Jornal O Globo - 18/04/2005
A agitação da mídia em
torno de determinados cardeais como possíveis sucessores
de João Paulo II esquece que num conclave o que está
em jogo é a própria Igreja, já que
o nome escolhido deverá sê-lo em função
das necessidades da mesma Igreja. Naturalmente há
diferenças entre os cardeais sobre como fazer frente
a tais desafios, o que possibilita a formação
de grupos no interior do colégio cardinalício
em torno desta ou daquela linha de ação e,
por conseqüência, deste ou daquele nome. Porém,
fator decisivo vem a ser a própria Igreja neste momento
histórico e nesta sociedade atual. Examinemos algumas
questões que a desafiam sem pretensão de esgotar
o tema. Comecemos pelos desafios externos.
A atual globalização da economia
comandada pela eficácia e pelo lucro, sujeita (teoricamente)
às leis de mercado, acaba por retroagir sobre a pessoa
humana. Esta deixa de ser a meta da organização
social e da vida econômica, nacional ou planetariamente
considerada. Daí, a insensibilidade das grandes potências,
o aumento dos sofrimentos humanos, as guerras provocadas,
a situação insolúvel dos países
pobres endividados etc. A Igreja deverá continuar
sua luta pela justiça e pela paz, sem temer possíveis
represálias dos poderosos.
Outro sério desafio representa a proximidade
inédita do cristianismo com as grandes tradições
religiosas da Humanidade, de modo especial com o islamismo
e com as religiões asiáticas (budismo, hinduísmo).
Não se trata só de respeitá-las na
linha do Concílio Vaticano II, mas de repensar sua
própria autocompreensão no amplo horizonte
aberto pelo diálogo inter-religioso, que exibe ao
cristianismo riquezas até então pouco conhecidas.
O desafio das religiões exige também um cristianismo
unificado, para ter maior credibilidade, e um esforço
ecumênico mais intenso por parte da Igreja Católica
e das Igrejas Evangélicas que resulte numa unidade
respeitando-se certa diversidade.
A cultura hoje dominante, individualista, consumista,
voltada para uma satisfação imediata e insensível
à busca do bem comum, das grandes causas, do compromisso
social, representa a própria contradição
da mensagem cristã, centrada no amor desinteressado
pelo semelhante em escala pessoal e estrutural. Simultaneamente,
vivemos numa cultura pluralista, nervosa, em constante mudança,
que só conhecemos e experimentamos de modo fragmentário
e que priva a Igreja de uma linguagem firme e universal
para seus pronunciamentos. A irrupção das
culturas nativas, étnicas e nacionais, talvez incitadas
pela globalização massificante, agrava ainda
mais este desafio.
Entre os desafios que surgem do próprio
interior da Igreja poderíamos iniciar com a assim
chamada descentralização do governo eclesial,
anseio claramente expresso pelos participantes do Concílio
Vaticano II, que não se concretizou nos anos seguintes.
Assim a Cúria Romana deteve um poder excessivo e
privou as igrejas locais e seus respectivos responsáveis,
os bispos, da justa autonomia que lhes compete como sucessores
dos apóstolos. Aqui também se situa a reivindicação
das Igrejas não européias de expressarem e
viverem a fé cristã a partir de suas próprias
culturas, dando lugar a um catolicismo policêntrico
e plural (africano, asiático, europeu, latino-americano).
Outro desafio interno diz respeito a uma maior
comunhão e participação de todos na
mesma Igreja. A Igreja do passado, hierárquica, vertical,
que relegava a maioria de seus membros somente à
obediência e à passividade recebeu forte corretivo
no Vaticano II e hoje encontra séria resistência
por parte dos católicos. A participação
ativa dos leigos nos pronunciamentos doutrinais ou éticos,
bem como na ação missionária da Igreja,
goza de sólido respaldo teológico, mas carece
ainda de canais institucionais adequados para se concretizar.
No fundo se trata do respeito à pessoa humana, à
sua subjetividade, à sua situação existencial,
o que não implica permitir relativismo e anarquia
na Igreja. Alguns cardeais importantes já se manifestaram
nestes últimos anos por uma reflexão séria
sobre o espaço da mulher na Igreja, a sexualidade
humana, a crise matrimonial, os ministérios ordenados
ou não, mostrando a pertinência de tais desafios.
Estes são alguns desafios que esperam
pelo novo Papa. Certamente há outros e surgirão
novos com o tempo. Fundamental, porém, para o cristão
é saber que o coração da Igreja não
é o Vaticano ou o papa, e sim o Espírito Santo,
que a mantém viva e atual pelos séculos apesar
da fragilidade e limitação de seus membros
que somos todos nós.
PADRE MARIO DE FRANÇA MIRANDA é
professor da PUC-RJ