Levantando a voz 29
Frei Neylor J. Tonin
Não absolutizar o relativo
Porque o ser humano tem vocação divina, não raro sucumbe à
tentação de fazer-se o que não é: deus. Com corpo e alma, vive de emoções e
sentimentos, de pulsões de bicho e pulsações de gente, com carências e
dependências afetivas, sonhos de felicidade e definições espirituais.
Embora vivendo de forma absoluta seus amores e caminhos,
tem que saber que eles são relativos. Todos, sem exceção. Ele se endereça para
um horizonte absoluto por caminhos em que tudo é relativo. Por isto, é importante
não adulterar a natureza relativa das coisas, ao conferir-lhes um caráter que
não têm, ou seja, absoluto. Todas as coisas e fatos são tão relativos como o
dia de hoje, que será absorvido pelo dia de amanhã. Eles passam, graças a Deus,
deixando ou não, mais ou menos profundamente, saudades e marcas.
Uma bela aventura de paraíso, por exemplo, pode
esfumar-se, deixando um travo amargo na boca e dolorosa frustração na alma.
Isto acontece principalmente no mundo das relações afetivas. Quando termina uma
intensa experiência relacional, a pessoa tem a impressão de que seu mundo está
desabando, acabando, o que não é verdade.
Nessas horas, é de grande sabedoria lembrar-se de que um
homem é apenas um homem e uma mulher é apenas uma mulher. Eles não são “a” vida
nem “a nossa” vida, mesmo que os tenhamos amado e nos deixado cativar por suas
vidas.
Somos mais, muito mais do que aquilo que amamos e do que
aquilo que se nos escapa. Se isso não fosse verdadeiro, só nos restaria, ao
presenciar o término de um sonho, morrer, o que não é, admitamos, uma boa idéia
nem solução para nossas frustrações.
Numa lembrança bíblica, a tentação dos mais diversos
diabos da vida consiste em convencer-nos de que, por “comer da árvore do Bem e
do Mal”, tornar-nos-emos como Deus e teremos um conhecimento e domínio
absolutos de pessoas e coisas. Mais uma vez, graças a Deus, isto não é verdade,
nem desejável! Não só podemos como, aliás, até devemos renunciar a esta
pretensão, por mais atraentes que possam parecer os frutos que experimentamos.
Quem cai na tentação de absolutizar o relativo, acaba por perder a beleza do
relativo e, finalmente, o endereço do paraíso final.
Nenhuma criatura tem capacidade para nos transmitir o
conhecimento absoluto do Bem e do Mal e nenhuma nos transformará em Deus, por
mais que nos ame. O que ela poderá nos fazer é experimentar o paraíso. A isto
chamamos de felicidade, mas a felicidade, se tem asas de sonho, tem também pés
de barro e só encontrará o jardim das delícias quem tem a coragem dos caminhos
do bem e da sabedoria.
Não absolutizar o que é relativo! Quando se absolutiza o
que é relativo, tenha ele o nome de mulher maravilhosa ou de príncipe
encantado, certamente se relativiza o que é absoluto, tenha o nome de Deus
ou de supremo dom da vida.
Palavra dos Mestres
“Nossa fé no único Absoluto nos obriga a relativizar tudo,
inclusive nossas instituições eclesiais”. (José Maria González Ruiz, 1916-, biblista
espanhol)
“Acredite nos que buscam a verdade. Duvide dos que a
encontraram”. (André Gide, 1869-1951, escritor francês)
O homem sábio busca a sabedoria; o louco pensa que a
encontrou”. (Provérbio árabe)
“A serpente era o mais astuto de todos os animais
selvagens que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: ‘No dia em que
comerdes da árvore que está no meio do jardim, vossos olhos se abrirão e sereis
como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,1.5).
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