Levantando a voz 24
Frei Neylor J. Tonin
A utopia da vida e da morte
QUERIDOS AMIGOS: Atentemos para o que escreveu Santo
Inácio de Antioquia (séc. II), em sua Carta aos cristãos de Magnésia: “Tudo
terá um fim. Mas dois termos nos são propostos: a morte e a vida” (5.1).
A vida e a morte! De tua vida, conheces a data e o
local de nascimento. De tua morte, faltam-te ainda o onde e o quando, para
fechar tua biografia. Nascer, viver e morrer são marcos de uma história, da
qual muitos, infelizmente, desconhecem a razão e a utopia.
Santo Inácio, cujo nome significa “nascido do fogo” (igne natus),
tinha, como se costuma dizer, arroubos de profeta e parresia (coragem) de
mártir. A Tradição o identificou como aquele menino que Jesus teria tomado nos
braços, quando disse: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino
dos céus” (Lc 18,16). Tanto foi seu amor por Cristo - “É a Ele que procuro”, “o
meu amor crucificado”, “a boca sem mentiras do Pai” -, que as feras, que
destroçaram seu corpo, pouparam-lhe o coração, no qual se encontrou escrito,
com veias, o nome JESUS.
Verdade ou piedosa lenda, assim foi a vida e o fim deste
terceiro bispo de Antioquia, discípulo de São João Evangelista, indicado para o
cargo por Pedro e Paulo. Foi numa de suas Cartas que, pela primeira vez, a
denominação Católica (universal) foi aplicada à Igreja de Cristo. Foi um grande
pastor em vida e um impávido mártir na hora da morte.
Suas últimas palavras, depois de condenado à arena pelo
imperador Trajano, foram: “Eu te agradeço, ó Senhor, por me concederes esta
possibilidade de provar perfeitamente o meu amor por ti, e de também ser, por
teu amor, agrilhoado como teu apóstolo Paulo”. À luz de sua vida e morte,
talvez possamos tentar expressar qual seja a utopia da vida e da morte:
A utopia da vida é a de alcançar uma razão suprema,
absoluta e definitiva, que unifique nossos caminhos e engrandeça nossas
atitudes de forma intensa e total, apaixonada e incondicional, vivendo de
coração aberto, sem medos invencíveis. A utopia da morte é a de confirmar e
sacramentar tal utopia, aceitando-a, com serenidade, sem desespero, como coroa
incorruptível e luminosa da fé que animou e norteou a vida.
Quem é religioso entende que esta utopia se ancora em
Deus, senhor da vida e da morte. “Nele, é que vivemos, nos movemos e existimos”(At
17,28). Ao mesmo tempo, porque vivemos em comunidade, não deixamos minimamente
de ser dos outros. Adoradores do Criador, somos igualmente irmãos uns dos
outros. O céu e a terra, a vida e a morte têm a mesma marca: o desejo
insopitável da plenitude da vida, aqui, por Ele e com os outros, enquanto
vivemos, e lá, com Ele e com todos, depois que morrermos.
Marchamos todos inexoravelmente para o desfecho da vida.
Como já te disse acima, conhecemos a data de nosso nascimento. Ninguém conhece
a data da própria morte. Celebramos muito a primeira. Tememos todos muito a
segunda.
Com instintiva sabedoria, no entanto, nos acomodamos, na
prática, ao drama de viver. Vamos perdendo as forças e as ilusões, vamos, pouco
a pouco, embora relutantemente, aceitando a idéia de que estamos, no mundo,
apenas de passagem.
Aliás, se pudéssemos, viveríamos sempre de frente para
a vida e de costas para a morte. No entanto, é a vida que vai nos dando as
costas e é a morte que vai se aproximando de nós, e tomando-nos, aos poucos,
pela mão.
QUERIDOS AMIGOS: A questão madura e inevitável que, então,
temos que enfrentar e à qual não podemos deixar de responder, é sobre como
estamos vivendo e sobre como estamos morrendo. Que utopia vamos alimentando?
Que chama sagrada vai nos iluminando? Que feras estamos dispostos a enfrentar,
sem desespero? Que imperadores merecerão, finalmente, o testemunho de nossa fé?
E em qual coliseu entraremos, no último dia, cantando? Lembremo-nos que ninguém
quer deixar de viver e que são poucos os que se preparam para morrer. Mas vida
e morte são realidades de um mesmo projeto, com idêntica utopia.
A vida é, na verdade, nossa maior riqueza e seu mistério,
nosso mais apaixonante desafio. Teologicamente, dizemos que ela é sopro de Deus
de inestimável valor, embora colocado em vasos frágeis. Amar a vida, a própria
vida, e cuidar de todas as vidas, é honrar seu Criador. Menosprezá-la seria
negar sua origem e transviar seu destino.
Por outro lado, a vida é um drama que começa com o aplaudido
choro do nosso nascimento. Nas inconseqüências dos primeiros anos, vamos
aprendendo que não estamos sozinhos, que nossos pais mandam em nós e que o
melhor é obedecer-lhes para evitar castigos, desafeições e insuportáveis
desajustes, que até Jesus experimentou, como evidencia o episódio de seu
encontro no Templo, aos 12 anos.
Assim continuará a vida, entre a obediência aos que mandam
e o desejo de mandar mais do que os outros, até que, finalmente, já na idade
das sombras, voltamos a descobrir que ainda temos que obedecer, nem que seja a
médicos, enfermeiros e gente mais cheia de vida, que poderão passar a cuidar de
nós como se fôssemos crianças recém nascidas.
Mas, um dia, teremos que obedecer já não mais a pessoas,
mas a uma realidade que sempre tentamos evitar: à morte. Dela partirá a última
ordem: “Chega! É hora de partir!” Entregaremos, então, aos que ficam a chave de
nossa casa, num último ato de obediência. Eles fecharão nossos olhos e
partiremos talvez, com certa relutância, para uma terra desconhecida.
Assim é a vida. Vivemos e morreremos obedecendo, como
Jesus, que também viveu e morreu obedecendo. Nestas inevitáveis obediências,
importante seria não viver ao léu e não morrer sem destino.
Vive, por isso, sonhando com a utopia de bem viver!
Honra a vida e crê em teu Criador! Ele ama o que criou e nunca te desprezará.
Ele quer que todos tenham vida e que tenhas vida em abundância. Por tua vida,
Ele apostou a vida de seu Filho Unigênito. Não estás sozinho. Quando chegares
aos anos derradeiros, não desanimes! Ele quer que sejas livre. Ele te fará
livre, alforriado. Apenas te cobra obediência à utopia da vida e da morte. Não
uma obediência cega, de quem tem medo de castigos e desafeições, mas a
obediência de um homem livre, que reconhece sua glória e onipotência e seu
infinito e incondicional amor por suas criaturas.
Viver, QUERIDOS AMIGOS, pode ser, sim, como disseram os
gregos, uma tragédia. Morrer pode ser a maior frustração, a pior das tragédias.
Mas Deus é o avalista da tragédia da vida e da morte, porque Ele é graça e
misericórdia, salvação e glória, abraço de pai e vida sem fim. Para vocês que
crêem em Deus e para vocês que amam apaixonadamente a vida e os seus
semelhantes, levantamos, hoje, nossa voz para saúda-los e para fazer chegar até
vocês o nosso mais caloroso e reconhecido aplauso. |