Vimos que o ser humano faz parte da criação divina e, dentro dela. É o único capaz de perceber, conscientemente, a constante iniciativa de Deus para revelar o seu plano de amor àquele que é Sua imagem e semelhança. E a resposta humana à auto-revelação de Deus é a fé. Fé que é uma reposta existencial (envolve a vida toda) a um projeto de vida. Portanto, a conseqüência da fé é a salvação. E, muitas vezes, a percepção da constante vontade salvífica de Deus é um estímulo à fé. Assim podemos constatar que é difícil separar revelação, fé e salvação. São três realidades de um único processo salvífica.
Portanto, pelo que já foi desenvolvido nas colunas anteriores, pode-se concluir que salvação não pode ser entendida como um prêmio que se recebe pelo dever cumprido. A salvação começa desde o momento do nascimento (útero materno). Quando nascemos iniciamos uma vida que não terá fim. Certamente haverá um momento de plenitude (vida eterna, céu, paraíso - questões que abordaremos em colunas futuras) que se dá na passagem que chamamos morte.
Salvação é experiência de salvação, isto é, porque Deus me ama ao oferecer a vida, o dom mais precioso dado por Ele, eu começo a viver consciente desta realidade. Não fico esperando por uma recompensa que virá mais tarde com a morte. Passo a tentar viver, desde já, apesar do pecado, como alguém que caminha para Deus. O perigo de uma teologia da recompensa é se fechar na auto-justificação, isto é, pensar que posso comprar a salvação com as minhas atitudes ou com o mero cumprimento da lei. Passo a pensar que tenho direito de me salvar independente da graça de Deus. Fazendo de Deus um comerciante da salvação, posso, conseqüentemente, fazer das pessoas meros trampolins para comprar o céu.
Quando experimentamos a salvação como um dom gratuito de Deus, passamos a ver os outros como parceiros no caminho da salvação. Estamos todos, solidariamente, debaixo da mesma vontade divina de salvar. Deus é aquele que vai às últimas conseqüências para nos oferecer a felicidade de viver eternamente com Ele. Se preciso for, ele deixa noventa e nove e vai ao encontro daquele que se perdeu: “Assim também, não é da vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca” (Mt 18,14). Deste modo, o cumprimento de determinadas leis é conseqüência de uma vida submetida a um sentido maior: viver o amor misericordioso de Deus desde já. O que salva é a fé neste amor, mas que se concretiza em amor para outros parceiros em humanidade. Assim, não há oposição entre fé e obra. Sem fé nos tornamos arrogantes, sem obras nos tornamos legalistas.
Ora, por que podemos afirmar tal definição de salvação? A resposta está no caminho revelador feito por Jesus Cristo. Compreendendo como se processa a revelação de Deus, sabendo que a fé é uma resposta existencial, e vivendo, desde já, na fé, a salvação oferecida gratuitamente por Deus, em quem podemos ter um roteiro mais profundo do caminho a seguir na trajetória de nossa vida? Nas próximas colunas pretendemos responder a essa pergunta.