Frei Neylor Jose Tonin -  Psicologia e Espiritualidade
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Com licença...

Olhar a vida... com outros olhos. Ver o sol como irmão e a lua como irmã, o verde do mato e o azul do céu, a luta dos ecologistas e a graça dos dançarinos... com outros olhos.

Enfrentar as canseiras diárias, uma doença fora-de-hora e os primeiros cabelos brancos, as surpresas da vida e nossas mil limitações... com outros olhos.

Acompanhar a garrulice faceira das crianças, a impetuosidade sem-cerimônia dos jovens, a sobranceirice, quantas vezes, presunçosa dos adultos e o sereno e cadenciado passo dos mais velhos... com outros olhos.

Abraçar um amigo, um filho ou alguém aflito, abençoar um mendigo e agradecer a Deus, cada manhã, por sentir-se ainda vivo, enxugar uma lágrima insuflando a esperança, tomar a cruz todos os dias, com alegria e sem medo, e fermentando o sonho de uma linda, ainda que distante, Terra Prometida... com outros olhos.

Olhar a vida... com outros olhos! Mais do que a doce pretensão deste livro, trata-se de um itinerário humano e espiritual, abençoado e desafiador, que acalentamos no silêncio de nossas mais interiorizadas aspirações e profundas ressonâncias.

Olhar a vida... com outros olhos, sem porém esfriar nossa paixão por ela. Que bom seria se pudéssemos tocar a vida com as mãos do coração, como se tivéssemos uma alma recém-criada e... outros olhos!

Os passos que damos, que importa se grandes ou pequenos, devem ser dados em direção da Casa do Bem... com outros olhos. É para ela que somos convidados pelo Senhor da casa definitiva da vida. Inspiração e graças para a caminhada não nos faltarão.

Talvez devamos apenas trocar de rumo e de jeito, passando a olhar a vida... com outros olhos. Tal transformação operaria um verdadeiro milagre, seria um novo e fantástico nascimento, a ser celebrado com festas e danças, com anjos e santos, que, aliás, já vêem tudo... com outros olhos. (1.519)(P. 11ss)

 

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1 - Eu te amo!
Se alguém te confessar: "Eu te amo!", abre bem os olhos. Se as palavras forem meramente palavras, não acredita. Ele não sabe o que está dizendo. Se a confissão, porém, estiver carregada de sentimento, cuidado! A flor pode ser bela, mas não tem raízes. Mas se alguém te disser: "Eu te amo!" e for capaz de dar a vida por ti, apressa-te e confia, entrega-te e ama também, porque ele é verdadeiro e da verdade não se deve fugir. Diante dela, temos que nos ajoelhar em adoração e sempre na alegria. (404)

2 - Amar e ser amado
Amar e ser amado é o maior sonho humano e o amor pode ser a fonte de nossas maiores, piores e mais sentidas frustrações. Muita gente se mata por amor e muitos vivem, como mortos, por não serem amados. Trágicos e maravilhosos são os caminhos de quem ama e é amado! Mas quantos enganos se cometem em nome do amor! Posso enganar-te quando te digo: "Eu te amo!", mas não consigo mentir quando dou minha vida por ti. O preço do amor é a vida. Tudo mais é mentirinha de quem está apenas apaixonado. (399)

3 - Liberdade
A marca espiritual mais desejável e de maior preço é a liberdade. Ser livre é o apanágio mais alto que carateriza o ser humano mais completo. Esta liberdade só conquistada no esquecimento mais despojado de si mesmo. Só com liberdade é possível amar plenamente, ser bom sem cobranças, entregar-se a um desafio sem medo. Qualquer autocentração é sempre sintoma de uma liberdade ainda engatinhante e pouco madura. Quem pensa muito em si não tem tempo para ser livremente para os outros. (403)

4
Madre Teresa de Calcutá foi chamada de "a mulher do século". O que encanta tanto nesta mulher? Não é, sem dúvida, seu aspecto físico. Tem nariz saliente, rosto comprido, enrugado, testa alta, corpo encurvado. Mas ela pertence ao "fortissimum genus", aquela raça de gente que tem uma têmpera que molda os caminhos para os demais, acordando em todos, para além dos comodismos, os apelos soterrados da bondade e do amor. Para ser grande não é preciso ser bonito. Basta viver para os outros. (404)

5
O homem, que é comparado, na Bíblia, à erva do campo "que hoje viceja e amanhã fenece" (Jó 14,2), é também definido como sopro de Deus e obra de Suas mãos. Somos, ao mesmo tempo, um miserável vermezinho (Is 41,14) e uma glória e esplendor, pouco inferior a um anjo do céu (Sl 8,8). Às vezes nos sentimos pequenos e insignificantes e, outras, partners de um sonho divino. Como criaturas, somos apenas um pedaço de tempo, mas como filhos de Deus, temos uma eternidade e um destino de glória. (401)

6
No espírito humano vivem os sonhos dos grandes valores que, às vezes, recebem a pressão dos impulsos instintivos do animal que a pessoa também é. Neste momento, instala-se o conflito. Por um lado, o espírito deseja alçar-se por cima das contingências das coisas e, por outro, os instintos cobram urgências que buscam satisfação. Uma e outra coisa são boas porque naturais. O que não pode ocorrer é a ditadura do espírito ou do animal. Havendo ditadura, adultera-se o mistério da pessoa. (406)

7
O espírito humano é fonte e sede dos valores, dos quais o maior e mais sonhado é o próprio Deus. É pelo espírito que a pessoa se faz uma só com Deus e com seus semelhantes. Alimentar, por isto, o espírito é sumamente importante, pois um espírito anêmico deixaria a pessoa submissa e dependente das pulsões do seu bicho interior que a levaria a atos e comportamento descontrolados. Tal pessoal seria pouco espiritual, com mínimas chances de ser feliz e autêntica, podendo até tornar-se perigosa. (410)

8
A pessoa humana tem horror visceral a certas situações e coisas que agridem sua natureza de vida e sonhos de beleza. Não suporta a morte que a nega, a frustração destrutiva de seus projetos, a rejeição radical de sua pessoa, dores insuportáveis e coisas repugnantes aos seus sentidos. No fundo, tudo isto tem natureza de morte, enquanto a pessoa é vida e anseia por viver. Daí, seu horror pelo que a destrói. Nunca se exaltará suficientemente a simples graça e o dom inefável da vida. (400)

9
Há pequenos gestos e coisas fáceis que são, no entanto, importantes, como dar um copo de água, brincar com uma criança, atender um necessitado, ser naturalmente simpático, não brigar ou criar polêmicas desnecessárias, ser honesto sem presunção e prestativo sem afetação, trabalhar para viver e não vice-versa, rir com gosto de uma boa piada e apreciar uma boa comida. Tudo isto é fácil e não custa muito. Por que algumas pessoas não valorizam tais gestos e não vivem com esta simplicidade? (409)

10
Certa vez um jardineiro plantou uma semente e nasceu uma flor. Certa vez um sábio deu um conselho e evitou uma tragédia. Certa vez um amigo enxugou uma lágrima e o sol voltou a brilhar no coração. Certa vez um pobre ganhou um pão e levantou os olhos para o céu. Certa vez um irmão perdoou a seu irmão e a alegria encheu sua casa. Certa vez um homem de Nazaré tomou a cruz às costas e a humanidade cantou feliz. Certa vez e em todas as vezes que uma mulher rasga seu corpo acontece o milagre da vida. (401)

11
A alegria de viver deveria ser a primeira e mais desejável qualidade de uma pessoa. Alegria que não é, no entanto, euforia desatada, mas disposição quente do coração para o milagre da vida. Tal pessoa seria uma boa educadora, pai e mãe, companheira ideal, poeta e profeta da vida. Diz um refrão popular: Que os maus se tornem bons; que os bons se façam santos e que os santos não percam a alegria de viver. Deve a pessoa colocar com alegria suas mãos na vida. O contrário será entristecê-la. (403)

12
Para compreender plenamente seu mistério, de graça e pecado, de anseios e tristezas, de amor e frustrações, de vida e morte, a pessoa precisa abrir-se para Deus. Não dá para viver sem Ele, de costas para o Criador, sob o risco de apequenar-se e enlouquecer espiritualmente. Mas a pessoa pode chegar a Deus pelo caminho da fé consciente e confessada ou do comportamento ético e desprendido. Deus não é um conceito, mas uma experiência e só os que a fazem O conhecem e O honram devidamente. (404)

13
A espiritualidade cristã gira e gravita em torno de Cristo. Ele é o centro, começo e destino, o caminho e verdade, a motivação e móvel da fé dos que o elegem como razão de suas vidas e esperança de seus endereços. Esta eleição não pode conhecer ressalvas, embora possa estar coalhada com as dúvidas que são próprias de quem caminha às apalpadelas. Trata-se, por isto, de uma fé absoluta que é vivida, no entanto, no relativo da vida. Cristo é, ao mesmo tempo, nosso conflito e nossa certeza. (404)

14
Rezar é respirar Deus, é elevar o coração a Ele, é confiantemente confessar-lhe nosso amor cheio de dúvidas e acreditar em seu amor cheio de promessas e poder. Deus é a fonte do amor, mistério que move o céu e as estrelas. Quando rezamos, nosso espírito reencontra a paz e nosso universo se ilumina com as estrelas da esperança. Porque rezar é acreditar que nosso Criador é, ao mesmo tempo, nosso Salvador. E não abandonará, como Pai, os filhos que o louvam e lhe suplicam por luz e mais vida. (404)

