Levantando a voz 26
Frei Neylor J. Tonin
Aprender a arte de perder
QUERIDOS AMIGOS: Vocês, sem dúvida, não gostam de perder.
Aliás, quem gosta? Na verdade, ninguém. Quando perdemos, um certo, uma quase
infelicidade, pesar parece toldar a alegria de nosso coração. E isto pode
acontecer nas coisas mais simples de nossa vida, como uma partida de futebol ou
de baralho, um emprego que acabamos perdendo, sem falar na saúde. Quando
perdemos a saúde, parece que o mundo está chegando ao fim.
Você já perdeu uma amizade na qual você tanto botava fé
e na qual você acreditava que nunca chegaria a um fim? Que tristeza perder um
amigo? Maior tristeza, ainda, é perder um amor. Você, que é casado ou casada,
sabe de que estou falando. O dia do casamento foi tão bonito! Quanta festa,
quantas luzes, música e perfume no ar. Vocês se juraram fidelidade um ao outro
por todos os dias de suas vidas. Juraram solenemente. A assembléia aplaudiu, o
padre ficou feliz, mais felizes ficaram seus pais, padrinhos e vocês mesmos. De
repente, tudo terminou. Hoje, você, em termos de casamento é um perdedor, uma
perdedora.
Pior, ainda, é perder injustamente, quando se colocou tudo
de si para que a perda não acontecesse. No Convento, onde vivo e atendo as
pessoas, encontro freqüentemente pessoas que vêm chorar as perdas que estão
sofrendo. Os motivos são, às vezes, tão fúteis, mas nem por isso menos
dolorosos. Continuando a falar sobre o casamento, devemos dizer que as pessoas
nem sempre estão preparadas para ele. E por despreparo e imaturidade afetiva,
as perdas acabam acontecendo irreparavelmente, sem retorno possível.
Vamos ser mais prosaicos. Perder um dente, por exemplo,
pode, às vezes, adquirir contornos de tragédia. Perder os cabelos: quanta
tristeza isto causa! E quando começam a aparecer os cabelos brancos, os
primeiros cabelos brancos, quando se perde o negror brilhante dos cabelos
primitivos! Há pessoas que se desesperam. Sentem-se perdedoras, e infelizes,
por isso. Nem falemos da perda de uma pessoa amiga, de um parente para a
fatalidade da morte. Aí, a perda, por ser irreparável, acaba com nossa alegria
de viver.
Todo mundo sabe que não é bom perder, e muito menos só
perder, mas não se pode pretender ganhar sempre. Um eterno derrotado corre,
quase que inevitavelmente, o risco de um azedume sem tamanho, enquanto que a
volúpia da vitória a qualquer custo pode ser expressão de uma postura pouco
sadia e normal. Querer ganhar sempre, aliás, é marca registrada de
temperamentos duros e intolerantes, próprios de tiranos, que não conseguem
viver sem aplausos e sem séquito. É-lhes por isso imperioso vencer paradas e
adversários. Essas vitórias, no entanto, diga-se de passagem, não lhes
proporcionam nem paz nem alegria, pois vivem derrotados diante si mesmos.
Mais importante do que derrotas ou vitórias, sempre
relativas, sobre coisas e causas passageiras, é o aprumo espiritual e a
dignidade pessoal que devem ostentar vencedores e derrotados. A grande e única
derrota a ser evitada é a de nível interior, a derrota do caráter. Podemos ser
derrotados, mas não podemos fazer-nos uma derrota, o que teria conseqüências
trágicas. Daí, a importância de não perder a linha e o passo, de não se deixar
aviltar, mas de agir com grandeza em quaisquer circunstâncias, nunca contra os
outros, porém sempre em favor de causas nobres e de grandes ideais: só isto é
que nos ensinaria a arte de perdermos sem nos autoderrotar.
MEUS AMIGOS: antes de prosseguirmos na reflexão sobre a
difícil arte de perder, deixemos que os Mestres da Espiritualidade nos iluminem
um pouco.
Eis um conselho dado por São Francisco de Sales, que
viveu entre 1567 e 1662: “O dia passado não deve julgar o dia presente; é só o
último dia que julga todos os demais. Nunca podemos dizer que um homem é mau,
sem perigo de mentir; o máximo que podemos dizer, se for necessário, é que
cometeu tal ou tal ação má; mas não se pode tirar alguma conseqüência de ontem
para hoje nem de hoje para ontem e muito menos para amanhã”.
“Não comece o dia de hoje com os cacos de ontem”, afirmou
o mestre espiritual belga, (Phil Bosmans, nascido em 1932 e autor do
best-seller internacional “Não Esqueçam a Alegria”.
A nossa querida poetisa Cecília Meireles anotou com
sabedoria: “Lua e sol, astros e estrelas giram de tal maneira bem, que a alma
desanima de se queixar. Amém.”
Vale a pena lembrar-se da observação de Cristo: “Jesus,
tomando à parte os Doze, lhes disse: ‘Eis que subimos à Jerusalém, e vai se
cumprir tudo o que foi escrito pelos Profetas sobre o Filho do Homem. Ele será
entregue aos gentios, será escarnecido, insultado e cuspido, e, depois de o
açoitarem, eles o matarão; mas ao terceiro dia ressuscitará” (Lc 18,31-33).
Se fosse para dar um exemplo, lembraríamos a pessoa de
Jesus, que foi destruído, viu se frustrarem seus sonhos e as sementes do Reino
que pregava, mas não perdeu sua fé no poder de Deus. Morreu reconciliado com
seus algozes e com Deus, embora vencido. A ele poder-se-ia dedicar o pensamento
da grande poeta brasileira Cecília Meirelles: “Aprendi com a primavera a me
deixar cortar para voltar sempre inteira”.
Tanto quanto vitoriosos em coisas e causas, somos todos,
em menor ou maior escala, grandes derrotados. Perder não é nenhum desdouro. É
condição de vida, é pão nosso de cada dia. Para não vivermos como perdedores,
temos que aprender a arte de perder sem nos lamentar perdidamente e lutarmos
para fazer de nossa vida um exercício de crescimento e maturação.
E um último conselho, um bom conselho: Abrace suas
derrotas, abraçando-se. Não deixe de sorrir suavemente, quando a arte de viver
lhe pede a sabedoria de saber perder.
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