Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 25

Frei Neylor J. Tonin

Vivenciar os sentimentos

QUERIDOS AMIGOS: Vamos lembrar alguns mestres da espiritualidade que expressaram  de forma correta um justo posicionamento frente aos nossos sentimentos.

DOM HÉLDER CÂMARA, arcebispo brasileiro, falecido em 1999: “Dentre os avisos que eu mais gostaria que transmitisses aos homens; vou mais longe – dentre os avisos que eu mais gostaria que Tu, meu Deus, gravasses no nosso espírito, não vacilaria em incluir: ‘Com o coração humano não se brinca’”.

DALAI LAMA, mestre espiritual do budismo oriental: “A meu ver, criamos uma sociedade em que as pessoas acham cada vez mais difícil demonstrar um mínimo de afeto aos outros. Em vez da noção de comunidade e da sensação de fazer parte de um grupo, encontramos um alto grau de solidão e perda de laços afetivos”.

DALAI LAMA: “Que eu me torne em todos os momentos, agora e sempre, um protetor para os desprotegidos, um guia para os que perderam o rumo, um navio para os que têm oceanos a cruzar, uma ponte para os que têm rios a atravessar, um santuário para os que estão em perigo, uma lâmpada para os que não têm luz, um refúgio para os que não têm abrigo e um servidor para todos os necessitados”.

SÃO PAULO, líder da Igreja Primitiva: “Tende em vós os mesmos sentimentos que Cristo Jesus teve” (Fl 2,5).

Há quem viva displicentemente à distância da própria história ou da macro história em geral. Quem assim procede, dá de ombros para fatos e novidades que pensa não lhe dizerem diretamente respeito. Tragédias humanas, novas descobertas científicas e progressos tecnológicos, grandes ou pequenos gestos heróicos passam junto à janela de suas observações como nuvens que se desvanecem no firmamento do céu.

Esta displicência pode ser uma estratégia inteligente, mas é alienante em si e empobrecedora em nível pessoal. Pode até ser uma atitude recomendável, pois há quem se nega a dar importância e atenção a coisas que não merecem seu tempo. Mas seria funesto desmerecer, sem mais, o que é emocionalmente intenso, embora não sendo pessoalmente necessário ou necessariamente profundo.

Se há, por um lado, os que se comportam assim displicentemente ao que acontece aos longes, há também aqueles que, no reverso exagerado da mesma medalha, tomam as dores de tudo e de todos, fazendo-se, como se diz, os cristos da história. Vivem antenados o tempo todo, sofrendo por terremotos e guerras, lamentando-se por desgraças e corrupções noticiadas, que tiveram lugar debaixo de suas janelas ou nos horizontes mais distantes do planeta. Sofrem por isso intensamente e falam! Comentam os fatos sem piedade, amargamente. Ao ouvi-los, tem-se a impressão de que o apocalipse é coisa de horas, já chegou na esquina de nossa casa, está às portas, vai acontecer a qualquer momento.

Num e noutro caso, o que está em xeque é a emocionalidade humana e há que perguntar-se o que fazer com o mundo das emoções e como portar-se diante delas. Se já não tivéssemos o contributo da comprovada sabedoria dos povos, a Psicologia deveria ser ouvida, nestes casos, por suas pertinentes considerações sobre o ideal de uma sadia e possível maturidade.

 – Antes de prosseguir, escutemos uma música, Que ela nos ajude a desarmar nosso espírito, favorecendo um positivo encontro com nossos mais legítimos sentimentos.

QUERIDOS AMIGOS: O que a Psicologia sobre os sentimentos? Afirma que os sentimentos são parte integrante e importante do nosso modo-de-ser, devendo ser tratados com respeito e cuidado, pois são indispensáveis para o entendimento de nós mesmos e dos comportamentos dos outros. Os sentimentos são como pontes, pelas quais passamos para chegar aos outros. São uma espécie de antenas que nos trazem outras músicas, diferentes das que ouvimos quando sintonizamos as que nos são familiares, as nossas próprias.

Os sentimentos e seus frutos, as emoções, devem ser aceitos, entendidos, trabalhados e abençoados. Num passado não muito distante, foram ignorados, escondidos, desaconselhados e até condenados. Não se podia ser mole, dizia-se, deixando-se tomar por eles. Emoções eram vistas como manifestações de pessoas pouco aprumadas espiritualmente e imaturas psicologicamente.

A maturidade é um ideal humano de alta e grandíssima excelência. De todas as riquezas, é a mais desejável. Se devêssemos escolher apenas uma riqueza, deveríamos optar pela maturidade psicológica e espiritual, pois só ela é condição para uma felicidade possível, que não é garantida por nada que é material neste mundo. Voltemos aos sentimentos e aos dois quadros delineados anteriormente. Os dois tipos de pessoas, os displicentes e os trágicos de plantão, pecam ou por anemia do espírito, os primeiros, ou por excesso de sentimentos e emoções, os segundos. Não são equilibrados, disciplinados, maduros e confiáveis. Se não fôssemos incorrer numa impropriedade, diríamos que há, em seus comportamentos, algo de físico: os primeiros se assemelham a um esqueleto, só têm ossos e durezas, faltando-lhes carne para dar contornos redondos à sua imagem; os segundos, por seu lado, se excedem na gordura, são balofos e pesados. Sobram-lhes carnes e faltam-lhes ossos. Em ambos, os sentimentos não têm saúde, nem beleza, nem graça.

A Psicologia ensina que os sentimentos não podem ser desconhecidos simplesmente, negados cegamente ou sufocados tiranamente. Mas também não podem ser exacerbados indevidamente, inflacionados luxuriosamente e acolhidos indiscriminadamente. Em todos estes casos, não seriam positivos, mas elementos de perturbação, acabando por desestabilizar seus donos.

O ideal da maturidade tem muito a ver com o modo como tratamos nossos sentimentos e vivemos as emoções que sentimos. É importante vivenciar equilibradamente nossos sentimentos. Chorar sem pejo quando temos que chorar. Confessar amor com alegria quando não podemos nos calar. Levantar a voz sem medo quando nos sentimos desmerecidos em nossos direitos cidadãos. E aplaudir com generosidade qualquer gesto de pessoas que façam por merecer o encantamento de nossa admiração.

Que bela coisa são os sentimentos! Que felicidade poder emocionar-se! Temos cabeça que pensa e coração que sente. Não podemos eliminar um em favor do outro. Os dois juntos nos fazem e nos definem. E ambos são comandados, disciplinados e desejados pelo espírito. Quando os três - corpo, espírito e coração - convivem sem guerra, harmoniosamente, dizemos que a pessoa é madura e toda pessoa madura é uma bênção, merecedora de admiração e aplausos. Se você for assim, rico de sentimentos e corajoso em manifestá-los, receba nossos mais calorosos aplausos.

 

 

 
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