15
O verdadeiro santo se carateriza pela harmonia de sua personalidade e pelo vigor de sua identidade. Tanto mais será um santo admirável quanto mais for plenamente humano. O perfil de sua personalidade não sofre rupturas insanáveis nem o céu de seu espírito se tolda, intempestivamente, com nuvens ameaçadoras. Ele é bom, sem ser mole; é duro, sem ser agressivo; é companheiro, sem compactuar com desmandos. No sim e no não, ele será sempre fiel e digno, nunca criando desesperanças. (403)

16
Insiste-se muito na necessidade de as pessoas terem vida interior. Para evitar qualquer engano, é importante dizer que a vida interior não se localiza em algum ponto de nosso ser, mas nos reveste por dentro e por fora, definindo-nos em relação a tudo quanto existe. Temos vida interior quando abrigamos com intensidade algum ideal ou lutamos por alguma causa. É no "coração" que as pessoas têm ou não vida interior. Quanto mais coração colocamos nisto ou naquilo, mais vida interior temos. (407)

17
Ninguém deve desejar a morte ou querer morrer. Nem Cristo, o mais santo dos homens, aceitou tranqüilamente a morte. Ao contrário, lutou e relutou muito e até suou sangue quando sentiu sua proximidade. Ninguém deve querer morrer pelo simples fato de que Deus é o "grande amigo da vida" e cria o homem para viver. A morte é a maior frustração da vida e dos planos de Deus. Se a vida é um milagre, viver é uma graça e viver bem é a graça maior. A morte só é aceitável num ato de fé no Deus da vida. (398)

18
A criança é uma graça, mesmo quando, com suas peraltices, nos cobra uma dose extra de paciência. O adolescente "super-vitaminado" tem o condão de nos tirar do sério. O jovem, com sua presunção, nos enche de orgulho e, ao mesmo tempo, nos faz sorrir com piedade. O adulto produz e confia em si mesmo, mas pode ser um ditador. O bom velho deveria ser uma fonte de paciência que não perde a esportiva, sorri cheio de compreensão, não desespera de nada, acolhe e abençoa a todos cheios de ternura. (405)

19
Depois dos 50, a pessoa não pode mais se dar ao luxo de perder tempo. Não só o tempo cronológico, que é marcado pelo relógio que não pode ser detido, mas principalmente o tempo cairológico, ou seja, o qualitativo, o da graça de viver. A grande pergunta que tais pessoas deveriam se fazer é esta: A que estou dedicando o tempo cairológico de minha vida? E, como resposta, evitar pequenezas, coisas sem sentido e irrelevâncias. Depois dos 50, é preciso escolher bem o que se faz e como se vive. (403)

20
Mais vale estar conformado na doença do que revoltado com saúde. Mais vale uma derrota sem abatimento do que um triunfo sem pudor. Mais vale arrepender-se dos próprios erros do que proclamar sem pejo as próprias qualidades. Mais vale mais a alegria dos humildes do que a soberba dos fariseus. Mais vale a pureza dos simples do que as riquezas dos corruptos. Mais vale o pão da dignidade do que os banquetes dos ladrões. Muito mais vale um coração compassivo do que um espírito agressivo. (403)

21
Ninguém de nós é o caminho. Em verdade, cada pessoa está no caminho da vida fazendo caminhos. A grande pergunta seria: Para onde estamos caminhando? Qual o nosso endereço? Quando encontramos uma pessoa altamente espiritual sentimos vontade de segui-la porque, parece-nos, ela tem um endereço certo e não duvida do caminho. O endereço resplandece em suas atitudes e certezas. Seu comportamento qualifica, serve e testemunha seu destino. Nela, caminho e endereço são uma coisa só. (404)

22
Pura não é a pessoa que obsessivamente se purifica, mas a que simplesmente limpa e zela pelas coisas e pela vida fora de si. Por ser interiormente pura, cuida externamente da beleza. Devolve a pureza às coisas. Limpa com amor uma casa, a lágrima de um rosto, a tristeza que outros sentem. O fariseu era limpo, mas não era casto. Cuidava tanto da própria pureza que fazia pouco da alegria de ser casto. Coava por isto mosquitos para não se manchar, mas engolia elefantes sem corar de vergonha. (405)

23
A verdade que mais dói é a da realidade do próprio eu. Por mais que a ocultemos, ela sempre nos coloca diante de seu espelho e nos alerta para as fissuras de nossa personalidade e para as incoerências de nossos comportamentos. Para todas as demais situações e pessoas, estamos cheios de soluções, mas não sabemos curar nosso próprio coração. E isto dói, dói muito. Na verdade, ninguém é médico para si mesmo. Só os outros, com muito amor e paciência, poderão cicatrizar nossas feridas. (402)

24
A amizade exige muita compreensão, respeito e total liberdade, capacidade de renúncia, dedicação alegre e sempre sinceridade. O mais difícil, na amizade, é aceitar o outro como ele é e ser-lhe leal, não obstante possíveis e naturais diferenças. Ser amigo é estar ao lado do outro em quaisquer circunstâncias, vivendo e compartilhando alegrias e sofrimentos. Ser amigo é continuar encantado com o outro, apesar de tudo, deixando-se amar, alegremente, sem medo ou cobranças. (400)

25
Sejamos de Paz! Mas com firmeza e convicções. Sem condenações! Sem medos! Sem raiva! Sempre com simpatia e de coração aberto! Nunca com intolerância e agressividade! A luta pela paz pode ser dura, mas deve ser alegre e celebrada com uma grande festa. Ela não pode ser discriminatória, excluindo os inimigos. Mas pode e deve ser formadora, ensinando às pessoas os caminhos do bem, promovendo a beleza da vida em comum. Sejamos de Paz! Coraçãomente! Sem franzir a testa com mau-humor! (402)

26
Bondade não se afina com frouxidão ou dubiedade. Para ser bom não é preciso ser condescendente com o erro. Deve-se, é verdade, amar a quem erra, mas sem abençoar os desvios do caminho certo. Muita gente pensa que ser bom implica em fechar os olhos para as fraquezas alheias. Nada mais falso. A permissividade tácita ou ostensiva ao mal só aumenta o assanhamento dos malfeitores. E estes, sem balizas para seus despropósitos, acabam por não encontrar o necessário aprumo moral e humano. (404)

27
Diz a Bíblia que os maus acreditam poder subverter os planos de Deus, permanecendo finalmente impunes. Mas o profeta Amós garante que, no dia do Juízo, "eles rangerão como uma carroça carregada de feno". Aos bons é pedida a paciência histórica e fé na mão onipotente de Deus. Ele, um dia, levantará "a cabana arruinada" dos sonhos humanos, pois continua agindo no tempo para fazer progredir sua criação. Hoje, é verdade, os pobres gemem. Amanhã, serão abraçados pelo Juiz Salvador. (402)

28
Uma das notas mais penosas do neurótico parece ser a ausência de gratuidade com que age. Tudo faz para amar e ser amado, menos amar e deixar-se amar gratuitamente. No jogo do amor, parece temer, no fundo, sentir-se diminuído, tentando por isto sempre impor sua presença, infelizmente, problemática. Faz-se assim agente, centro e fim das relações amorosas que, por natureza, exigem correspondência livre e generosa. Ah, que beleza se os neuróticos descobrissem a gratuidade do amor! (406)

29
Os grandes mestres da Espiritualidade sempre detectaram, nas imperfeições do amor, um desejo impulsivo de dominação. Cobranças mesquinhas, controles descabidos, ciúmes ridículos, cenas descabeladas, rudezas espantosas e desconfianças estapafúrdias não passam de atestados de uma doentia insegurança psicológica. Amar não é dominar nem muito menos aprisionar. O caminho do amor é uma aventura rica e dolorosa que vai aos poucos nos libertando das escórias do medo e do egoísmo. (408)

30
Conheci um homem que passou 47 anos entrevado num quartinho abafado e morreu sem maldizer a vida. Conheci uma mulher que criou 12 filhos, perdeu o marido cedo e nunca reclamou de nada. Conheci uma pessoa que não tinha quase beleza física, mas só tinha lindas palavras para os outros. Conheci uma outra que era absolutamente rigorosa consigo mesma, mas sempre foi afável para com todos. Conheci um mendigo que cantava pelas ruas da cidade. E conheci alguém que tinha tudo, menos coração. (404)

31
A Declaração dos Direitos Humanos e grande número de Constituições de países asseguram ao homem o direito à felicidade. Cristo não fala em direitos, mas propõe um caminho para a felicidade: o do serviço desinteressado e o do lava-pés por amor. E coloca uma condição: a de nos tornarmos como crianças. Só assim - garante ele - a pessoa será feliz. Devemos afirmar: Não é por ter brinquedos que a criança se sente alegre, mas porque só os brinquedos contam é que ela se sente feliz. (395)

32
O ideal evangélico de "ser como criança" não quer dizer comportar-se com uma mentalidade infantilóide, mas apresentar a docilidade e a fé pura que a criança tem. Se um pai disser a seu filhinho "pode saltar!", ele se jogará donde estiver em seus braços, confiante, crendo na sua palavra. Diante de Deus, a pessoa é uma criança. E é Deus quem lhe ordena, no fim da vida: "Pode saltar, meu filho!" Quão poucos aceitam obedecer-lhe! Falta à pessoa humana a confiança que a criança tem em seu pai. (406)

