Retomamos a reflexão sobre a Revelação (fé e salvação) que começamos a abordar nas colunas de novembro e dezembro. Lembramos que tomamos por base a tese "Fora do mundo não há salvação". Deus se revela no conjunto da realidade humana. É no meio de nossa história que devemos procurar os sinais de Deus e sua vontade. Assim sendo, conseqüentemente, existe no "coração" humano e em sua história uma centelha divina que o desperta para o caminho da salvação. Deus toma a iniciativa e o ser humano responde. A resposta humana à iniciativa de Deus é o que chamamos de fé.
O que é fé? Uma resposta rápida afirmaria que é acreditar na existência de Deus e em sua criação. Contudo, não existe fé em estado puro, isto é, independente de nossa existência humana. Para acreditar em alguma coisa temos que achar nela certo grau de plausividade (a palavra plausível é difícil, mas é a melhor. Quer dizer: algo pode ser aceito com algum fundamento). A fé não é um “tiro no escuro” ou um “se jogar num abismo sem saber o que tem no fundo". Evidentemente haverá sempre uma dimensão do mistério divino que não conseguiremos capturar, mas isso não quer dizer que não possamos afirmar nada sobre Deus. Nossa relação com a realidade divina é como a relação de um cego de nascimento com algumas realidades: sabe da existência delas sem, no entanto, poder descreve-Ias plenamente.
Se a fé não pode ser vivida sem a realidade da história humana, devemos sempre nos perguntar que tipo de fé temos. A resposta à iniciativa de Deus se manifesta na experiência humana de várias maneiras. No entanto, a nossa experiência de fé possui uma característica especial: a manifestação de Deus tem em Jesus Cristo uma revelação extraordinária. O Deus Trino (Pai, Filho e Espírito Santo) se revela para nós no Filho feito homem. Uma pessoa humana com tempo e história determinados. Uma referência objetiva. E ação do Espírito Santo não elimina a objetividade da revelação de Deus no Filho. A nossa fé, portanto, é fé cristã. Então, para afirmamos que temos fé, e fé cristã, qual o conteúdo mínimo que deverá fazer parte de tal experiência?
Levando em consideração essas rápidas observações, devemos então afirmar que a fé cristã é uma resposta humana que compromete a vida toda de quem responde, individualmente e coletivamente, a um caminho bem determinado: o caminho de Jesus Cristo. A fé é uma resposta existencial (envolve a vida toda) a um projeto de vida. E embora a fé cristã carregue consigo, necessariamente, um envolvimento comunitário nos ritos que celebram a memória viva do mistério do Deus revelado em Jesus Cristo, ela não pode ser confundida como adesão a uma espécie de associação. A fé cristã não é simplesmente a integração a uma corporação, não é como ser membro de uma torcida de futebol. Eu não posso ter fé independente daquilo que sou. É interessante observar na história primitiva da Igreja que quando alguém se convertia ao cristianismo e tinha uma profissão considerada contrária aos princípios do mesmo (ex.: gladiador) ou abandonava a profissão ou não podia ser cristão.
Certamente que a fé possui um crescimento, e neste crescimento a experiência religiosa é um instrumento necessário. Há e sempre haverá um processo de iniciação à fé que supõe uma cultura religiosa. Contudo, não podemos esquecer que a nossa fé é fé cristã. Assim, mesmo valorizando o simbolismo religioso, não podemos perder de vista que o objetivo da fé cristã é proporcionar ao convertido uma experiência de vida que dê sentido e finalidade à vida como um todo, ocasionando uma transformação pessoal e coletiva. Uma transformação que testemunhe o Deus da Vida revelado no caminho concreto de Jesus Cristo, e assim permita experimentar o que chamamos de salvação (tema da próxima coluna).