Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Levantando a voz 28

Frei Neylor J. Tonin

Fatos marcantes em 2005

QUERIDOS AMIGOS: Sem maiores pretensões, vamos recordar alguns fatos marcantes de 2005. Alguns deles merecem aplausos; alguns outros, nem tanto, gostaríamos, aliás, que nem tivessem acontecido. Sem nos atermos à cronologia dos mesmos, eis o que todos vivenciamos, ao menos, em parte, em 2005:

O mundo, em geral, e a Igreja Católica, em particular, se sentiram abalados pela longa agonia e morte de João Paulo II, após 25 anos de reinado, o 3o. mais longo da história do papado. Carol Woytila, além de um grande papa, foi também um grande ator, tendo sido, por isso, chamado de “o Papa midiático”, por usar bem os Meios de Comunicação Social. Polonês, foi eleito em 1978, quando quase ninguém o conhecia, tendo-se destacado pouco no Concílio Vaticano II. Pouco a pouco, no entanto, foi abraçando o mundo com suas viagens em favor da paz, levando, em suas peregrinações, a mensagem do Evangelho. Morreu com uma frustração: não pode ir à China e à Rússia, impedido pelas autoridades políticas da China e pelas autoridades religiosas da Rússia Ortodoxa. Bilhões de pessoas rezaram e acompanharam sua agonia. Em seu lugar, foi eleito, no dia 19 de abril, Joseph Ratzinger, Cardeal alemão, chamado de “cão de guarda” do antigo Santo Ofício, o mesmo que conduziu o processo contra o franciscano Leonardo Boff. Tomou posse prometendo manter o diálogo com as várias Religiões e opor-se tenazmente ao “relativismo moral”. Escolheu o nome de Bento XVI, em homenagem ao patrono da Civilização Européia, São Bento de Núrcia, o fundador dos monges beneditinos, que viveu no século V, tendo morrido em 480.

2005 foi o ano das grandes tragédias da natureza. Começou com o Tsunami, no Extremo Oriente, que deixou 230mil mortos, segundo estatísticas gerais dos governos dos países atingidos. Outro drama da natureza aconteceu nos Estados Unidos e Caribe com uma seqüência de furacões, entre os quais se destacaram o Katrina que destruiu a cidade de Nova Orleães, deixando desabrigadas 75% da população e destruindo 140 mil casas. Na Cachemira, entre a Índia e o Paquistão, um terremoto deixou sem casa a mais de 3 milhões de pessoas.

Um assunto que tomou conta dos jornais e meios de comunicação, no mundo inteiro, foi a decisão do esposo de Terri Schiavo, Michael, de desligar os aparelhos que a mantinham viva, em estado vegetativo, há 15 anos, para apressar-lhe a morte, o que realmente aconteceu 13 dias depois. As posições se radicalizaram, sendo muitos setores a favor e contra tal decisão. As Igrejas subiram o tom de sua voz em favor da vida e contra a eutanásia. O caso foi parar na Justiça americana que aprovou a decisão do marido, contra a opinião dos pais da jovem que se opunham ao desligamento dos aparelhos que a mantinham, apenas vegetativamente, em vida.

O casamento do fenômeno Ronaldo com a modelo Daniela Cicarelli deu o que falar. A cerimônia foi realizada no Castelo de Chantilly, na França, com pompa e circunstância. Os mais críticos falaram em gastos perdulários, acusando os noivos de injustificado deslumbramento. Lembraram as origens modestas do noivo e a vida modesta da noiva. No casamento aconteceu um pouco de tudo, tendo-se destacado a presença afrontosa de uma ex do jogador, a qual teria sido expulsa, aos gritos, pela noiva enciumada. Por semanas, o casamento foi assunto nas rodas sociais do mundo todo, sempre ávidas de fofocas maledicentes e pouco amigáveis. O casamento terminou 86 dias depois, cada um seguindo seu caminhos com novos pretendentes.