33
Há dois amores: o de Deus e para Deus, o do próximo e para ele. Não importa que este seja amigo ou inimigo, vizinho ou more distante de nós, nos olhe com simpatia ou frieza, ele é sempre nosso semelhante e merece nosso amor. Amá-lo pode ser graça ou virtude, mas é sempre obrigação. No Juízo Final, seremos cobrados pelo amor que lhe dispensamos, sem as escusas de não havê-lo conhecido. Ele cruzou nossos caminhos, gemeu à nossa porta e fez-se mendigo do nosso tempo, piedade e coração. (400)

34
Não dá para ter paz irreconciliado com os outros. A irreconciliação causa sentida infelicidade que afeta nosso mundo espiritual, psicológico e somático. Precisamos construir pontes de entendimento e não reforçar razões para nossa autodefesa. A reconciliação, por isto, não se faz do alto de pedestais, numa atitude se ressentida superioridade, mas num chão comum. Descer e desarmar-se: eis a primeira e fundamental providência! Cheio de razões e acusações, ninguém se reconcilia. (409)

35
A clara identificação da Igreja com os pobres não é uma mera estratégia política, mas uma resposta de fidelidade ao Evangelho. Na origem da evangelização de Cristo há uma clara opção preferencial pelos pobres. Jesus veio para anunciar o Reino de Deus e para abrir a mesa do Reino para novos comensais. Nossas igrejas, por isto, são essencialmente o espaço vital dos pobres, sem exclusão dos ricos. Mas se a Igreja perder os pobres, perderá sua identidade e vã será sua ação na história. (403)

36
Boa parte das modernas neuroses se localiza na maciez dos joelhos que já não mais se exercitam no exercício da adoração a Deus. Porque se encontram tão pouco calejados, sofre a alma e agita-se o espírito. A pessoa precisa voltar a ajoelhar-se para encontrar, na cruz da imobilidade genuflexa, a paz para seu coração sobressaltado. O gesto de ajoelhar-se reflete, essencialmente, um atitude interior e processa a terapia duma felicidade espontânea, pura e simples. (390)

37
A conclusão de um grosso livro de mais de 500 páginas pode parecer chocante: "A inércia é o único vício e a única virtude é o entusiasmo". O entusiasmo, na verdade, é fundamental em tudo que se faz. Não basta fazer coisas, é preciso fazê-las com alma e paixão, com entusiasmo. Com todo o coração! O que não é feito com esta virtude não tem molho, cor e música. Pode ter mérito, mas falta-lhe calor. Mas, atenção! Esta virtude deve ser expressão de espíritos livres e não de psiquismos atormentados. (409)

38
Quando um homem e uma mulher se casam juram amar-se "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença", todos os dias de suas vidas. Esta confissão, que é feita entre música e flores, luzes e perfumes no ar, é tremendamente difícil, tão difícil que muitos casamentos se transformam num penoso calvário. Não descer da cruz, então, pode ser um grande ato de amor, assim como continuar acreditando no outro, apesar das aparências, pode ser o único ato de amor que um pode ainda oferecer ao outro. (404)

39
90% das pessoas acha que o padre deveria se casar. As razões aventadas são todas absolutamente amparadas pelo bom-senso. Pouca gente atina, porém, que mais do que casar-se o importante é ser feliz e sentir-se realizado. O casamento, em si, ainda não é garantia de felicidade e realização. Tanto quanto o celibato é apenas opção de vida com abertas possibilidades de crescimento ou frustração. No fundo, quem quer o padre casado está talvez apenas torcendo por sua felicidade. (398)

40
Bendito seja o dia que nasci e a mãe que me deu à luz! Bendito seja o pai que me apertou nos braços e me chamou de "filho"! Bendita seja a vida que recebi e o ar que me sustenta! Bendito seja o caminho que já fiz e o dia-de-amanhã que a graça de Deus me concede! Bendito seja o sangue que corre em meu corpo e o coração que pulsa por amor! Bendita seja a luz de meus olhos e a vontade que sinto de viver! E bendito seja, principalmente, a vontade de fazer o bem e o perdão de Deus que sinto mesmo fazendo o mal. (404)

41
Na pregação de seitas fundamentalistas, o demônio é apresentado como alguém que, essencialmente, deseja e trama, dia e noite, o mal aos outros. Este seria seu passatempo infernal e eterno. Mas a natureza mais trágica do diabo não reside no mal que procura fazer às pessoas, mas no bem que está impossibilitado de fazer a si mesmo. Ele é um ser tão dividido, uma criatura tão multifacetada que perdeu totalmente a identidade divina. É esta a sua infelicidade, a sua tristeza e a sua desgraça. (407)

42
Talvez se possa dizer que o discurso da Psicologia pode levar a pessoa a Deus através de um duplo caminho: o da análise de suas frustrações radicais (ela se sentiria de tal modo incapaz de realizar-se que só em Deus encontraria uma resposta para seus anseios) e do desejo erótico de plenitude (neste caso, Deus ser-lhe-ia a plenitude que ela busca de complementação absoluta e perpetuação de vida). Como ciência, a Psicologia não faz o discurso de Deus. Como caminho, pode abrir-se para Ele. (408)

43
A experiência de Deus é feita essencialmente por dois caminhos: o do bem, da virtude, da graça, da alegria de viver, do perdão e do sol, como do pecado, da insuficiência radical, da opressão do mal, da cruz, do abandono e das trevas, onde a pessoa experimenta angústia e tem mil perguntas sem respostas, além da boca seca e o coração apertado. Os dois caminhos são, em si, bons e apontam para Deus. Triste seria se o caminho deixasse de ser apenas caminho e se transformasse em casa sem endereço. (407)

44
O que Deus deseja para a pessoa humana é a superabundância de vida porque Deus, por natureza, não é pequeno e cria sempre como transbordamento de sua graça que é vida plena. O Antigo Testamento, senão mais que o Novo, apresenta a vida como o supremo valor a ser buscado, defendido, amado e honrado, por ser extensão e imagem do próprio Deus. Feri-lo seria desgraçar-se como Caim, perdendo-se sem descanso pelos caminhos do mais trágico desencontro e fazendo-se maldito para sempre. (401)

45
O apóstolo Pedro, com a impulsividade de seu temperamento, confessou, certa vez, que daria a vida por Cristo. Jesus, em contrapartida, pediu que ele e os outros se amassem com todo o coração. Isto parece infinitamente mais simples, mas é, no entanto, tremendamente difícil. Mais valem pequenos gestos feitos com amor, sem teatralidade. Mais do que a morte espetacular, Cristo pede a mortificação do amor caseiro, quase desapercebido, mas infinitamente mais nobre e verdadeiro. (403)

46
O evangelho não é uma mensagem restrita apenas a um tempo, mas a condensação mais excelente da revelação de Deus para todos os tempos. Ele é uma escola de verdadeira humanidade, no qual se destacam alguns grandes valores, como a dependência humana de Deus, a nossa impotência radical, a coragem e alegria de viver, o seguimento a Cristo, o amor aos semelhantes, o esvaziamento do eu, o caráter absoluto da esperança e a prioridade do amor sobre a lei. Sobre todas as leis dos fariseus. (401)

47
O critério para o envolvimento humano com a realidade pode ser expresso nesta simples formulação: É mais importante a pessoa sentir-se desafiada pelas exigências que lhe são propostas do que pelo atendimento aos desejos que a movem. Em outras palavras, é o outro a medida objetiva, verdadeira e sadia da vida. Quanto mais uma pessoa procura atender às carências alheias, mais vê diminuídas as suas, encontrando seus desejos as respostas que tanto buscam. Isto seria puro evangelho. (405)

48
Corre-se o sério risco de, por querer amar totalmente a Deus, amar menos as criaturas. Ora, não se pode amar menos a quem Deus ama totalmente. Não há incompatibilidade, embora haja dificuldades, entre um amor e outro. Com o único coração que tem, a pessoa é chamada a amar sem fissuras ou demérito de Deus ou do próximo. Quem viesse a amar a um mais do que a outro, cairia numa esquizofrenia irreparável. O amor, como a morte, só conhece o advérbio totalmente ou a confissão "para sempre". (402)

49
A pessoa humana não é um projeto falido ou um rebanho conduzido definitivamente ao matadouro. Desde que Deus a moldou à sua imagem e semelhança e desde que lhe deu seu Filho como redentor, ela passou a ter como natureza o próprio mistério de Deus e como destino a casa do Criador. O pecado é desvio de rota, mas não pântano de perdição, a menos que a pessoa o escolha como endereço de vida e morte. Nos demais casos, o pecado é somente erro e esquecimento da própria natureza e do projeto original. (406)

50
Maldito o homem que, sem escrúpulos, vilipendia a dignidade alheia! Maldito o homem que trai e machuca, que se pavoneia e manga da modéstia dos simples! Maldito o homem que abusa de adolescentes, amarfanhando nelas a flor entreaberta do amor! Maldito o homem que explora os humildes, pisoteando a graça da esperança! Maldito seja o homem violento que amordaça os sonhos de paz! Mas mais maldito seja quem desrespeita uma criança e não deixa que brinque e seja apenas uma linda criança! (404)

51
A melhor e mais completa definição de pecado é esta: pecar é não ser como Cristo. Em contraposição, existe o ideal de santidade que São Paulo tão bem definiu em suas Cartas: "Para mim, viver é Cristo"; "Já não sou eu quem vive, mas é Cristo quem vive em mim"; "Quero ter os mesmos sentimentos de Cristo". Porque ninguém é tão perfeito e santo quanto Cristo, todos somos, em verdade e fundamentalmente, pecadores e nossa oração de todos dias deveria ser: "Senhor, tende piedade de nós". (400)

