Levantando a voz 21
Frei Neylor J. Tonin
As pompas de satanás
QUERIDOS AMIGOS: Todos nós renunciamos, no dia do nosso
batismo, às “pompas de satanás”. Quando o padre, com gravidade, perguntou aos
presentes: “Renunciais a satanás, às suas pompas e às suas obras?”, todos
responderam, na primeira pessoa do singular, por si e pela pessoa a ser
batizada: “Renuncio!” Foi um dia de muita festa e alegria. O batizando,
normalmente, está todo de branco. O padrinho, com uma vela acesa na mão. A
madrinha, orgulhosamente, é só felicidade. E os pais não escondem uma grande
alegria por lindo pimpolho ou filhinho. Assim foi o dia do teu e do nosso
batismo. Por que vivemos, agora, esquecidos deste juramento, como se apenas
fosse coisa de um passado remoto e sem validade atual?
QUERIDO AMIGO: Permite-me espanar um pouco tuas lembranças
de homem de fé. Certamente, não desconheces que satanás é, desde o Gênesis, o
grande adversário de Deus e da felicidade humana. Deus criou o homem e a mulher
para a felicidade, colocando-os num paraíso. Satanás tudo fez para torná-los
companheiros de sua infelicidade. Eles, então, perderam a intimidade com Deus e
foram expulsos de sua companhia. Mais tarde, muito tempo mais tarde, Jesus veio
para recriar o paraíso perdido e derrotar a Satanás (1Jo 3,9). Expulsava os
demônios, dizem secamente os Evangelhos, para libertar as pessoas da
dependência do diabo, que é chamado de “espírito impuro” (Mc 1,23) e de
“espírito maligno” (Lc 7,21).
Basicamente, o diabo quer, como adversário de Deus,
tornar o homem adorador de tudo que não é Deus. Para tanto, empresta ao mal uma
auréola de esplendor, um fascínio irresistível, um brilho deslumbrante, pompas
e circunstâncias. As pompas de satanás são uma ardilosa e brilhante enganação.
Não é preciso alertar-te de que, a exemplo de Jesus,
deve a pessoa armar-se contra ele e combatê-lo sem tréguas, porque ele, no
dizer de São Pedro, “ronda, qual leão, rugindo e buscando a quem devorar” (1Pd
5,8-9). Por outro lado, não é preciso ter medo do diabo, mas rezar e crer com o
Salmista: “Deus liberta seus ungidos da rede do caçador, cobrindo-os com suas
plumas e abrigando-os debaixo de suas asas” (Sl 91,3-4).
Antes de esclarecer-te em que consistem as pompas de
satanás, importa refletir um pouco sobre a natureza do demônio. Ele é,
essencialmente, um refinadíssimo e envolvente sedutor. Não se apresenta como
impuro e maligno, mas traveste-se de luz e cobre-se de brilho. Tem a
inteligência dos grandes espertalhões. Faz-se de inocente, mas é assassino
desde o começo (Jo 8,44). Na primeira página da Bíblia, abordou Adão e Eva no
paraíso, com dissimulado interesse e doces palavras, palavras convincentes,
despretensiosas, positivas, recorrendo a dúvidas subtis. “É verdade” -
perguntou-lhes - “que Deus vos disse ‘não comais de nenhuma das árvores do
jardim’ (Gn 3,1)”? Quando a mulher esclareceu que podiam comer de todos os
frutos, menos do fruto da árvore que estava no meio do jardim, porque senão morreriam,
ele se fez de mais sabido e categórico, rindo-se da ingenuidade de nossos
primeiros pais: “De modo algum morrereis”, garantiu. Deus sabe: “no dia em que
dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do
bem e do mal” (vv. 4-5). Sedutora mentira, falsa promessa, esperteza diabólica!
Mentiu, mostrando-se chocado, usando de conhecimentos mentirosos para enganar
Adão e Eva, que caíram em suas malhas. Até hoje a humanidade está pagando pelas
conseqüências de tão sedutora mentira, deste diabólico engodo.
