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(Resumo de palestra efetuada em 25/09/04. para a Comunidade
de Meditação Cristã do Rio de Janeiro)
Esse tema que vamos pensar com vocês está no
coração da Teologia da Graça, segundo
a melhor tradição católica. A tese, com
forte base evangélica nos ensinamentos de Jesus, é
esta: “Onde abundou o pecado, ali superabundou a graça”.
Nessa perspectiva Deus é graça, somente graça
e fonte de todas as graças. Todas as criaturas são
graça em si, recebendo suficientes graças para
se salvarem da morte, do pecado e não serem malditas.
A graça maior é a convivência com Deus.
Para tanto, o homem é essencialmente livre, mas deve
personalizar o convite que lhe é feito. O homem será
sempre um agraciado. A resposta humana terá que ser,
por isso, livre, pessoal e total. A graça divina não
se sobrepõe à natureza nem a inflige, porém
a potencializa e resgata. A graça é sobrenatural,
enquanto a resposta humana é natural. Embora sobrenatural,
a graça não livra o homem do que lhe é
co-natural: as concupiscências, as doenças, limitações
temporais. Mas a graça é curadora e elevadora
de nossa natureza finita e pecadora. Em Cristo, as criaturas
receberam graça sobre graça. Jesus sana a natureza
humana e, por Ele, o homem volta à santidade original.
Na cultura contemporânea, particularmente na mídia
radiofônica, nota-se certa exaltação do
demônio. Ele é parte de um negocio rendoso que
engorda a Caixinha de muitos pregadores espertos e/ou bem
intencionados, mas pouco esclarecidos. Segundo a doutrina
da Igreja, o poder de satanás não é infinito.
Ele não passa de uma criatura poderosa por ser espírito;
mas não é capaz de impedir a edificação
do Reino de Deus. A permissão divina para a atividade
diabólica é um grande mistério, mas sabemos
que “Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o
amam”. (Rm. 8,28).
Segundo São Tomás de Aquino, a pessoa permanece
sempre livre para consentir ou resistir às moções
diabólicas. Somente Deus pode agir diretamente sobre
o homem. O sacrário da alma humana pertence a Deus,
não ao diabo que é apenas um atiçador,
não o emissor dos maus pensamentos; coloca lenha na
fogueira, mas não é dono nem da lenha nem do
fogo. A doutrina da Igreja rechaça uma excessiva concessão
ao poder do diabo como tentador e dominador das pessoas; a
propósito, cabe lembrar que o Concílio Vaticano
II mostra-se muito reservado sobre o diabo. Na visão
pastoral, mais do que sobre o diabo, dever-se-ia chamar a
atenção sobre o poder sobre-humano do mal na
História. Não é o diabo quem faz o mal:
é o próprio ser humano com cara de demônio...
O culto a satanás e a ênfase nele, ao lado
da teoria da reencarnação são duas doutrinas
que procuram esvaziar o que Deus encheu: encheu Cristo de
poder e fez da encarnação do Verbo o caminho
da redenção humana. Elas visam adulterar os
planos de Deus. Pela reencarnação, Deus não
seria o salvador da vida, que seria redimida pela engenhosa
forma de permanentes reencarnações. O Espírito
Santo já não seria o hóspede das almas.
A morte de Jesus na cruz já não teria a força
redentora, seria apenas um fim trágico para uma pessoa
de bem.
Mais do que nunca precisamos resgatar hoje a graça
de Deus que transborda do pecado. Para tanto, urge introduzir
Jesus no centro de nossas vidas. Ele é o nosso salvador
que nos vai abrir a porta da Casa do Pai para ficarmos cheios
de graça, engraçados. Será imprescindível
então que nos exercitemos na prática do silêncio
e a meditação é um caminho eficaz nessa
direção.
Precisamos silenciar em nosso interior as fantasias que
se opõem à nossa realidade, desvirtuando nosso
eu de sua identidade.
Precisamos silenciar nosso amor próprio que, afinal,
não passa de egoísmo disfarçado.
Precisamos calar nossos medos porque acabam se tomando causa
de insegurança, de ciúme, de rancor, de raiva.
Precisamos silenciar nossas memórias que tiram a
essencialidade dos fatos que ficaram no passado.
Enfim, precisamos reconhecer que Jesus viveu, morreu, ressuscitou
verdadeiramente e que tudo mais na Igreja será vão
se não reconhecermos a graça de Deus revelada
em Jesus Cristo.
Frei Neylor J. Tonin, OFM |