52
A Tradição sempre viu na cruz o grande sacramento de salvação e o modelo do verdadeiro modo de ser humano. E não duvidou em proclamar que "a principal e verdadeira razão da esperança cristã é a cruz de Cristo". Não obstante, quão difícil é aceitar o Cristo da cruz e abraçar as cruzes da vida! O ser humano, mesmo sofrendo desde o berço até ao túmulo, parece alérgico ao sofrimento. E, no entanto, todo sofrimento, aceito com amor, é redentor para os outros e fermento de crescimento para nós. (405)

53
Se pudéssemos, baixaríamos um decreto extinguindo a morte. Morremos porque não dá para continuar vivendo. E, ao morrer, mesmo relutando, mas iluminados pela fé, damos um grande salto no escuro e começamos a viver divinamente. Na verdade, a morte nasce e vive conosco e morrer é um ato de libertação de sua presença incômoda. No céu, não haverá nem lágrimas, nem sofrimento nem doença, limitações ou morte, mas só alegria e paz, festa e dança, vida que não acaba e felicidade sem fim. (401)

54
Há coisas que são importantes e outras que são absolutamente urgentes. Por experiência, sabemos que nem tudo que é importante tem urgência, mas o que é urgente tem, em geral, sua importância. E precisa ser atendido para evitar um insuportável mal-estar. Quando as coisas urgentes são dos outros devem ser preferidas mesmo às expensas daquelas que são importantes para nós. Isto porque a maior importância, e sempre a mais urgente, é a de viver de coração aberto para os outros. (398)

55
Há pessoas que passam pela vida numa fuga simulada em relação a Deus. No fundo, elas têm, quase sempre, sentimentos religiosos, mas relutam em alimentar uma vida de intimidade com Ele. Voltarão, com certeza, conscientemente para Deus no fim de suas vidas ou na hora da morte, quando fugir dele seria trágico e pouco coerente. Na verdade, o ideal seria ir-se preparando, ao longo da vida, para o encontro definitivo com Ele. Deste encontro nada se tem a perder. Só a ganhar, e muito. (399)

56
O céu é o lugar da eterna festa e da graça plena de viver. Nele, ninguém viverá isolado, com limitações entristecedoras, como doenças, lágrimas e com medo do futuro. Pelo contrário. O céu será uma plenitude que encherá de gozo e felicidade os seus agraciados. Há quem se pergunte como será o céu. Talvez seja inútil sabê-lo agora. Basta ter a garantia de que Deus será tudo em todos e que cada pessoa terá tudo com todos. O mais é curiosidade que a surpresa do céu satisfará à saciedade. (399)

57
O pudor é uma qualidade pouca apreciada em nosso tempo. Não se trata de um pudor que é irmão-gêmeo de uma vergonha repressiva e inibidora, e que tem fortes componentes de medo de rejeição. Não! O verdadeiro pudor se alicerça sobre um espírito maduro que se faz respeitoso e que preserva a pessoa diante da facilidade de se amesquinhar pela vulgaridade. Este pudor espiritual é irmão-gêmeo da modéstia, é sensível e autêntico, não enfraquecendo na pessoa sua dignidade e pureza. (398)

58
O pobre é a dimensão crucificada do nosso seguimento a Cristo, o homem das dores. É fácil discursar sobre ele e amar os pobres como categoria social. Difícil é dar tempo e atenção ao pobre que jaz na frente da porta de nossa casa ou vive atravessado em nosso caminho. Este nos desafia e não pode ser negado, traído ou eliminado. É missão cristã e uma honra espiritual assumir com o pobre o seu destino, protegendo sua dignidade, para que não amaldiçoe a vida e creia na providência de Deus. (401)

59
Os sentimentos são energias que caraterizam os comportamentos, dão colorido à vida e são como quê a música da alma. Mas não podem ser o centro do coração nem determinar as ações humanas. Quanto aos sentimentos, dois extremos devem ser evitados: Não podem ser castrados sem trágicas conseqüências, nem se deve conceder-lhes uma soberania absoluta. Eles não podem ser nem déspotas nem escravos. São forças, importantes e benquistas, e podem, ao mesmo tempo, ser bênçãos e tiranetes. (404)

60
Como todos gostamos de uma pessoa educada e simpática, calorosa e acolhedora! Como todos gostamos de uma pessoa que nos olha bem no fundo nos olhos e nos abraça com o coração! Como todos gostamos de uma palavra amiga, de uma consideração respeitosa, de um gesto desarmado! Como todos gostamos de uma amizade desinteressada que nos é dada sem cobranças e atropelos! Como todos gostamos de um pouco de silêncio e de dois dedos de trela! Como todos gostamos de quem sinceramente gosta de nós! (405)

61
O divórcio pode ser a saída para tantos casamentos dolorosamente conflituais, mas será sempre a confissão de um fracasso e a declaração do fim de um sonho frustrado. Bem agiu o Rabino que pediu aos dois que queriam se divorciar: "Vocês começaram a vida-a-dois com uma grande festa. Dêem agora uma grande festa para celebrar a separação e sua possível libertação". Não resistiram à idéia. De olhos abertos, preferiram continuar juntos, mesmo fazendo outras festas sem a graça da primeira. (408)

62
Por que pode o amor, às vezes, ser tão cruel com as pessoas amadas? Por que uma mãe pode tratar tão mal uma filha, fazendo-a não só chorar, mas viver triste e desesperada? Por que um homem pode tratar tão mal sua mulher, carne de sua carne, osso de seus ossos? Por que há pessoas que se comprazem em diminuir seus semelhantes, deixando-os em estado de choque e arrasados? Por que vizinhos se desejam o mal? Por que pais e filhos não se perdoam? Por que irmãos brigam com irmãos? Por quê, meu Deus? (404)

63
Há pessoas que têm muita religião e pouca fé: vivem dentro das igrejas. Há outras que, vivendo fora, têm grande fé e nenhuma religião. As primeiras são, em geral, tristes e azedas, críticas e condenatórias. Falta-lhes doçura de espírito e misericórdia no coração. Mas Deus sentenciou: "Não quero gente penitente. Quero gente com ternura". Chego a pensar, às vezes, que Deus gosta mais de um pagão que tem um grande coração do que de gente religiosa que vive em permanente mau-humor. (402)

64
Um sábio anotou que as pessoas, em geral, são sensatas. Poucas, no entanto, seriam sensíveis. A sensibilidade é qualidade do coração que agasalha com ternura os relacionamentos humanos. Pessoas sensatas são lógicas e corretas, mas duras e cobradoras. Julgam sem piedade e não perdoam facilmente. Trabalham bem, mas não são boa companhia. Podem até ser heróicas e dignas de aplausos, mas falta-lhes alegria espiritual e não sabem dançar. São zelosas, mas com pouco carinho pela vida. (407)

65
Shakespeare afirmou que não há ventos favoráveis para naves sem rumo. Quantas pessoas se encontram, sozinhas, à deriva! Os ventos da provação e da fortuna estão soprando, mas elas não sabem como aproveitá-los, pois não conhecem o destino das próprias vidas. Bracejam bravamente, cansam-se sem tréguas, mas, sem lucidez, não chegam a lugar nenhum. Perdidas, não experimentam nem paz nem consolo. Na verdade, não é importante acertar sempre, mas, sim, não perder o rumo da Casa do Bem. (406)

66
Um dos grandes equívocos das tentativas humanas consiste em querer ser alegre. E, por querê-lo, a pessoa pensa em poder apoderar-se da alegria. Coloca-se, por isto, com armas e bagagens, meio quixotescamente, em seu percalço, animada pelo fascínio de tão suspirada utopia. Ledo engano! A porta da alegria fecha-se para dentro e quanto mais nos lançamos contra ela mais a fechamos. A alegria só floresce nos caminhos do bem. Só os bons a experimentam, conquistando-a sem querer. (401)

67
Frei Patrício estava à morte, numa cama de hospital, com um aviso à porta de seu quarto: "Visitas proibidas". Médicos e enfermeiras passavam pelo corredor e tocavam a porta, confessando: "É um santo. De seu quarto sai uma força que se irradia por todo o hospital". Lembrei-me de Jesus ressuscitado que entrou e saiu do Cenáculo estando as portas fechadas. Para os santos não há portas. Apenas uma força irradiante de bem que se faz luminosa para os que passam pelos corredores da vida. (402)

68
A evangelização conhece duas tentações: uma espiritualizante e outra socializante. Os espiritualizantes correm o risco de ficar aquém do clamor de justiça que cada vez mais sobe da sociedade ao céu "tumultuoso e impressionante". Os socializantes podem pecar por nem sempre explicitarem convenientemente a dimensão religiosa em seu zelo pelos marginalizados. Em ambos os casos, quem sofre é a fé que deve ser vivamente espiritual e absoluta e profundamente libertadora. (399)

69
Quem reclama do sofrimento não é, em geral, um grande sofredor. Quem sofre, de fato, as agruras da vida ou carrega o peso de uma grande cruz, tem normalmente grande dignidade. Nos outros, o proclamado sofrimento faz parte de um lamentável exibicionismo. Neles, a cruz não é cruz, mas palco para o desfile de doentias vaidades. Em tais pessoas, sofrer não leva ao amadurecimento. Buscam apenas comiseração, ao custo de uma insuportável chateação que causam nos outros. Tristemente. (403)