No Brasil, o fato político do ano atendeu pelo nome de “Mensalão”. Deputados federais recebiam na boca do Caixa do banco Rural quantias que variavam de R$ 20 mil a 4 milhões. O termo foi criado por um de seus principais beneficiários, o Deputado Roberto Jefferson, que teria negociado com a Cúpula do PT uma ajuda de R$ 20 milhões para o seu partido, o PTB. Como recebeu bem menos do que fôra combinado, levantou a voz, como Catão da moralidade tropical e jogou lama no ventilador. A partir das denúncias do Deputado, o Brasil, atônito, tomou conhecimento da podridão que se alastrava nos meios políticos e palacianos de Brasília. O grande idealizador do Mensalão, o “chefe da quadrilha”, no dizer do Deputado petebista, seria o todo poderoso ministro da Casa Civil do Governo Lula, o Deputado José Dirceu. Jefferson e Dirceu foram cassado por falta de decoro parlamentar. A história do Mensalão está longe de terminar. Correm na Câmara mais de uma dezena de processos contra vários deputados. O principal perdedor desta façanha foi o Presidente LULA que, segundo o jornal A Folha de São Paulo, teria perdido, nesta brincadeira, mais de 20 milhões de eleitores. O Valerioduto, que irrigou as finanças dos partidos e azeitou e corrompeu as resistências de deputados hesitantes, se caracterizou pelo aparelhamento da máquina pública. A corrupção, verdade seja reconhecida, foi sempre um flagelo da vida pública nacional, mas nunca tinha chegado à desfaçatez dos últimos anos. Pode-se dizer que 2005 foi um marco histórico, a ser esquecido e exorcizado, da corrupção no Brasil.

Ainda continuando no campo da corrupção, a Câmara dos Deputados, pela primeira vez em sua história, cassou seu próprio presidente, o deputado pernambucano Severino Cavalcanti, por ter ele se envolvido com cobranças de propina ao dono de um restaurante do Congresso. Até ao último momento, jurou, de pés juntos, que não renunciaria, pois em seu dicionário não existia tal palavra. Mas não teve jeito. Ante a iminente votação que lhe cassaria os direitos como Deputado, preferiu resguardar-se na esperteza da renúncia, para poder voltar, como promete, no próximo mandato, pela força do voto. Figura tosca e obtusa, mas hábil fautor de uma matreira política de favores, Severino Cavalcanti flertou com as hordas do Baixo Clero e por ele foi eleito. Mas não resistiu aos desmandos da própria ambição e gula e foi afastado da Presidência da Câmara e alijado, provisoriamente, da vida pública nacional.

O cidadão paranaense, Yves Humblet, proporcionou uma das cenas mais simbólicas de um ano recheado de corrupção, investindo aos gritos de “Fristão! Fristão!” contra José Dirdceu, e aplicando-lhe umas exemplares bengaladas. As referidas bengaladas tiveram o condão de lavar, em parte, a alma nacional, pois muitos deveriam ter sido alvos delas, como o deputado federal João Batista Ramos da Silva que foi preso em Brasília, embarcando, num jatinho da Igreja Universal, com 7 malas que continham nada menos do que R$ 10 milhões. As mesmas bengaladas teriam sido igualmente bem aplicadas num ex-dirigente do PT cearense e assessor do irmão do então presidente do PT nacional, José Genoíno, o qual levava R$ 200 mil numa mala e mais US$ 100 mil na cueca. Pena que os brasileiros usem tão pouco a bengala em suas necessidades pessoais, pois elas teriam sido um corretivo moral às mazelas nacionais neste triste ano, para a política, de 2005.

Foi brutalmente assassinada com seis tiros, no dia 12 de fevereiro, a freira americana, Dorothy Stang, de 73 anos de idade, defensora das populações do interior paraense. Ela lutava por projetos de assentamentos com desenvolvimento sustentável em terras devolutas. Seus projetos contrariavam os interesses dos madeireiros clandestinos e donos de grandes extensões de terras. Seu assassinato chocou o mundo. Embora seus executores tenham recebido 27 e 17 anos de cadeia, os mandantes do crime continuam em liberdade. Seria bom lembrar que, além da freira norte-americana, outros 18 camponeses e militantes foram, segundo a Comissão Pastoral da Terra, igualmente assassinados no Pará. A imagem deixada pelo Brasil nestes casos foi de lamentável impunidade e de fácil acobertamento da violência e dos crimes.