Antes de continuar, escuta, ó Homem, o que ensina o
Catecismo da Igreja Católica (n. 395), sobre o demônio: “O poder de satanás não
é infinito. Ele não passa de uma criatura, poderosa por ser puro espírito, mas
sempre criatura: não é capaz de impedir a edificação do Reino de Deus. (...) A
permissão divina para a atividade diabólica é um grande mistério, mas ‘nós
sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam’ (Rm 8,28)”.
Além do mais, ensina a sã doutrina, a pessoa “permanece
sempre livre para consentir ou resistir às moções diabólicas” (Santo Tomás,
Suma Teológica, q. 111, a. 2). Somente Deus pode agir
diretamente sobre o homem. O sacrário da alma humana pertence a Deus, não ao
diabo. O diabo é apenas um atiçador, não o emissor de maus pensamentos. Para
quem aprecia o latim: “Diabolus est incensor, non inmissor malarum cogitationum”.
(Alexius Benigar, Theologia Spiritualis, n. 624). Ele, o diabo, só
coloca lenha na fogueira, mas não é o dono nem da lenha nem da fogueira,
segundo a espiritualidade cristã.
QUERIDOA AMIGOS: Feitos estes esclarecimentos, ressaltemos
que satanás é um habilidíssimo e tremendo sedutor! Reveste-se de luzes e pompas
para aliciar suas vítimas. Não as ataca frontalmente. Sussurra-lhes
cuidadosamente aos ouvidos. Não as arrasta, com violência, para o caminho do
inferno. Engana-as com promessas mirabolantes de riquezas e falsa felicidade.
Os que se deixam tentar por sua cantilena pensam conquistar o céu, quando, na
verdade, acabam se precipitando no abismo do desespero e das insoluções de seus
problemas. Assim é o diabo, “mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44), que tenta
as pessoas com suas pompas. Mas, enfim, que são, o que a Espiritualidade
entende por “pompas de satanás”?
São os brilhos tentadores que fascinam, mas pouco
acrescentam, são os exageros com desmesurado custo, mas inócuas respostas de
satisfação: pervertem, matando a alegria de viver; são desperdícios egoístas,
sem retorno espiritual, que tiram a paz; são ostentações inúteis e
desnecessárias que nada acrescentam à verdadeira felicidade humana. Em todas
estas tentações, há traços de idolatria, que consiste em dar um valor absoluto
a coisas relativas. São bezerros de ouro que têm boca, mas não falam, têm
ouvidos, mas não escutam, têm coração, mas não amam. Tentada por satanás, a
pessoa coloca sua confiança e faz depender sua felicidade de bens importantes, mas
insuficientes, de vaidades mundanas, de prestígio social, de aplausos
passageiros, de brilhos enganosos, de luzes que lhe dão destaque, sem lhe
garantirem o palco (o céu) para sempre.
Uma das grandes e tentadoras pompas de satanás chama-se
dinheiro, que a Espiritualidade chegou a chamar de “esterco de Satanás”. Por
dinheiro, para terem sempre mais dinheiro, as pessoas perdem a paz, podem
infelicitar as relações familiares, corrompem os vários relacionamentos,
agridem a justiça, esquecem-se e afastam-se do caminho do reino de Deus e, pelo
vil metal, acabam perdendo o paraíso final. A que levam as pompas de satanás?
Levam à tríplice concupiscência, a saber, a da carne (o amor desordenado dos
sentidos), a dos olhos (o amor desordenado pelos bens da terra) e a do espírito
(a soberba da vida). Santo Agostinho, em Confissões (X,31-39), se
refere à gula, à sedução dos olhos, aos prazeres dos ouvidos, ao orgulho, à
tentação do louvor, à vanglória e ao amor próprio, todas formas por onde se
infiltram, tentadoramente, as pompas de satanás, sempre com o velho realejo:
“Sereis como deuses”. Mas exemplos são melhores do que explicações. Segundo
noticiaram jornais da época, em que o Presidente Marcos foi apeado do poder nas
Filipinas, sua mulher Imelda possuía uma coleção de 2 mil pares de sapatos. Não
apenas 30, 50 ou 100, o que já seria um acinte inaceitável, um exagero absurdo!
Eram 2 mil! Quantos pares de sapatos precisaria ter a mulher de um Presidente
para não destoar em suas funções representativas? Uma primeira resposta seria: 2
mil, sem dúvida, não! Mulher nenhuma é centopéia. A dignidade e a felicidade
humanas não podem depender de uma coleção desmesurada de sapatos e de roupas.