70
Creio que o perdão é mais forte do que a ofensa e que mais vale perdoar com alegria do que condenar sem piedade. Creio que a mais capenga democracia ainda seja preferível a mais ordeira ditadura. Creio que a mais dolorosa sinceridade ainda seja melhor do que a mais sofisticada mentira. Creio que mais vale a dignidade de um mendigo do que a arrogância de um poderoso. Creio no milagre da vida e na misericórdia de Deus. E creio na solidariedade dos bons, na força da esperança e no dia de amanhã. (406)

71
A oração abre a pessoa para o céu sem fechá-la para a terra. Na bíblia, rezar quer dizer derramar o coração diante de Deus. Mas este coração não chega vazio. Pelo contrário, ele se derrama cheio de terra, isto é, com alegrias e tristezas, esperanças e desilusões, pois isto é a nossa terra. É nesta terra e com ela que vivemos e rezamos. Se dizemos: "Pai nosso, que estais no céu", também acrescentamos: "O pão nosso de cada dia dai-nos hoje!" Assim é nossa oração: cheia de céu e cheia de terra. (405)

72
"Quem trabalha e mata a fome não come o pão de ninguém, mas quem ganha mais do que come sempre come o pão de alguém", pregava o Tião das Galinhas na novela "Renascer". Ou como afirmava um motorista de táxi: "Se só posso comer dois bifes por dia, por que me matar por dez?" A vida tem e cobra limites. Ao desrespeitá-los, a natureza se vinga e o coração humano padece, perde a paz e se incapacita para os desafios do amor. Ser moderado não é preguiça. É virtude e tem como fruto a paz e a felicidade. (402)

73
O evangelho não chega a condenar o rico por suas riquezas, mas o censura por colocar seus tesouros onde as traças os corroem e os ladrões os roubam. Critica-o pela dureza de seu coração e por não partilhar seus bens com os necessitados. O rico é condenado por enterrar seu coração em tesouros materiais e por não aplicar seus talentos a serviço do Reino e no bem aos outros. Quem assim procede não passará pelo buraco estreito da agulha nem conhecerá as alegrias das verdadeiras riquezas. (403)

74
Viver superficialmente é, por um lado, agradável (não requer grandes esforços) e, pode ser, por outro, trágico. O mundo do entretenimento, aliás, é farto em mascarar a seriedade da vida com pitadas irresistíveis de humor. Usa do expediente das brincadeiras sem conseqüências que desembocam, não raro, em becos sem saída. Os gregos definiam a vida como trágica, isto é, séria e comprometedora. Só seus heróis gozariam, finalmente, do aplauso dos mortais e do Olimpo dos deuses. (401)

75
Crer na vida não é, necessariamente, inventar um sentido especial para os acontecimentos, mas descobrir o sentido essencial que os acontecimentos têm. Há pessoas que passam a vida tentando explicá-la, sem se dar conta de que o dia-a-dia apenas lhes cobra uma quota de envolvimento e disposição para seu trabalho e criação. A vida, que por seu mistério pode ser uma interrogação, é por sua graça um convite para nossa participação. Não envolver-se seria adulterar a beleza da vida. (402)

76
As religiões são capazes das maiores barbaridades e de barbaridades pequenas que são seu pão de cada dia. Explorando a ignorância e as carências do povo, pastores inescrupulosos, com dois dedos de conhecimentos e muitos metros de ambições, não passam, como diz o evangelho, de guias cegos que conduzem seu rebanho para o precipício. Como falsos profetas, a inconsistência de sua pregação tem o mesmo tamanho de suas contas bancárias. E o povo é quem paga o dízimo de sua fé pouco esclarecida. (410)

77
O espírito humano tem o dom de se deixar sensibilizar pelo mundo dos valores, abrindo-se para o fascínio dos grandes ideais. Educar uma criança, dar o melhor de si no trabalho, lutar pela justiça e cidadania, criar condições humanas de entendimento entre as pessoas, amar e defender a verdade, opor-se a tiranos insolentes e combater a corrupção e a impunidade são altos valores espirituais. E pessoas que lutam por estes valores e os vivem na prática ostentam grande espiritualidade. (406)

78
Completa seria a pessoa que vivenciasse as três grandes dimensões essenciais da aventura humana. Apresentaria uma intensa vida interior, vivendo em paz consigo mesma; consagraria seu espírito aos grandes valores da vida, fascinada com os altos ideais da sociedade e da história; e, finalmente, reconheceria a grandeza de Deus e sua dependência dele. Tal pessoa seria plena e uma bênção para os outros e digna de todos os aplausos. E sentir-se-ia certamente realizada e feliz. (401)

79
Sempre que as pessoas entram em grave crise, começam a sonhar com a descoberta de uma mensagem salvadora que as libertem do impasse angustiante de ter que viver sem descer da cruz. Trata-se da utopia do assim chamado "quinto evangelho", que teria sido escrito, mas foi perdido. Ora, este "quinto evangelho" nós é que temos de escrevê-lo com discernimento e coragem, como resposta aos desafios da vida e à vocação de grandeza que temos. Ele só estará perdido se o perdermos por covardia. (404)

80
Abençoada seja a pessoa que cuida dos jardins e canta com os passarinhos! Abençoada seja a pessoa que ri com os palhaços e dança com os bailarinos! Abençoada seja a pessoa que constrói pontes e abraça com seu perdão o inimigo! Abençoada seja a pessoa que sorri com os olhos mesmo quando lhe rolam lágrimas pelo coração! Abençoada seja a pessoa que abraça com coragem o desafio e a cruz de viver! E abençoada seja a pessoa que, mesmo desaprovando o pecado, abençoa com generosidade o pecador! (405)

81
Os fariseus rezam e dão esmolas, lêem a Bíblia e fazem penitência... para salvar-se. Pensam que, por fazer o bem, estão justificados, com direito, inclusive, a julgar e condenar os demais. Ledo engano! Esquecem-se do que sabiamente disse Paulo Freire: "Ninguém salva ninguém. Ninguém se salva sozinho. O homem só se salva em comunhão". E se esta comunhão se realiza sob a bandeira de Cristo, ele será o salvador e a justificação diante de Deus pelos pecados e pela impotência humana. (403)

82
Há profissões de alta sublimidade. Permito-me destacar a do professor. Educar não é simplesmente passar conhecimentos, mas trocar corações. A educação é uma obra de amor. O verdadeiro educador cinzela, com mãos especiais, o caráter de seus alunos e constrói, através deles, as certezas futuras e os destinos de um povo. E que recompensa terão os educadores pela dedicação e grandes renúncias de sua profissão, senão a de, uma vez esquecidos, ainda se lembrarem de seus alunos? (400)

83
A pessoa não foi feita só para a solidão, mas não pode viver sem momentos de profundos silêncios. Eles alimentam seu mundo interior e a enriquecem em sua comunhão com os outros. Momentos de solidão e recolhimento são fundamentais para a preservação da própria individualidade e equilíbrio da personalidade. Sem estes momentos, corre-se o risco de superficializar os relacionamentos, enfraquecer nossa participação social, perdendo a pessoa o rumo dos grandes projetos de vida. (404)

84
O mestre Tristão de Athayde cunhou uma dúvida cruel: "Vivo preocupado em não confundir meio-termo com mediocridade". O meio-termo é, em geral, virtude e pode significar respeito e sabedoria. Mediocridade, não! Mediocridade é falta de apetite, de coragem, de aceitação da tragédia e graça de viver. Quem aceita o meio-termo demonstra dúvidas. O medíocre se comporta sem paixão. A diplomacia do meio-termo é criativa; a do medíocre é tristemente acomodada, sem graça e estéril. (402)

85
Uma das tentações humanas diante de Deus é o de querê-lo a serviço de suas urgências que não passam, às vezes, de pequenas esquisitices. Quando não atendidas, a pessoa, além de frustrada, arroga-se o direito de vituperá-lo. Nada mais impróprio e impertinente! Como se Deus fosse um criado sempre a postos para atender nossas precisões! Diante de Deus, somos pobres mendigos e não senhores, adoradores de sua santidade e não mandatários de suas graças.A Ele devemos louvar e não dar ordens. (409)

86
Estava escrito numa camiseta: "Não me amarrote! Não me rasgue! Não me mutile! Sou gente!" Dentro desta formulação simples e chocante está presente um grande medo e uma súplica de respeito à vida, de qualquer vida, por mais pobre e insignificante que seja. Trata-se de um altíssimo serviço à vida ajudar às pessoas a não serem amarrotadas, rasgadas ou mutiladas. Viver, simplesmente viver é a aspiração mais insopitável do ser humano. O contrário seria seu mais tenebroso pesadelo. (403)

87
A vida é assim: as coisas se sucedem e as graças se multiplicam. Saímos de um minuto para o outro e todos somados formam "nossa história", que pode ser mais ou menos bonita. Nunca nos faltarão forças para transformá-la num campo de trigo. Poderá, infelizmente, faltar-nos coragem e lucidez para evitar que se faça um campo de joio. Mas, enquanto vivemos, temos chances de ser, para os outros, ou uma terra prometida ou um deserto árido e amedrontador. Um milagre ou uma triste decepção. (403)

