Levantando a voz 27
Frei Neylor J. Tonin
Dar tempo ao tempo
QUERIDOS AMIGOS: Confesso-lhes, sem rebuços, que sou fã do
livro NÃO APRESSE O RIO – ELE CORRE SOZINHO. Gosto do título, que é um achado,
e gosto muito de seu conteúdo. É da escritora norte-americana Barry Stevens
que, hoje, se viva está, estaria com mais de 100 anos. Ela nasceu em 1902. Eis
como ela se refere ao seu livro:
“O título é uma citação Zen. Para mim, significa
deixar-se ir junto com a vida, sem tentar fazer com que algo aconteça, mas
simplesmente ir, como o rio; e, sabe, o rio, quando chega nas pedras, simplesmente
se desvia, dá a volta; quando chega a um lugar plano, ele se espalha e fica
tranqüilo, simplesmente vai se movendo junto com a situação em torno, qualquer
que seja ela. Ficou claro para você o que isso significa para mim? E eu acho
interessante que há muitas viagens por rio aqui nas redondezas – não sei se
você sabe, há o Rio Colorado e o Rio Verde e o Rio Dolores, e há muita gente
que ganha a vida e passa a maior parte dela no rio, e para essa gente o título
tem muito significado, porque precisam acompanhar o rio, ou, então, se metem em
apuros. Se o rio os leva desta maneira em águas agitadas, não adianta tentar
escapar daquele maneira: eles precisam ir junto, e por isso o título significa
tanto.”
E você, QUERIDO AMIGO, como está vivendo em relação ao seu
rio? Você o está apressando ou deixando-se levar por ele? Você briga com suas
correntezas e remansos, ou os admira e se irmana com eles? É preciso meditar e
pensar no tempo de nossa vida e no rio em que estamos mergulhados.
Há grande sabedoria neste singelo ensinamento: “O que o
tempo traz, o tempo leva”. Nada é para sempre, nem a dor, nem o fracasso, nem
as perdas ou vitórias. Popularmente se diz: “Não há bem que sempre dure nem mal
que nunca se acabe”.
O que todo mundo aceita em teoria e sabe, nem sempre o
vive na prática. Em nossas experiências de vida, parece haver, às vezes, uma
conspiração diabólica da qual somos, ao mesmo tempo, agentes e vítimas. Não só
dentro das igrejas, mas um pouco por toda a parte, há pessoas que gostam de
sofrer e alongam o sofrimento para além dos limites inevitáveis. Em Psicologia,
diz-se que tais pessoas são masoquistas. Encontram prazer em cozinhar, em
banho-maria, ou dramaticamente, o próprio sofrimento.
Curtidores de tragédias, seus rostos apresentam-se sempre
sombrios, de suas bocas não saem senão lamúrias e infelicidades. São como uma
praia em que não há crianças que brincam nem banhistas que se divertem.
Comprazem-se em se expor com tristeza para merecer a consideração dos outros.
Vivem seus males sem pudor e os usam e deles abusam como forma egocêntrica de
aparecer. São amargas e pesadas.
Em verdade, não há como evitar o sofrimento. Ele é quota
inevitável de qualquer viver. Tais pessoas, no entanto, deveriam saber que dá
para explorar seus fermentos de excelência. É importante não colocar o
sofrimento como uma divindade no altar da consciência, mas, sim,
marginalizá-lo. Não dá para esquecê-lo, dá, porém, para relativizá-lo. E,
principalmente, dá para ocupar o tempo com coisas mais sadias e positivas do
que com possíveis derrotas.
Não deveria o mal servir para nos deprimir exageradamente
nem o bem para nos enaltecer. Somos uma vida em comunhão e não um palco para o
desfile de um eu doentio. Qualquer destaque que damos às nossas vicissitudes
fecha-nos e torna-nos infecundos. Diante das vitórias, não podemos
envaidecer-nos e diante das derrotas, sentir-nos diminuídos. É sempre bom
lembrar que somos uma soma de fatos e traços que formam o que chamamos de vida
e a vida é para ser trabalhada e partilhada e não exaltada contra os outros e
chorada em benefício próprio.
Aliás, olhando para nosso passado, concluímos pela pouca
relevância de acontecimentos que nos pareceram tão significativos. O tempo foi
dando aos fatos seu verdadeiro tamanho e caráter.
As coisas só nos afetam quando lhes conferimos,
emocionalmente, importância imprópria e exagerada.
No fundo, pode a pessoa, momentaneamente, sentir a síndrome
do ninho vazio e, quando este ninho se torna frio, a pessoa sentir-se-á
certamente abandonada, solitária e infeliz. Nestas horas é que vale e ajuda o
provérbio popular: dar tempo ao tempo. O tempo é nosso melhor companheiro de
vida. Com ele, nosso ninho poderá voltar a ter nova vida, se não o inundarmos
com lágrimas desnecessárias e masoquismos doentios e insustentáveis.
Possivelmente reencontraremos, então, o calor desejado, experimentando maior
confiança em nós mesmos, coisa momentaneamente abalada ou perdida.
Antes de terminar nossa reflexão sobre a necessidade de
dar tempo ao tempo, fugindo da agitação e do estresse correspondente, ouçamos a
palavra de alguns Mestras Espirituais:
Afirmou o grande escritor belga, Phil Bosmans, nascido em
1932 e falecido em fins de 2004: “Arranje tempo para ser feliz! Tempo não é
pista de corrida entre berço e sepulcro, mas um lugar para estacionar ao sol”.
Não se esqueça do título do livro de Barry Stevens,
escritora norte-americana: “Não apresse o rio. Ele corre sozinho”.
E veja o que disse o grande poeta brasileiro,
mato-grossense, Manoel Barros: “Ocupo muito de mim com o meu desconhecer”.
E terminamos com uma profissão de fé do grande Apóstolo
São Paulo, em 1Cor 6,20: “Fostes comprados e pagos. Glorificai, pois, a Deus em
vosso corpo” |