Levantando a voz 17
Frei Neylor J. Tonin
Perdoar e ser perdoado é tão bom
QUERIDOS AMIGOS: Vamos voltar ao assunto do perdão, sobre
a graça de perdoar e ser perdoado, como, há poucos dias, já refletimos e
dissemos que poucas graças dão tanta paz ao espírito como a do perdão. Do
perdão que se dá e se recebe. Perdoar e ser perdoado é uma tremenda graça e uma
experiência humana que todos desejam e da qual todos precisam. É uma
experiência de amor e de vida, de bênção e de reafirmação positiva de nosso eu
ou pessoa. Ao perdoarmos, sentimo-nos verdadeiros filhos de Deus, que está
sempre oferecendo perdão, e ao sermos perdoados, sentimo-nos amados e novamente
reintegrados na corrente das graças de Deus e dos outros.
Quando alguém nos olha com olhos de perdão, refazem-se as
pontes, encurtam-se as distâncias, desarmam-se os espíritos. E passamos a
respirar melhor. Parecemos ressuscitar para uma nova vida quando alguém nos
diz: “Esquece! Não te preocupes! O que aconteceu já está superado. Agora, é
viver e tocar para a frente. A depender de mim, estás perdoado!” O perdão dos
outros é como o abraço de um amigo: só nos faz bem.
É bom, é muito bom perdoar e ser perdoado! Dá paz e
alegria, sentimo-nos mais leves, o perdão abre-nos para a misericórdia de Deus
e acorda em nós novos desejos de vivermos diferentemente, sem medos e
tristezas, soltos e reconciliados.
O contrário também é verdade: ao odiar, o ser humano se
torna duro e refém do próprio ódio. Seu rosto fica vincado por disposições de
vingança, a pessoa se faz e se torna feia por dentro e por fora. E quem é
odiado, sente-se infeliz e entristecido, vive assustado interiormente e se
comporta como um pássaro ferido, sem forças para voar.
A Bíblia fala que Deus é amor e afirma que Ele é
misericórdia. Esta é a identidade de Deus. Ele ama suas criaturas e está sempre
pronto para perdoá-las. Tem misericórdia de suas criaturas, porque elas são
pequenas, mas não despreza a obra de suas mãos nem se aborrece com os pecados
humanos. São Jerônimo afirma que o trechinho do livro da Sabedoria – capítulo
11, versículos 22 a 26 –, que fala sobre o perdão onipotente de Deus, é o mais
lindo do Antigo Testamento.
Por que? Porque nele Deus é chamado de “o grande amigo da
vida” (v. 26). Afirma o autor sagrado que Deus, por ser onipotente, releva
nossos pecados. “Tu fechas os olhos aos pecados dos homens” (v. 23) e tens
entranhas de misericórdia, “porque tudo podes”.
A misericórdia de Deus nasce de seu poder (“porque tudo
podes tens misericórdia”). Assim a pessoa que perdoa se faz parecida com Deus.
Quem não perdoa é fraco e pouco... divino. Quem cultiva, exacerbada e
exageradamente, o pecado próprio e o dos outros, obscurece e tisna a imagem e a
semelhança que é de Deus.
Deus não é um Deus de pecados. Deus é um Deus de pecadores
e de misericórdia. Nós, também, não somos pessoas do pecado, mas da graça de
Deus e, como pecadores, confiamos em seu poder e misericórdia, sempre
agradecidos pelo perdão que Ele nos oferece e sempre oferecendo a graça do
perdão aos que nos ofenderam.
A palavra misericórdia vem do latim e significa dar
o coração aos miseráveis: míseris (aos miseráveis) cor (o
coração) dare (dar). Há sempre alguém que se sente miserável em vista do
que praticou e está em busca de alguém que lhe dê o coração. Esse alguém
podemos ser nós. O coração que ele busca poderá ser o nosso ou, no nosso, o de
Deus.
Deus, certamente, dará seu coração a ele, perdoando
suas ofensas e relevando suas fraquezas. E nós? Por que não perdoá-lo e dar-lhe
nosso coração? Jesus pediu que amássemos nossos inimigos e fizéssemos o bem a
quem nos prejudicou. E, no Pai-Nosso, condicionou o perdão de Deus ao perdão
que devemos dar aos miseráveis, aos que nos têm ofendido.
No arrastar da carruagem, podemos, é verdade, não estar
prontos para o perdão quando a ofensa é grande demais e nos feriu muito
profundamente, mas não podemos deixar de ir, na oração, preparando o coração
para o grande dia do reencontro e da festa do perdão.
Uma das situações mais melancólicas, em nossa vida
familiar e religiosa, é vermos pessoas de Igreja alimentando sentimentos de
vingança e sendo duras de coração. Não só não perdoam, como condenam e
perseguem irmãos que julgam ter pecado e ofendido seu nome ou autoridade.
Tristes pessoas estas! São árvores de frutos amargos.
Rezam a Deus com os lábios, mas seus corações estão cheios de rancor. Deveriam
refletir na seguinte historinha árabe: Quando Al-Manum prendeu seu inimigo
Ibrahim Al-Mahadi, pediu a opinião de seu ministro Abi-Khaled Al-Ahual. Este
lhe disse: “Príncipe dos Crentes, se o matares, estarás fazendo o que todos
fazem. Se o perdoares, serás único”.
Se é tão bom e manifesta tanta grandeza, por que não
perdoar? Por que não ser misericordioso? Por que não imitar o Deus de todas as
misericórdias? Não somos seguidores daquele que deu sua vida para perdoar o
pecado do mundo? Não morreu Cristo pedindo perdão para os que o crucificavam?
Não queremos ser únicos como Deus o é e como Cristo o foi? Existe imagem
mais enternecedora na Bíblia do que a do pai do filho pródigo que o abraça com
palavras de perdão, convidando-o para uma festa: a festa do retorno e da
alegria do reencontro? Este pai também foi único!
Todos os dias poderiam ser uma festa, se vivêssemos bem. E
todos os dias poderão ser uma festa de beleza e ternura, de alegria e perdão.
Deus, diz São Paulo, amou tanto o mundo, que lhe enviou seu Filho bem amado. E
enviou Jesus quando éramos ainda pecadores. Cristo veio para testemunhar que
Deus perdoava o mundo e a humanidade, que queria salvar todas as pessoas,
apesar dos nossos pecados. Abramos nosso coração para o perdão! Enterremos de
vez os rancores que ainda temos e as ofensas que recebemos! Senão, como
encontrar-nos com o Deus de todos os perdões? Como rezar a Deus, pedindo seu
perdão, se nós não perdoamos? Se alguém o ofendeu, oferece-lhe o seu perdão.
Tome o telefone, ligue para ele e oferece-lhe um perdão generoso. E, assim,
você, com certeza, se sentirá abençoado e feliz.. É isto que todos da Rádio
HAROLDO DE ANDRADE te desejamos. Que você seja feliz e que as bênçãos de Deus o
cubram, hoje e sempre, na vida e na morte. Amém.
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