88
O diabo existe mas não é onipotente. Os anjos do mal foram e são vencidos pelos anjos do bem. Não podem fazer o mal, se o coração das pessoas se ocupa com as obras de Deus e está cheio de bons desejos. O demônio só atua no vazio do bem, só fica forte quando nos fazemos fracos. Quem confia em Deus é vencedor. Quem se acovarda torna-se presa fácil das forças do mal. A melhor forma de vencer o demônio é viver para os outros, honrando o criador da vida. Caso contrário, o diabo faz seus estragos. (400)

89
A Espiritualidade afirma que os anjos são mensageiros de Deus e nossos companheiros a serviço da vida e do bem. Protegem-nos nas dificuldades e inspiram-nos em momentos de decisões importantes. Os anjos não fazem milagres, mas despertam-nos para o milagre da vida que já existe. Eles moram dentro dos sentimentos bons que nos estimulam e que nos tornam pessoas simpáticas e amáveis, justas e fraternas. O bem que, então, fazemos parece dar-nos asas e cara de anjos e uma alegria do céu. (405)

90
Maldito seja o homem sem princípios que impõe seus desmandos aos fracos e covardes! Maldito seja o homem de coração empedrado que submete aos seus caprichos os sonhos dos simples de coração! Maldito seja o homem astuto que vende sua mentira com ares de verdade! Maldito seja o homem prepotente que garroteia o espírito de festa do povo! Maldito seja o homem mesquinho que não suporta a grandeza dos outros! E maldito seja o homem sem alma que mata, nos outros, a alma e a alegria de viver! (402)

91
O pudor autêntico resguarda o santuário da privacidade da pessoa, unifica e solidifica suas opções. Tal pudor é força defensora e preservadora da pureza e dignidade da pessoa. Atua como antídoto contra o exibicionismo desbragado que desagrega o eu em suas definições. Assim entendido, o pudor é virtude e componente necessário na formação de uma personalidade bem estruturada e madura. Ser pundonoroso não é defeito, é fonte de alegria e sinal de fidelidade aos nossos amores. (401)

92
A Igreja não é um partido político nem um congresso de peritos, não é um sindicato que defende os interesses de uma classe nem um clube que promove benemerências entre seus afiliados. Ela é, essencialmente, um Povo em busca de uma Terra Prometida, caminhando na História sob a luz de seu Fundador e sob a proteção de seu Deus. Tudo que se afastar disto é fanatismo e sectarismo que mais cria inferno do que promessa de céu. As religiões devem celebrar a fé sem ser um território minado. (399)

93
O relativamente curto mas intenso período, passado pelos apóstolos com Jesus, se esboroou melancolicamente diante do expediente democrático empregado por Pilatos de propor à turbamulta a condenação ou soltura de Jesus e/ou Barrabás. Todo o sonho messiânico zerou-se na incoerência selvagem dos gritos do povo e na sentença inapelável do Procurador romano. Assim terminou a trajetória humana da vida de Cristo: curta, cheia de sonhos e numa grande frustração. E a nossa que fim terá? (408)

94
A sexualidade marca a pessoa da cabeça aos pés, por dentro e por fora. Não dá para não ser ou homem ou mulher. As caraterizações anatômicas desta definição podem até ser consideradas relativas. O que importa é a definição, em si. E cada pessoa encontra nela sua glória e desafio. É bom ser um ou outro, no esplendor desta definição, na insuficiência desta caraterização. O outro ou a outra que não somos nós será sempre o grande grito que cada qual carregará em si como sonho de complementação. (407)

95
A Igreja encontra na evangelização "sua glória e alegria", pois esta é "sua missão essencial". Evangelizar significa anunciar a salvação de Deus, comunicando às pessoas que Deus quer salvá-las sem cobrar-lhes neuroticamente virtudes e pureza moral. Já que só a graça de Deus é salvadora, ninguém se salva por esforço pessoal. A Igreja, por isto, é evangelizadora na medida em que consegue colocar traços da Santíssima Trindade na consciência e no rosto da sociedade. (393)

96
Sem ser pessimista e evitando exageros, vivemos numa sociedade ainda mergulhada em grande desesperança, sem pão e igualdade de condições para todos, muito distante ainda do verdadeiro sonho de uma Terra Prometida. Vemos muita miséria e pobreza e nosso Cristo ainda caminha em direção ao calvário. Somos uma sociedade injusta. Fazemos festas e somos alegres, mas temos muitas razões para lágrimas. Nestas condições, torna-se difícil para o povo cantar a seu Deus. Mas é imperioso. (405)

97
Porque vivemos numa sociedade visceralmente injusta, na qual poucos têm muito e a grande maioria tem tão pouco, "temos obrigação - dizem os Bispos Latino-Americanos - de anunciar a libertação de milhões de seres humanos, o dever de acelerar esta libertação, de dar testemunho e garantir que ela seja total". Caso contrário, o anúncio das igrejas seria hipócrita e ofensivo ao Deus da vida. Deus não pode abençoar o pecado da miséria, a ofensa da fome, as lágrimas do desespero, a dor da morte. (410)

98
Não se pode conceder aos sentimentos o descontrole despótico de seus impulsos nem negar-lhes a cidadania de sua existência. No primeiro caso, a pessoa tornar-se-ia vítima de sua glutonice e, no segundo, a rigidez insossa de uma mentira. Há os que tentam disfarçá-los, negá-los ou, até, enterrá-los. São atitudes erradas. Os sentimentos devem ser cultivados, alimentados e regrados. São importantes, mas não são senhores. São uma graça, mas não podem infelicitar a seus donos. (402)

99
Normalmente, a pessoa viaja, em seus compromissos, sobre dois trilhos: o da luz e o das trevas. Nem tudo é luz e certeza. Nem tudo são trevas e dúvidas. Somos perpassados por uma inconsistência básica que nos faz, ao mesmo tempo, dor e alegria, aurora que brilha e noite que nos embaralha. Em outras palavras, não somos só céu ou só inferno. Nossa realidade está mais para purgatório, que purifica os sonhos que temos e nos cobra, para sermos felizes, uma dolorosa quota de renúncia e grandeza. (408)

100
Aplaudam os que amam a vida e vivem com alegria sem medo dos lobos! Aplaudam os que abraçam a cruz e não fogem do calvário! Aplaudam os que crêem no amor e aceitam as conseqüências de amar! Aplaudam os que constróem a paz e opõem-se aos tiranos! Aplaudam os que têm fé e vivem suas convicções! Aplaudam os que defendem o milagre e a festa da vida! Aplaudam os que sofrem sem revolta e vivem sem cobranças! E aplaudam sempre os que nascem com esperança, vivem com confiança e morrem sem desespero! (405)

101
O casamento pode ser a aventura mais maravilhosa do mundo ou o mais entristecedor entrevero. Dependerá muito do grau de maturidade com que o homem e a mulher nele se portam. Se um deles for psicologicamente imaturo ou apresentar um espírito anêmico e for, por isto, egoísta e acomodado, a relação se ressentirá gravemente e o casamento se arrastará, para desconforto comum, penosamente. O casamento é via de mão dupla. Só dois bons motoristas conseguem evitar trombadas fatais. (400)

102
O amor tem mil definições. Camões se expressava assim: "O amor é um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê". Bonita definição ou mero jogo de palavras? Cristo já foi mais preciso e definitivo: "Não há maior amor do que dar a vida por quem se ama". Entre uma definição e outra, correm as alegrias do amor e a dor de amar que têm um mesmo objetivo: realizar e tornar plenas as pessoas que amam, porque é, pelo amor, que as pessoas atingem seu máximo desabrochamento. (405)

103
A sociedade cobre muito mais a mulher de estereótipos do que o homem. Diz-se que é "o que há de mais bonito", seria uma rainha, de quem se decanta a "beleza, o charme e o veneno". Atrás de um grande homem haveria sempre uma grande mulher, e assim por diante. Mas a mulher continua ganhando pouco e mal, tem que lutar por direitos lógicos e naturais e só, excepcionalmente, é reconhecida como igual ou superior. Por quê? Não seria porque os homens falam muito, mas crêem pouco no que dizem? (400)

104
A preocupação da Igreja pelo homem é um "autêntico compromisso evangélico". Há os que opinam que o lugar da Igreja é na sacristia. Não é verdade. À Igreja cumpre estar onde a pessoa humana vive e está em perigo e posicionar-se em favor dela, mesmo às custas de uma tranqüilidade que lhe seria mais cômoda. A libertação é intrinsecamente religiosa e altamente espiritual. Lutar pelo homem dignifica a Igreja, honra a Deus e legitima a fé que se faz autêntica nas obras que a Igreja realiza. (404)

105
A vida não é feita, normalmente, com a retumbância dos gestos heróicos, mas se processa pelas modorrentas planuras duma inalterada rotina, onde tudo se apresenta com a marca monocórdica de velhas e conhecidas músicas. Dizer sim, em tais circunstâncias, significa abraçar, pacientemente, com renovada criatividade, a rigorosa falta de novidade de uma história que dói e se esconde no sem-sabor do tram-tram diário. Tal história pode não ser grandiosa, mas engrandece quem a vive. (405)

106
O homem é apenas um habitante a mais no grande cosmos de Deus e a ecologia, que nasceu como ciência que zela pelo equilíbrio entre os seres vivos e o meio-ambiente, deveria transformar-se, numa visão mais ampla e espiritual, numa ecosofia, ou seja, na sabedoria de um relacionamento entre tudo quanto existe. Se a ecologia propugna pelo respeito entre os diversos seres, a ecosofia proclama a existência de um laço íntimo de fraternidade entre eles. E lhes dá um único criador e patrão: Deus. (409)

