Levantando a voz 20
Frei Neylor J. Tonin
Os presentes dos Reis Magos
O dia 6 de janeiro sempre foi, tradicionalmente, o DIA DOS
REIS MAGOS. Os presépios, neste dia, se enriqueciam com a presença deles, com
seus presentes, e a de seus camelos. Na imaginação infantil, e de muita gente
adulta, os Reis Magos significam presentes, porque eles presentearam Jesus com
“ouro, incenso e mirra”. Atualmente, a Liturgia da chegada dos Reis Magos é
celebrada no 2o. Domingo do ano. Reflitamos um pouco sobre os presentes dos
Reis Magos e sobre os presentes que nós podemos dar a Deus e aos outros.
Há um princípio que é comum a todas as escolas de
espiritualidade: o princípio do auto-esquecimento. Segundo ele, para ser
espiritual, a pessoa deve esquecer-se, não podendo viver para si, porque o eu é
uma prisão sombria e de ares rarefeitos. Dentro dela não há sol, achar graça de
si mesmo não tem nenhuma graça, quem nela vive, vive perdido e desencontrado,
torna-se pequeno e infecundo, em seu interior não acontece a festa da vida. A
casa das pessoas espirituais, na verdade, ensinam os Mestres, é o mundo, a
grande vida, para a qual devem viver de coração aberto, sempre dispostas à admiração
e permitindo que as surpresas aconteçam.
Lembro-te, QUERIDO OUVINTE, desta verdade que é ponto
fundamental de todos os itinerários espirituais. O místico muçulmano Yunaid,
por exemplo, assim ensinou: “Para ser sufi (homem penitente e de fé
superior), é preciso desfazer-se de toda preocupação. E a pior de todas as
preocupações é a do eu. Enquanto te preocupares contigo mesmo, estás longe de
Deus. O caminho que leva a Ele exige um só passo: sair de si mesmo. Para
renunciares a ti, deves ter as mãos vazias de riquezas e o coração vazio de
todo apego”.
Em outras palavras, sozinho ninguém é rico. A nossa
riqueza são os outros e o Grande Outro. A fecundidade de nossa vida depende dos
outros. Mendigo não é quem tem pouco, mas quem vive abraçado a si mesmo e
fechado sobre seu eu. O caminho que leva à riqueza exige um só passo: sair de
si mesmo.
Foi isso que fizeram os Reis Magos. Saíram de si mesmos.
Partiram de seus países, do conforto de suas casas, guiados e fascinados pelo
brilho de uma estrela. Temos poucos dados sobre esses misteriosos Reis, mas a
Tradição guardou seus nomes: GASPAR, BELCHIOR E BALTAZAR. Teriam vindo de muito
longe, de terras orientais. O primeiro teria sido branco, o segundo negro e o
último amarelo, representantes das três raças então conhecidas. Vieram com
camelos e uma comitiva de servos. Eram sábios. Após muitas andanças e
peripécias, encontraram e ofereceram ao Menino Jesus ouro (porque o recém
nascido era Rei), incenso (porque era Deus) e mirra (porque experimentaria
amargos sofrimentos e seria chamado de “o homem das dores”).
E tu, como os Reis Magos, tens coragem de sair de tua
casa, dando aquele passo fundamental da espiritualidade, que é, lembrar-se do
outros e auto-esquecer-se? Que tens para oferecer a Deus? Dás a Ele o melhor de
tua vida, o ouro de tua vontade, tua saúde e família, teus negócios e talentos,
a beleza de tua idade, teus desejos mais acalentados, teus sonhos mais queridos
e pulsantes? Lembra-te: a um Rei não se pode dar migalhas, a menos que migalhas
seja tudo que se tem. Com um Rei não se pode regatear nem ser parcimonioso,
oferecendo-lhe, com medo, apenas as sobras do fundo do próprio cofre. Se vale
isso em relação a um Rei, muito mais em relação a Deus. Dar ouro a Deus pode
parecer pouco, mas, na verdade, ele merece todo o ouro como demonstração de
entrega, de amor e adoração.
Antigamente, só a Deus se queimava incenso. Daí, a
pergunta decorrente: a quem estás queimando o melhor incenso de tua vida? Aos ídolos
da riqueza, do poder, da fama, da ambição, do teu agitado eu? Estás destinando
teus melhores incensos para ídolos que têm boca, mas não falam, têm ouvidos,
mas não escutam, têm pés de barro que mal se sustentam? Deus, o Deus
verdadeiro, dizem as Escrituras, tem palavras de vida eterna, ouve os clamores
de seu povo e brinca com os dragões do mar. Quem é o teu Deus? Para o Deus
verdadeiro, estás disposto a sair de ti mesmo, a abandonar tudo, acreditando no
brilho misterioso de uma estrela, que só se fará luminosa com a coragem da fé?
O último Rei lhe ofereceu mirra, uma substância amarga. Já
pensaste em oferecer a Deus as mirras de tua vida? Aliás, quais são as tuas
mirras? A idade? Teu casamento? Teu filho que não quer estudar e/ou trabalhar,
que é dependente das drogas? Ou a mirra será a tua posição social? Tua origem
humilde, da qual sentes desdouro, ou teus irmãos que se degladiam por uns
míseros trocados, deixados em herança por teus pais? Mirra é, para ti, o
tratamento que recebes em tua empresa ou, mesmo, em tua Igreja? É mirra, para
ti, teu rosto sem grande formosura ou teu corpo que rejeitas, as traições
inesperadas de um amigo, a venalidade de um advogado ou a imperícia de um
médico que te mal-tratou? Na verdade, todas as vidas têm as suas mirras. Já
ofereceste as tuas a Deus ou vives tristemente revoltado com elas?
É fácil fazer bonito e ser aplaudido. É fácil ser
pródigo e caridoso com os pobres para merecer a consideração dos outros. Ser
vaidoso é uma grande tentação. Difícil é dar o ouro que se tem e entregar a
mirra amarga que mais nos dói. Mas isso só conseguiremos, vivendo esquecidos de
nós mesmos e atentos ao brilho das estrelas.
Lembrem-se, QUERIDOS AMIGOS, precisamos sair de nós
mesmos. Temos que pôr nossos olhos no céu para tentar descobrir a estrela que
nos levará para Deus, um Deus pequeno, talvez, como um menino, que se esconde
numa manjedoura entre bois, ovelhas e jumentinhos. Lá, quem sabe?, encontraremos
também um pobre casal que fala com os Anjos e com o Espírito Santo. Saiamos de
nós mesmos, sejamos ousados e generosos, ofereçamos o que temos de melhor, o
ouro e o incenso de nossas vidas; abramos-nos para a amplidão do céu e para o
mistério da vida, onde Deus continua a armar sua tenda e a passear com os
homens de boa vontade. Uma estrela, então, brilhará para nós e nosso coração
transbordará de luz, de paz e de alegria. E Reis Magos nos visitarão e haverá
muita festa em nosso pequeno mundo.
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