Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 23

Frei Neylor J. Tonin

Cara de paisagem

QUERIDOS AMIGOS: Decididamente, ninguém gosta de um rosto enfarado, imutável e distante como uma paisagem, ninguém aprecia uma pessoa inacessível, solene e engomada o tempo todo. Afinal, existimos para viver e conviver com sangue e paixão e não para sermos peças empalhadas de algum estranho museu. Mas tem gente que se esforça em ostentar uma enluvada pureza, uma alienada neutralidade, uma distância de paisagem.

Conhecemos todos pessoas assim, que se portam com uma calculada sobranceirice, como se o que é próprio ao comum dos mortais não lhes dissesse respeito. Não vibram, não se emocionam, não mostram preferências, resguardam ciosamente seus sentimentos, bloqueiam em si e esfriam nos outros qualquer tipo de reação e mantém, rigidamente sob controle, seus mais legítimos impulsos e afetos.

Causam pena. Olhando para elas, até desejaríamos abordá-las, mas nos perguntamos como e se deveríamos? Como chegar ao seu íntimo, como romper as máscaras rugosas de suas bem estudadas proteções? Parecem feitas de vidro, brilhante mas escorregadio, não riem, não choram, não abraçam. Mostram-se até educadas, sem se permitirem, no entanto, ser amigas ou cúmplices de ninguém e de nada.

Costuma-se dizer que tais pessoas têm cara de paisagem, impassível e sempre igual, armada e diplomática, intocável e desencantada. Não vai nisto nenhuma zangada condenação, mas apenas uma lamentável constatação. Quando jovens, elas não se concederam ou não lhes foi concedida a chance de extravasamentos afetivos, de amizades concretas e arriscadas, de um namoro sério e pra valer; já agora, quando velhas, vivem blindadas por uma superioridade olímpica, inatingível, maravilhosa, quem sabe?, mas pouco graciosa.

Já te perguntaste sobre o que há por detrás destas caras de paisagem? Elas tiveram, possivelmente, uma educação esmerada, mas asséptica, que não lhes possibilitou a personalização de desejadas escolhas, mesmo inocentes, nas quais pudessem correr os riscos normais de viver. Foram educadas para um padrão de vida em que o comportamento de classe era mais importante do que a liberdade pessoal de acertar ou errar.

Nunca experimentaram, por isso, a alegria de gritar, de discordar, de optar e de se afirmar dizendo não, de rir com vontade ou de sujar a roupa e de pregar uma inocente peça aos coleguinhas de escola ou de rua. Foi-lhes impedida a normalidade dos contatos e ensinaram-lhes a se preservarem de sentimentos pouco nobres, decididamente plebeus. Em sua olímpica formação, foram instadas a olhar o mundo com uma soberana comiseração, um disfarçado desdém e uma fingida segurança.

Na convivência social, fingem uma segurança que estão longe de possuir. Tudo nelas é encenação, é aparência, é malabarismo. Fingem ser o que não são, são atores de um teatro sem final feliz. Olham-se no espelho sem sentir alegria, vivem sem curtir a graça de viver.

Em suas vidas, tudo é, infelizmente, tão certo que não são capazes de algo errado, de um pecado, por exemplo, bem feito, isto é, personalizado, próprio, só delas, livre. Uma fingida segurança as faz admiráveis e distantes, muito para serem consideradas e pouco para serem queridas. Por fora são certinhas, perfeitas, irretocáveis. No fundo, escondem um animal acorrentado, amedrontado, infeliz.

QUERIDOS AMIGOS: Não é preciso dizer que tais pessoas são uma tragédia. Para si e para os outros. Talvez sejam convivas ideais e brilhantes em salões nobres de festa, mas não para a convivência diária, para um casamento, para relações mais exigentes, onde errar e acertar são ocorrências quotidianas, penosas e/ou desejáveis. Teriam que mudar. Uma revolução precisaria acontecer em suas vidas.

Porque, nas relações com os outros, não basta ser apenas sério, é preciso também sentir-se e aceitar-se frágil, dependente e mendigo, deixando-se invadir, ajudar, questionar, rasgar-se por dentro e por fora. Ser, em outras palavras, humano, muito humano, gente dos pés à cabeça. O Olimpo, enfim, é para os deuses. Para nós, gente que somos, nosso céu e nosso inferno são os outros.

A aventura de viver é o nosso maior risco. Mas é também nossa possível glória. Educar-se para bem viver é o nosso maior desafio. Nisto, podemos acertar ou errar. Só não podemos nos eximir, por medo ou arrogância, por excessiva auto-proteção ou irresponsável despudor, de enfrentar o ideal de ser gente e de ser gente em plenitude.

Aliás, Deus não nos cobrará êxitos ou vitórias, mas esforços e caráter. Como Jesus, podemos, num aparente fracasso, terminar crucificados, mas afirmando, num ato de fé, que tudo está bem, que, em nossa vida, tudo está consumado, porque ela repousa nas mãos de Deus.

Pertencemos, dependemos e somos uns dos outros. Nossa grande graça tem um nome e um endereço: o próximo. Com ele, construímos o céu e o inferno. Longe deles, nossa paisagem não tem a menor graça. Sem eles, a vida não será um luxo, mas apenas uma empobrecida e lamentável tragédia.

Lembre, QUERIDO AMIGO, de que a coisa mais bonita que cada um tem é a paisagem de sua vida. Deixar que os outros a admirem e dela se encantem é uma aventura perigosa, mas com reais possibilidades de felicidade. Vale a pena tentar e vale a pena correr este risco. O que não se pode é ter, apenas, uma impassível e desencantada cara de paisagem.

 

 
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