107
O que traz a idade de bom? Traz mais condescendência diante das peraltices e sonhos ainda verdes das outras idades. Traz uma maior aceitação das pessoas sem cobranças descabidas. Traz a política do "viver e deixar viver" e a sabedoria de relativizar, com certo bom-humor, os aspectos trágicos da vida. Traz o dom da liberdade e um apreço maior pela vida. Traz menos pressa e mais profundidade. Traz um sorriso aos lábios e paz ao coração. E traz uma bênção nos olhos para os filhos e netos. (404)

108
A vida nos pede que sejamos verdadeiros, que digamos o que sentimos, que professemos o que acreditamos e demos a vida por nossa fé. E que, por fim, aceitemos e vivamos as conseqüências de nossas escolhas, sem tergiversar e sem condenar os outros. Isto nos tornará, ao mesmo tempo, verdadeiros e vulneráveis. Mas a vida não nos quer onipotentes e encastelados, pois isto faria de nós uma mentira. Ser vulnerável é uma graça: uma graça de amor e humanidade, a marca maior e perene da nossa verdade. (410)

109
Corpo e espírito formam a graça da criação humana de Deus. Somos corpo espiritualizado ou espírito corporificado. Uma espiritualidade legítima não comporta nenhuma exacerbação desta unidade básica. Não se pode, por isto, nem inflacionar o espírito nem privilegiar a ditadura do corpo. Vivemos para os outros e reverenciamos a Deus... com corpo e espírito. Quem privilegiasse ou o corpo ou o espírito não seria nem maduro nem completo, mas fomentaria algum desequilíbrio malsão. (405)

110
Basta de enfrentar a realidade com a medida de rasteiros interesses particulares! Basta de perder tempo com coisas insignificantes, quando a vida está a exigir coragem e grandeza! Basta de violência, de explorações de todos os tipos, de roubalheira generalizada! Basta de corpo mole, de dedos-duros, de aduladores detestáveis, de fariseus disfarçados de santos e de santos chorando a morte da bezerra! E basta, principalmente, de xingar os outros e de posar como salvador do mundo! (405)

111
Deus é o Totalmente Outro, isto quer dizer, não é uma criatura, um ser como os que conhecemos. Só podemos conhecê-lo por via negativa, como contraposição aos demais seres. Se o homem é finito, Ele é infinito; se somos pequenos, Ele é grande; se tudo o que existe se destina à morte, Ele é eterno. Por um lado, Ele é inaferrável e ininquadrável. Por outro, a pessoa O sente, O compreende, pois foi feito à sua imagem e semelhança. Diante dele, o silêncio é mais apropriado do que o discurso. (401)

112
A mulher é o grande grito que os homens carregam escondido no coração e está evidente em seus olhos. Para os homens, ela é a mais tentadora vocação. Não dá para negar o clamor de seus corações nem menosprezar sua graça e beleza. Tratá-la com carinho e elegê-la como companheira de destino é imperioso e fonte de felicidade indizível. Ela não é só o endereço que os homens não podem nunca perder; ela é também o paraíso perdido do qual os homens sentem saudades e a promessa de uma terra sem males. (406)

113
Diante do coração não é fácil posicionar-se. Alguns, neuroticamente, tem medo dele, enquanto que outros, infantilmente, sugam com avidez os peitos dos próprios sentimentos. Os primeiros revestem-se normalmente de insensibilidade, abjurando suas manifestações. Os segundos, por seu turno, vivem ao sabor de um sentimentalismo doentio e dependente. Em ambos os casos, uns por medo e outros por intemperança, se machucam inutilmente e adulteram a fonte do verdadeiro amor. (402)

114
Todas as infelicidades humanas advêm deste fato simples e fundamental: a pessoa não quer servir à vida, mas dela usufruir. Volta-se, então, neuroticamente, para os outros ou situações que tenta, em vão, domesticar. Esquece-se ela não ser senhora da existência, mas tão somente agraciado fruto de um milagre imerecido. Esquecendo-se deste fato, entroniza-se em altares à espera que o mundo dobre os joelhos aos sonhos de suas ambições que, infelizmente, têm frágeis pés de barro. (404)

115
Os grandes mestres espirituais fazem depender a saúde espiritual, mais do que de atos externos, da pureza das intenções e da pacificação do coração. Vêem, nas ações exteriores e em afanosos atos de piedade, o perigo de compensações enganosas. Aconselham, por isto, que a pessoa se volte sempre ao coração, para perscrutá-lo com atenção, mas sem ansiedades, procurando guardá-lo puro e serenamente, e sempre manifestando confiança no Deus que é seu hóspede, guia e senhor. (397)

116
A busca da perfeição, em termos de espiritualidade, pode redundar em algo doentio, numa perda de tempo e numa refinada e perigosa luxúria. O homem, ao querer ser perfeito, estaria se manipulando, distraindo-se consigo mesmo, ao invés de voltar-se unicamente para Deus. Em termos mais simples, o homem bom não pensa na bondade. A pessoa digna não se ocupa da dignidade. Assim, a preocupação pela perfeição pode revelar interrogantes sintomas psíquicos, preocupantes e pouco sadios. (406)

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Os princípios básicos da filosofia da não-violência ou da espiritualidade da resistência são: 1) Nunca matar! 2) Jamais ferir! 3) Estar sempre atento! 4) Sempre se unir e se organizar! 5) Agir com firmeza permanente! 6) Desobedecer às ordens que nos podem destruir! 7) Rezar pelos inimigos! A não-violência é uma disposição do coração para acolher com amor qualquer pessoa, onde quer que se apresente, não importando sua roupagem cultural. Ela é a mais alta qualidade do coração humano. (407)

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Ser homem em plenitude e cristão de verdade significa trabalhar o fermento da nova vida conquistada pelo Cristo ressuscitado. Significa ser do partido-da-vida contra os fermentos velhos da discriminação elitista, das opressões injustas, das lutas-de-classe sem perspectivas de reconciliação. Assume, na dor e com dor, a luta contra os sofrimentos desesperados. Tal homem pleno e cristão de verdade embala o sonho da Terra Prometida e proclama o Rei dos reis, o Senhor dos senhores. (408)

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Ouvimos, atualmente, das mais diversas partes, os sussurros das mais sibilinas serpentes que fazem chegar aos nossos ouvidos as tentações enlouquecidas das mais mirabolantes utopias. Dentre elas, a mais danosa, talvez, é a que advoga o homem como o critério de seus próprios caminhos. Mas a pessoa sozinha não chega a lugar nenhum. Sozinhos, somos mendigos de mão estendida para nossa própria pobreza. Só para o outro vale a pena viver. Só ele pode entender o grito de nosso coração. (404)

120
Um homem disse, certa vez, a uma mulher: "Serás minha rainha e serei, alegremente, o guarda de teu jardim". Mas ela era muito jovem e alimentava grandes quimeras. Saiu pelos caminhos da vida, procurando, no horizonte, as flores de seus tresloucados sonhos. De flor em flor, inebriou-se com os perfumes da vida. Um dia, cansada, resolveu voltar. Mas era tarde. Seu jardineiro já tinha partido e ela, desesperançada, ficou contemplando o jardim sem graça e flores de sua vida malbaratada. (407)

121
Em Jesus, Deus fez o que nunca fizera anteriormente: entrou na história humana e armou sua tenda entre nós. Até então, tinham sido os homens que armavam tendas para Deus, levantando-lhe templos pobres ou suntuosos. Em Jesus, foi o próprio Deus que levantou, num corpo humano, um templo para si e uma casa de fraternidade para todas as pessoas. O próprio Deus revestiu-se de nossa fragilidade, acolheu em seu coração nossos sonhos e angústias e se cobriu com as poeiras de nossos caminhos. (406)

122
Perguntado no leito de morte sobre quem seria normal, Freud teria respondido que normal seria a pessoa que ama e trabalha. Pelo amor, ela teria a força de transformar o outro e, ao romper seu isolamento, dar-lhe-ia novas razões de alegria e contornos de felicidade a seus sonhos. Pelo trabalho, transformaria a matéria bruta e a realidade social, comunicando-lhe seu espírito. Nestas duas atividades humanas, amar e trabalhar, a pessoa sai de si mesma e vive para fora, de coração aberto. (408)

123
O homem é apenas arrendatário da terra que pertence a Deus. A ordem é dominá-la e o esforço por fazê-la produzir o encaminha em direção ao "Dia do Senhor", quando "as montanhas destilarão vinho e o leite emanará das colinas" e um irmão terá piedade de seu irmão e não mais devorará a carne de seu próximo. A terra, na visão bíblica, tem alcance comunitário. Ela alerta os poderosos para a fragilidade de seus reinos e recolhe o grito dos pobres, prometendo-lhes que Deus o atenderá. (397)

124
Os ideais ecológicos radiografam o espírito humano, desvendando seus profundos traços divinos e diabólicos. Pode o homem integrar-se fraternalmente no plano divino da criação ou pode perturbá-lo por não ter ainda se encontrado no desafio e conquista de si mesmo. O tratamento fraterno que ele dá aos demais seres evidencia ter ele experimentado, ou não, o milagre inefável da reconciliação consigo mesmo. Com medo de si mesmo, pode ele ferir de morte as demais criaturas. (397)