Convenhamos, o que passa de uma certa quota razoável é exagero, é desperdício,
são...”pompas de satanás”. Outro exemplo de exagero e intemperança diabólica,
se verifica como carência de fundo psicológico. Quem, ambicionando gulosamente
por aplausos e reconhecimento, a todo custo, deixando de aceitar os limites
impostos pela convivência humana, na qual somos simpáticos para um sem número
de pessoas, mas não amados por outras tantas, estaria pagando tributo às
tentadoras pompas de satanás. Tais pessoas se caracterizariam por uma obesa
intemperança afetiva, que revelaria pouca saúde espiritual e acentuada
dependência anti evangélica. Escravas das pompas de satanás seriam também as
pessoas que ultrapassassem as aspirações normais e possíveis de seu coração,
alimentando desejos sedutores e fáceis de amores proibidos. Com uma musculatura
espiritual flácida, tais pessoas abjurariam ao caminho estreito do Evangelho,
optando pelas pompas luzidias, mas enganosas, de satanás. O nono mandamento da
Lei de Deus denuncia esta luxúria afetiva, quando prega a fidelidade e
prescreve não desejar a mulher do próximo. Há homens que nunca se acham
satisfeitos dentro dos limites de seu estado e vida, desejando, se possível fosse,
todas as mulheres do mundo. Querem mais, sempre mais, como se o número fosse
capaz de sustentar a intensidade do amor, que não experimentam.
As pompas de satanás não estão no ouro que exalta, nas
igrejas, a santidade de Deus, mas na ambição desmesurada e sem rebuços de
ministros que exploram a fé pura e a ignorância singela dos fiéis. Longe de
serem semeadores da Palavra de Deus, eles são operadores de contas bancárias
gordas e pomposas. Não se lembram do veredicto de Paulo: “A raiz de todos os
males é a cobiça do dinheiro” (1Tm 6,10).
As pompas de satanás produzem, em certas pessoas, uma não
conformação com a vontade de Deus, que é desafiadora, mas nunca injusta e
insuportável. Comportam-se como crianças mimadas, choramingando penosamente e
lamentando-se, teatralmente, de doenças do corpo e adversidades do coração.
Falta-lhes aprumo religioso e nobreza espiritual. No fundo, são pesadas e dependentes,
imaturas e lamentáveis. Para elas, o Salmo 23 - “O Senhor é meu pastor, nada me
pode faltar” - não passa de palavras, de palavras vazias que são ditas com os
lábios, mas não afundam suas raízes na fé do espírito.
QUERIDOS AMIGOS: Não se deixem seduzir por encantos que
não duram e pela beleza que murcha e fenece! Não pretendam ser mais do que são,
nem tentem assenhorear-te da Árvore do Bem e do Mal, posando de deus!
Lembrem-se, todos somos criaturas finitas, pequenas, dependentes, destinadas à morte.
Não existimos para nós mesmos, mas para Deus que nos criou e para os outros,
nossos irmãos. Não somos senhores da vida, mas obra de Deus, que nos fez e
soprou em nós seu santo espírito. Só Ele é onipotente, eterno e merecedor de
adoração e reverência. Não fomos criados para mandar e ser soberano, mas para
servir e ser irmão. Não estamos no mundo para usar 2 mil pares de sapatos, mas
para empenhar nossos talentos em honra de teu Criador e a bem de nossos
próximo.
QUERIDO AMIGO: Se não te portares como filho de Deus,
morrerás como vítima do demônio, perderás o paraíso como um condenado e satanás
terá vencido e se alegrará com teu triste fim. Não te deixes aliciar por suas
pompas. A felicidade é simples, não é pomposa. Anda no caminho do bem,
contenta-te com poucos pares de sapatos, vive parcamente e reconhece que há um
só Deus, que é senhor da vida e do paraíso prometido aos que renunciam ao falso
céu de seu inimigo. Em ti, em tua vida, Deus quer, com seu projeto e suas
graças, ser bem sucedido. Satanás, com suas pompas e obras, certamente, não!
Lembra-te disso!
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