Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 16

Frei Neylor J. Tonin

Deus é simpático

QUERIDOS AMIGOS: não sei se, em algum momento de sua vida, você já pensou ou se alguém já lhe disse que Deus é simpático, que Deus é infinitamente simpático. A um primeiro momento, poderia esta expressão até parecer um desrespeito. Mas, creiam-me, não o é. Pelo contrário: a simpatia é uma virtude divina, é o jeito mais próprio de Deus. Gosto, por isso, de pensar na simpatia de Deus, tão diferente da nossa – muitas vezes – superficial e enganosa simpatia humana. Deus, em seu ser, não pode ser superficial e enganosos. Ele só pode ser sempre, totalmente, plenamente, infinitamente simpático.

Vamos pensar um pouco sobre Deus como um Deus simpático. Mas comecemos por ver como são as simpatias humanas. Ninguém é mais simpático do que quem vive esquecido de si mesmo, alimentando uma imensa e intensa simpatia pelos outros.

Tu e eu, como todo mundo, temos horror a uma simpatia engomada e diplomática. Ninguém aprecia uma simpatia falsa. A simpatia, para ser boa, tem que ser repassada de sentimentos verdadeiros, deve ter alma, ser luminosa, empática, calorosa, desarmada, desinteressada, afável, sem disfarces, doce e devotada. É a simpatia que se inclina sobre os outros e não a que os mantém à distância, tratando-os apenas com o favor de uma sobranceria enfastiada.

Não sei se sabes que 70% da superfície da terra é coberta de água, sendo salgadas 97,6% de todas as águas. Doces, apenas 2,4%. Para tornar-se doce, a água dos oceanos deve passar pelo processo da evaporação, saindo de seu habitat, o mar, evaporando, mudando de alma e destino, e, só então, caindo transformada em doce sobre a terra. Maravilha da natureza! Graças a este processo, alimenta-se a vida e sobrevivemos todos.

E, tu, que és? Um poço de água salgada ou uma fonte de água doce? Que dizem os que te “bebem”? Já olhaste no fundo dos olhos das pessoas, quando entras em contato com elas? Fazem elas cara de quem comeu e não gostou ou disfarçam penosamente seu mal-estar, porque te vêem fechado em tua pequenina concha, pouco te importando pelo que sentem e gostariam de comunicar-te? Esta não é uma questão de somenos importância. Pelo contrário, é algo de vital definição para tua saúde afetiva e espiritual.

Conheces, sem dúvida, pessoas amargas e ressentidas, egoístas e desajeitadas para o convívio social. São pessoas azedadas, imbebíveis como as salgadas águas do mar. Negam-se a sair de si, giram loucamente em torno do próprio eu, revestem-se de uma capa de auto-proteção, são refratárias e sempre mal humoradas. Verdadeiros e tristes poços de água salgada, sempre armados e inacessíveis! Sofrem muito, é verdade, mas dão a impressão de preferir a calma aparente de seu inferno sem graça à beleza desafiadora da convivência com os outros.

Conheci uma pessoa assim e te passo seu perfil sem rodeios ou exageros. Não dizia “bom dia” nem desejava boa sorte a ninguém. Não sabia agradecer nem pedir desculpas. Passava pelos outros como um deus e, para esconder suas inseguranças, os considerava como pessoas dignas de piedade. Comia como um bicho, sem conversar, como se estivesse prestando um favor à comida. Nunca ria nem sorria, evidentemente. Para ela, os outros estavam sempre errados e não tinham grande valor. Condenava-os, por isso, sem meias palavras. Desconhecia a indulgência, arrogando-se sempre o veredicto final sobre seus atos e comportamentos. Quando encontrava alguém digno de aplausos, desacreditava-o prontamente como superficial e tendencioso. Em seus últimos momentos, não aceitou nem a ajuda dos médicos. Preferiu enfrentar, sozinho, seu triste isolamento, e morrer sem as lágrimas, até mesmo, de seus familiares.

Infelizmente, a tal ponto pode chegar a frustração e a amargura de quem vive sem simpatia. Não é preciso dizer que tal vida é tudo menos vida. Antes de morrer, quem assim vive, já vive morto para a graça de viver e para o lindo sonho de ser feliz.

Antes de continuar, escutemos uma MÚSICA para relaxar.

QUERIDOS AMIGOS: a simpatia é uma disposição da alma, uma energia arejada do espírito, uma beleza interior. Simpática, por isso, é a mãe que oferece seu seio na doce missão de alimentar seu neném; simpático é o pai que abraça seu filho. Simpática é a cozinheira que prepara panelas de comida para quem têm fome. Simpático é o gari que varre as ruas para que os transeuntes tenham orgulho da limpeza de sua cidade. Simpático é o médico que se devota aos seus pacientes, o advogado que defende a verdade para seus clientes e o professor que troca seu coração com seus alunos. Todos podemos ser simpáticos: o padre que reza bem uma missa, a noiva que se embeleza para seu bem-amado, a tia que é paciente e acolhe com indulgência seus sobrinhos.

Todas estas pessoas têm uma coisa em comum: vivem para fora de si mesmas, ocupando-se e preocupando-se com os outros. Vivem esquecidas de si mesmas. Se algo fazem por si é apenas para serem melhores para os demais. Parecem não ter um “eu”, quando na verdade chegam à sua mais profunda interioridade quando vivem esquecidas dele.

A palavra simpatia vem do grego e quer dizer sofrer com, assumindo com paixão os sonhos, os problemas e as quedas dos outros. Quem é simpático vibra com a vida de seus semelhantes, com seus anseios e carências. Perde-se para se encontrar, sofre para fazer felizes os outros, morre para viver mais dentro dum céu que já experimenta.

Assim é Deus, de quem dissemos que é infinitamente simpático. Teve que expulsar nossos primeiros pais do paraíso porque eles não quiseram vive com Ele, mas preferiram ouvir os sussurros da Serpente. Mesmo assim, enviou-nos, em sua infinita simpatia, seu querido Filho, Jesus, quando éramos ainda pecadores, para salvar-nos, para mostrar-nos o quanto nos amava e o quanto era apaixonado por nós. Deu sua vida para que ninguém perdesse a sua. Enfrentou nossos medos, para que ninguém tivesse medo dEle. Como um Pai, está sempre à espera do Filho Pródigo para abraçá-lo e fazer-lhe festa. Assim é Deus. Simpático, só pode ser simpático, porque nos ama perdidamente, apaixonadamente.

Olha para Deus e não sejas, QUERIDO AMIGO, refratário e antipático! Não vivas de mal com a vida! Não abdiques da companhia dos outros! Abandona teus orgulhos pequenos e ridículos! Abre-te para os que vivem a teu lado! A natureza das coisas é de interdependência, de ajuda mútua, de partilha das dores e alegrias, de comunhão e festa. Só amando e sendo amado, só acolhendo e sofrendo juntos, temos a chance de nos salvar e sentir a vida como bênção. Caso contrário, não serás apenas um condenado, mas já estarás criando um inferno do qual serás, infelizmente, o primeiro demônio. Mas se és simpático, se amas os teus semelhantes, se te pareces com Deus, em sua infinita simpatia, aceita, com alegria e com nosso reconhecimento, o nosso mais caloroso aplauso.

 

 

 
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