Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 22

Frei Neylor J. Tonin

A difícil arte da simpatia

QUERIDOS AMIGOS: Lembremo-nos de que ninguém é mais simpático do que quem vive esquecido de si, alimentando uma imensa e intensa simpatia pelos outros. Tu e eu, como todo mundo, temos horror a uma simpatia engomada e diplomática. Ninguém aprecia uma simpatia falsa. A simpatia, para ser boa, tem que ser repassada de sentimentos verdadeiros, deve ter alma, ser luminosa, empática, calorosa, desarmada, desinteressada, afável, sem mandonismos, sofrida, quem sabe?, mas doce e devotada. É a simpatia que se inclina sobre os outros e não a que os mantém à distância, tratando-os apenas com o favor de uma sobranceria enfastiada.

QUERIDO AMIGO: Não sei se sabes que 70% da superfície da terra é coberta de água, sendo salgadas 97,6% de todas as águas. Doces, apenas 2,4%. Para tornar-se doce, a água dos oceanos deve passar pelo processo da evaporação, saindo de seu habitat, o mar, evaporando, mudando de alma e destino, e, só então, caindo transformada em doce sobre a terra. Maravilha da natureza! Graças a este processo, alimenta-se a vida e sobrevivemos todos.

E, tu, que és? Um poço de água salgada ou uma fonte de água doce? Que dizem os que te “bebem”? Já olhaste no fundo dos olhos das pessoas, quando entras em contato com elas? Fazem elas cara de quem comeu e não gostou ou disfarçam penosamente seu mal-estar, porque te vêem fechado em tua pequenina concha, pouco te lixando pelo que sentem e gostariam de comunicar-te? Esta não é uma questão de somenos importância. Pelo contrário, é algo de vital definição para tua saúde afetiva e espiritual.

Conheces, sem dúvida, pessoas amargas e ressentidas, egoístas e desajeitadas para o convívio social. São pessoas azedadas, imbebíveis como as salgadas águas do mar. Negam-se a sair de si, giram loucamente em torno do próprio eu, revestem-se de uma capa de auto-proteção, são refratárias e sempre mal humoradas. Verdadeiros e tristes porcos espinhos, sempre armados e inacessíveis! Sofrem muito, é verdade, mas dão a impressão de preferir a calma aparente de seu inferno sem graça à beleza desafiadora da convivência com os outros. Conheci uma pessoa assim e te passo seu perfil sem rodeios ou exageros. Não dizia “bom dia” nem desejava boa sorte a ninguém. Não sabia agradecer nem pedir desculpas. Passava pelos outros como um deus e, para esconder suas inseguranças, os considerava como míseros répteis. Comia como um bicho, sem conversar, como se estivesse prestando um favor à comida. Nunca ria nem sorria, evidentemente. Para ela, os outros estavam sempre errados e não tinham grande valor. Condenava-os, por isso, sem meias palavras. Desconhecia a indulgência, arrogando-se sempre o veredicto final sobre seus atos e comportamentos. Quando encontrava alguém digno de aplausos e mais sabido do que ela, desacreditava-o prontamente como superficial e tendencioso. Em seus últimos momentos, não aceitou nem a ajuda dos médicos. Preferiu enfrentar, sozinho, seu triste isolamento, olimpicamente.

Desgraçadamente, a tal ponto pode chegar a frustração e a amargura de quem vive sem simpatia. Não é preciso dizer que tal vida é tudo menos vida. Antes de morrer, quem assim vive, já vive morto para a graça de viver e para o lindo sonho de ser feliz.

A simpatia, ó Homem, é uma disposição da alma, uma energia arejada do espírito, uma beleza interior. Simpática, por isso, é a mãe que oferece seu seio na doce missão de alimentar seu neném; simpático é o pai que se inclina sobre seu filhinho. Simpática é a cozinheira que prepara panelas de comida para quem têm fome. Simpático é o gari que varre as ruas para que os transeuntes tenham orgulho da limpeza de sua cidade. Simpático é o médico que se devota aos seus pacientes, o advogado que defende a verdade para seus clientes e o professor que troca seu coração com seus alunos. Todos podemos ser simpáticos: o padre que reza bem uma missa, a noiva que se embeleza para seu bem-amado, a tia que é paciente e acolhe com indulgência seus sobrinhos.

Todas estas pessoas têm uma coisa em comum: vivem para fora de si mesmas, ocupando-se e preocupando-se com os outros. Vivem esquecidas de si mesmas. Se algo fazem por si é apenas para serem melhores para os demais. Parecem não ter um “eu”, quando na verdade chegam à sua mais profunda interioridade quando vivem esquecidas dele.

A palavra simpatia vem do grego e quer dizer sofrer com, assumindo com paixão os vôos e as quedas dos outros. Quem é simpático vibra com a vida de seus semelhantes, com seus anseios e carências. Perde-se para se encontrar, sofre para ser feliz, morre para viver mais dentro dum céu que já experimenta.

Ser simpático é, ao mesmo tempo, fácil e difícil, é o caminho normal da vida e é um itinerário doloroso. Quantas vezes gostaríamos de amar alguém que não se deixa amar! Quantas palavras ficam presas à nossa boca, porque os outros não as querem ouvir! Quantas vezes nosso coração se lamenta porque alguém lhe dá as costas. Tudo isso pode doer muito. Mas, também, quanta alegria experimentamos quando enfrentamos nossos medos, baixamos a guarda e damos um passo corajoso em direção aos outros! E lhes somos, sem interesse, gratuitamente, simplesmente simpáticos! Parece-nos, então, que as nuvens do isolamento se rasgam, o sol voltando a brilhar e o céu se tornando uma bem aventurada possibilidade.

Não sejas, ó Homem, refratário e antipático! Não vivas de mal com a vida! Não abdiques da companhia dos outros! Abandona teus orgulhos pequenos e ridículos! Abre-te para os que vivem a teu lado! A natureza das coisas é de interdependência, de ajuda mútua, de partilha das dores e alegrias, de comunhão e festa. Só amando e sendo amado, só acolhendo e sofrendo juntos, temos a chance de nos salvar e sentir a vida como bênção. Caso contrário, não serás apenas um condenado, mas já estarás criando um inferno do qual o primeiro demônio serás tu mesmo. Ninguém, sem dúvida, deseja ser um demônio para si mesmo e para os outros. Para ti que, para além de todos os pesares, das dificuldades da vida e das incompreensões dos outros, procuras ser simpático, levantamos, com alegria, nossa voz e te saudamos com o nosso mais caloroso aplauso!

 

 
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