Na coluna anterior refletimos sobre revelação, salvação e fé, assumindo o caminho do teólogo E. Sehillebeeckx. Ele afirma a necessidade de inverter a afirmação "Fora da Igreja não há salvação" para "Fora do mundo não há salvação", a fim de proporcionar uma reflexão mais coerente com o Novo Testamento e, ao mesmo tempo, com a realidade da história humana atual. Nesta coluna, vamos apontar pistas para enfrentar a seguinte questão: o que é revelação de Deus? E para evitar uma compreensão mágica da revelação de Deus é preciso esclarecer algumas coisas.
Estamos acostumados a pensar, por causa de uma leitura fundamentalista (isto é, ao “pé da letra”.) dos textos bíblicos, que a revelação de Deus acontece de forma direta, sem mediação. Deus escolheria uma pessoa ou povo para quem comunicaria, diretamente, como que utilizando um "telefone divino", a sua vontade. Na Bíblia, por exemplo, Deus teria ditado no ouvido dos redatores o que deveria ser escrito sem nenhuma intervenção da cultura humana. Ora, Deus não criou bonecos para brincar, criou seres humanos com liberdade, com capacidade de decidir, como já fizemos menção em outra coluna. Mesmo sendo à Sua imagem e semelhança, não significa que podemos prescindir de nossa estrutura humana para compreender o Criador e sua vontade para nós.
É preciso levar em consideração que quando nos referimos a Deus usamos linguagem humana e não divina. Alguém conhece o idioma de Deus? Teria Deus privilegiado uma cultura para expressar sua vontade? Todas as nossas imagens de Deus são imperfeitas, são aproximações da realidade de Deus e não Deus integralmente. Quando assumimos que Deus é Pai, devemos ter em mente que Ele não é pai como nós somos pai. Até mesmo uma das melhores definições de Deus, que encontramos em 1Jo 4,16 (Deus é amor) não esgota tudo o que seja Deus, pois o amor de Deus não é como o nosso amor. Embora todas essas expressões contenham uma verdade sobre Deus, não a contém de maneira plena, pois assim funciona a estrutura humana.
Devemos, portanto perceber a dificuldade de expressar exatamente aquilo que seja Deus e sua vontade, pois não deixamos de ser humanos quando tentamos compreender a direção que Deus tem para nós. Tudo o que somos, e como somos, entra na compreensão de Deus. Então, para dizer quem é Deus e como Ele se revela é preciso assumir a história humana, é preciso valorizar o mundo, e não fugir do mundo. E no mundo, na natureza, em todo cosmo, que encontramos os vestígios do Criador.
Assim, o que chamamos de revelação de Deus é o conjunto de nossas experiências mais profundas como ser humano que identifica o caminho que o Criador "pensou" para a criação, experiências narradas pela linguagem religiosa e, no nosso caso, pela tradição cristã, que se deu, por excelência em Cristo Jesus. Mas, essas experiências só são possíveis porque Deus toma a iniciativa de se mostrar, porque Ele quer que nós compreendamos qual é o caminho da salvação. Porém, não somos deuses, por isso, como alguém que caminha com os olhos fechados, precisamos tomar cuidado para não tropeçar, isto é, identificar Deus, onde Ele não está. Esta é a essência do que se chama, biblicamente, de idolatria: colocar algo ou alguém que não seja Deus em Seu lugar. E isto pode acontecer mesmo no interior da linguagem religiosa. Pessoas podem estar pregando Deus, mas no fundo estão apontando para uma experiência idólatra, como confundir Deus com o ter, o poder ou o sucesso.