coração o nome
de sua bem-amada. Uma criança, quem sabe, o nome de sua escola ou professora.
Um doente, uma pequena oração pedindo a Deus a cura de seus males.
Quantos ofendidos escreveriam: EU TE PERDÔO, e quantos
velhinhos: A VIDA É BELA! Um sábio se lembraria do título do livro da autora
norte-americana, Barry Stevens, e escreveria: NÃO APRESSE O RIO. ELE CORRE
SOZINHO.
Antes de prosseguir e nos perguntar o que nós escreveríamos,
um pouco de MÚSICA.
E, tu, o que escreverias? Eu, como franciscano,
escreveria: SOMOS TODOS IRMÃOS. Não somos outra coisa. Lembra-te de Jesus! Ele
veio para alargar os limites geográficos, culturais e sociais do Povo Eleito,
anunciando que já não haveria mais “gregos ou judeus, circuncisos ou
incircuncisos, incultos, selvagens, escravos ou livres” (Cl 3,11), mas todos, a
partir de seu evangelho e do amor de sua cruz, seriam simples e lindamente
irmãos.
Ser amigo é uma escolha. Ser irmão é uma marca e um
destino. O amigo é uma conquista do tempo. O irmão é um presente do céu. O
amigo, quando nos ama de fato, nos chama de irmão. O irmão, quando é nosso
amigo, diz simplesmente: Tu és meu irmão!
São Francisco de Assis não quis fundar uma Ordem ou uma
Congregação de gente especial, mas apenas uma Fraternidade de irmãos.
Revelou-se quão predestinado era e a importância de sua intuição, quando, com
simplicidade, afirmou: “Deus me deu irmãos”. Na fraternidade, ninguém deveria
chamar-se prior ou superior. Todos seriam somente irmãos.
Um dia, falando com um pobre, perguntei-lhe o que
escreveria se o céu fosse um enorme cartaz, e ele me disse: “Escreveria
simplesmente a palavra PÃO. UM PÃO, POR AMOR DE DEUS!”
Confesso-te que me comovi e fiquei a pensar, por um lado,
nas mil padarias que existem nos bairros e nos shoppings de nossas
cidades e, por outro, na fome de quem não tem uma moeda para comprar um mísero
pão. Lembrei-me da sinistra estatística, segundo a qual existem, em nosso
mundo, 850 milhões de pessoas que dormem todas as noites, com o estômago
roncando de fome por falta do que comer. Nosso mundo poderia alimentar 12
bilhões de pessoas e não alimenta nem a metade! E isso, em parte, por
insensibilidade!
Fiquei pensando nas outras mensagens, todas lindas e verdadeiras,
todas dignas de serem escritas num cartaz do tamanho do céu. E me perguntei:
Para quem tem fome, o que significa “Deus é Pai” e “Todos somos irmãos”?
Assomou-me diante dos olhos o Juízo Final, no qual Jesus
se identificará com os pobres a quem damos ou não comida, com os nus a quem
damos ou não roupas, com os miseráveis a quem, na caridade, acudimos ou não. E
fiquei com vontade de diminuir todas as outras escritas, dando destaque apenas
ao pedido do pobre por pão, por um pão, por amor de Deus.
Não te faças de insensível, ó Homem, diante da miséria de
tantos irmãos! Escuta seu clamor e grava esta humilde advertência: quando te
encontrares em tua igreja e souberes que teu irmão, lá fora, está com fome,
deixa tua oferta junto ao altar e vai primeiro saciar-lhe a fome. Depois, volta
e oferece a Deus teu coração, que já o deste a quem, como tu, é filho do mesmo
Pai que está para além do grande cartaz que todos pintamos no céu.
Como disse, lindamente, a Irmã Emmanuelle em seu livro A
Riqueza da Pobreza: “Possamos todos... avançar de mãos dadas, nas estradas
da fraternidade. A fraternidade é o caminho que enche e plenifica o coração do
homem. Ela é o caminho que enche o coração de Deus. Ela é pura alegria e
exultação”.
Hoje, levanto a voz para todos que são irmãos de verdade e
escrevem em nossos céus, nos céus de nossos olhos e consciências, uma mensagem
positiva de beleza e grandeza. Para eles, levanto a voz e peço um caloroso
aplauso.
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