Outro herói, que marcou a vida nacional, foi o Bispo franciscano da Barra, Bahia, Dom Luiz Flávio Cappio que se entregou a um jejum à la Mahatma Ghandi, para impedir a transposição das águas do Rio São Francisco. Os 12 dias de jejum e o sofrimento do Bispo não foram em vão. Embora desaprovado pelo Vaticano e por alguns setores do Episcopado Brasileiro, o Governo Federal teve que se curvar enviou seu coordenador político, Jaques Wagner para negociar o fim do jejum, com promessas de maiores estudos sobre a urgência e necessidade da transposição das águas ou não do Rio São Francisco. Nas palavras firmes do Bispo: “Não é verdade – disse – que o projeto em andamento irá levar água para os pobres”. Diante do Presidente da República, prometeu voltar ao seu gesto profético, caso as populações não fossem atendidas em suas justas e seculares necessidades.

No dia 23 de outubro, os brasileiros foram chamados às urnas para um referendo, segundo o qual deveriam decidir sobre a proibição ou não da venda de armas e munição à população. Ganhou o “não” por 63,94%. Na verdade, as duas campanhas pelo “sim” e pelo “não” tinham mil razões a seu favor. O “sim” falava em nome da paz, enquanto o “não” se definia e alarmava a população diante da onda de violência cada vez mais assustadora em quase todo o país. O resultado parece ter sido plebiscitário, condenando a falta de política de segurança pública do País.

O Governo dos Estados Unidos se apresentou ao mundo e se arvorou em guardião da ordem e da democracia, invadindo o Iraque, semeando a morte e deixando a população do país numa extrema situação de insegurança. O terror foi, falsamente, estatuído para combater o terrorismo. As baixas foram altíssimas, principalmente do lado iraquiano. Mais de 30 mil, entre soldados e civis, perderam a vida. Do lado americano, contam-se 2.100 mortos e 15 mil feridos. Os protestos choveram de todos os países. Mas a política do surdo e déspota presidente americano George W. Bush e as forças ultra conservadoras daquele país não se apiedaram diante da grita internacional. Os saldados americanos, à frente de soldados de outros países, ainda ocupam o Iraque e não têm data para desocupá-lo. Tudo em nome da democracia e da crueldade e a estupidez da guerra pela guerra, por interesses financeiros inconfessáveis e injustificados.

2005 foi o ano em que todos perdemos algumas pessoas muito queridas, a começar por dois humoristas: Ronald Golias e o palhaço Arrelia. Também nos deixaram a cantora Emilinha Borba e o carnavalesco Clóvis Bornay, a atriz Zilka Sallaberry e o autor de novelas Régis Cardoso, o político Miguel Arraes e o cientista César Lattes, o escritor Arthur Miller e a atriz Anne Bancroft. A morte também visitou o palácio dos reis e levou Rainier III, que foi enterrado junto à sua esposa Grace Kelly. Que todos eles, descansem em paz.

Vamos fechar este despretensioso rol de acontecimentos de 2005 com duas cartinhas de uma inocente criança ao Papai Noel. Na primeira, que foi parar nas maiôs do Presidente LULA, ela pedia R$ 1.000,00 para ajudar seus pais que ganhavam muito pouco. O Presidente achou que o pedido era um tanto exagerado e, para não deixar a criança em total frustração, ordenou que colocassem no envelope ao remetente apenas R$ 10,00. A criança, ao receber o envelope, abriu-o com sofreguidão, esperando encontrar os 1000 solicitados. Qual não foi sua decepção ao encontrar apenas R$ 10. Endereçou nova carta ao Papai Noel com uma severa recomendação. “Na próxima vez, Papai Noel, favor mandar o dinheiro via Brasília. Imagine só o Sr. que ficaram por lá os outros R$ 990,00 que o Sr. me despachou”.

 

 
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