125
Conhecendo situações trágicas e desumanas, nesta vida, podemos ter uma vaga idéia de como será o inferno, na outra. O inferno é e será a eternização da desgraça de viver e a morte de todos os sonhos de felicidade. Será o lugar da desgraça, de todas as desgraças: do ódio, da intolerância, da inimizade, dos corações empedrados e das mais indizíveis maldades. O condenado girará em torno do próprio eu, devorando enlouquecido e sem paz o próprio coração. E isto, sem amanhã, eternamente. (404)

126
Pior do que perder a fé seria perder a esperança que é a mais importante porta para a graça de viver. O suicida é uma pessoa trágica sem esperança até na própria fé que poderia ter tido. Nada mais lhe sobraria: nem mesmo a confiança no dia de amanhã. Alimentar a graça da esperança é fundamental. Criar condições para que os outros tenham esperança é educá-los para o milagre da vida. E quanto mais esperança alguém tem, mais dele se pode esperar. Sem esperança, morre a fé e até o brilho do sol. (404)

127
Jesus ensina no Sermão da Montanha: "Sede perfeitos como Deus é perfeito". Este conselho evangélico comporta uma altíssima disposição de espírito que projeta a pessoa nos caminhos da misericórdia e santidade divinas, sem retê-la, no entanto, na neurótica atenção à medida dos resultados já alcançados. O verdadeiro homem espiritual não se mede constantemente, preocupado com o grau da própria perfeição. Não é à custa de autoexaminar-se que ele se fará santo como Deus é santo. (403)

128
O ato sexual pode ser tão prazeroso quão problemático, tão plenificante quão frustrante, porque é no sexo que a pessoa passa atestado do grau de sua evolução como pessoa humana. Onde o animal mais se expressa, aí também mais se define o espírito. E só a ternura consegue transfigurar o animal, enquadrando-o no respeito ao outro que é também espiritual. Não basta ser capaz de fazer sexo, é preciso qualificar o sexo que se faz para não desarmonizar a bipolaridade animal-espírito. (401)

129
Por definição, o ser humano é limitado, carente, mendigo. O grande gesto de vida que o carateriza é a mão estendida. Estende-a para o pão que come, para a água que bebe, para o livro que lê, para o amor que tranquiliza seu coração. Ninguém é deus ou soberano, ninguém se basta a si mesmo. Aceitar as próprias limitações, por isto, e amar-se como carente, é expressão de alta sabedoria. O presunçoso, ao contrário, é um pobre revoltado com vergonha de suas carências. É um mendigo infeliz. (402)

130
Peço a Deus a graça do perdão para minhas faltas e a disposição de nunca negar o perdão a quem me ofendeu. Peço a Deus a alegria de viver e o desejo de sempre servir alegremente ao milagre da vida. Peço a Deus sensibilidade para com as carências dos pobres e uma palavra segura para acordar a consciência dos poderosos. Peço a Deus coragem para denunciar o mal e mãos para aplaudir os profetas do bem. E, principalmente, peço a Deus que me dê um coração compassivo para consolar os que choram. (402)

131
Fisicamente é importante manter o tônus do organismo. Psicologicamente, não pode a pessoa perder o tônus de seu equilíbrio. Caso contrário, perderia sua identidade e enlouqueceria. Na vida espiritual e religiosa, vale a mesma exigência que é também importante no dia-a-dia de qualquer comportamento ou atividade. Não se pode esquecer a nota-de-pedal de nossa música vital. Ela, sozinha, não é a música, mas garante o sustento fundamental para a beleza de nossa linha melódica. (403)

132
A pessoa não pode ser um reino dividido contra si mesma. Caso contrário, viverá num inferno sem perspectivas de solução. Quando consegue harmonizar seus conflitos, passa a cantar o sol, como irmão, e rir-se alegremente em plena chuva, descobrindo o segredo da perfeita alegria. Nada mais, então, a ofenderá e ela se tornará incapaz de ofender o mais indefeso vermezinho. Ela e a realidade serão uma só coisa como o peixe e a água. Para ela, sonhar e viver serão uma só e feliz realidade. (403)

133
Não se pode fazer da cruz uma plataforma para dolorismos masoquistas nem para justificar injustiças insustentáveis e relevar passivismos condenáveis. A cruz é instrumento de vida e salvação, e não de morte sem esperança e vida sem promessa. Mas é importante ressaltar: a cruz, como cruz, não salva ninguém. Ela deve ser carregada e vencida pela fé e com amor. Neste sentido, tomar e carregar a cruz pode significar aceitar que nosso amor seja cruz para nós, não se podendo viver sem ele. (405)

134
Concordando com Freud, segundo o qual normal seria a pessoa que ama e trabalha, Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, acrescentou que, para ser totalmente normal, a pessoa precisa também passar pelo aprendizado do sofrimento, porque, enquanto no amor ela transforma o outro e no trabalho a matéria, no sofrimento ela mergulharia no íntimo mais íntimo de si mesma e ali operaria uma transformação que só é possível quando a mão rugosa da dor a purifica, a trabalha e transfigura. (400)

135
Diz um autor francês que o trabalho é uma "emissão do espírito" e a espiritualidade católica afirma que ele é sempre uma "ação pessoal", um actus personae, isto é, algo que envolve a pessoa toda, por dentro e por fora, mesmo quando executado apenas manualmente. Quem trabalha, não importa o que faça, é um criador e um agente de transformação do deserto numa Terra Prometida. Ele alonga no tempo a obra dos seis dias de Deus. Ao embelezar o mundo, o trabalhador embeleza seu próprio mundo. (404)

136
A vida de Nossa Senhora começou com um sobressalto (a visita do anjo Gabriel) e chegou ao seu máximo apogeu com um silêncio doloroso de impotência (aos pés da cruz). Pouco se sabe dela, embora muito se tenha escrito sobre sua figura nos enredos da salvação. Foi uma pessoa única e ímpar, inimaginável para nós, eleita e privilegiada, no entanto, por Deus. Diante dela, talvez, a melhor atitude seja a do sobressalto e silêncio, que é como ficamos, encantados, olhando para nossa mãe. (401)

137
Mesmo quem é religioso corre o risco de escorregar, às vezes, em críticas ácidas contra a Igreja. Nem tudo nela é santo e perfeito. Aliás, longe disto! Mas a nossa querida Igreja faz um bem que as estatísticas não captam e nossos olhos não vêem. No fundo das florestas, nas mais tristes situações, em hospitais e prisões, lá onde ninguém escolheria para viver, ali ela marca uma presença desinteressada e humanizadora. Temos muito a reclamar de nossa Igreja, mas mais, muito mais a admirar. (407)

138
Tanto quanto uma profissão de fé, Cristo é uma experiência de vida. Não dá, por isto, para vivê-lo mais ou menos, em suaves prestações, sem grandeza. Sua cruz foi um desfecho tão inominável que, diante dela, ou se tem a fé encantada do centurião romano ou o desinteresse dos soldados que jogavam dados aos seus pés. A cruz divide as pessoas. Diante dela a fé é chamada a assumir seu mais radical compromisso. Compromisso por Cristo e por todos os crucificados da história. Nunca aos bocejos. (406)

139
O refrão "não tenham medo" vem repetido freqüentemente na Bíblia. O homem poderia ser definido como um animal que tem, ao mesmo tempo, confiança e medo. Medo de tomar decisões, de errar, de viver e morrer, de amar e ser desprezado, de viver para os outros e de perder a própria identidade. Mas o maior medo que ele tem é o das trevas da morte. Depois delas, o que haverá? Como será? E sente medo, o grande medo do além. O refrão bíblico "não tenham medo" dissipa este medo com promessas de Deus. (403)

140
Quero viver e morrer acreditando que os olhos são as janelas da alma e que a alma é a morada de Deus. Quero viver e morrer acreditando que as mãos foram feitas abertas para dar e receber e não fechadas para reter, bater e ferir. Quero viver e morrer acreditando que o coração humano é o símbolo de um amor que eu sempre quis dar e sempre desejei receber. Quero viver e morrer acreditando que os joelhos que se dobram, em adoração, abrem o espírito para um mistério que o sobreleva infinitamente. (405)

141
Uma das principais caraterísticas da verdadeira santidade é sua dimensão comunitária, sua solidariedade humana. O santo não conhece a norma "cada um por si e Deus por todos". Onde a pessoa humana mais geme abandonada e crucificada, mais ali se encontra o santo, solícito e ativo. Ele apeia de seu jumento para socorrer os saqueados. Levanta sua voz para defender os indefesos. Tanto quanto de Deus, o santo é dos homens e seu amor pelos céus se testa por sua veneração e devotamento pela terra. (410)

142
O Natal, se é a comemoração do nascimento de Cristo, é também a festa do eterno renascer de Deus que, nos mais rústicos trajes dos acontecimentos da vida e sem pompa, volta a se apresentar às pessoas de boa vontade sempre com o mesmo pedido: um lugarzinho, ainda que pobre, mas quentinho, nos corações das pessoas. O Natal é a festa da simplicidade. Deus não cega suas criaturas com sua glória, mas aproxima-se delas no gemido de uma simples criancinha, entre um boi e um jumentinho. (398)

143
A terra e todas as criaturas possuem um caráter religioso e uma dimensão fraterna e social. Javé conduz a história de seu povo em direção a uma Terra Prometida, cuja posse confirmará a eterna fidelidade de Deus às promessas feitas ao povo. Israel, porém, antes de possuir uma terra, deve fazer-se senhor do próprio coração, abrindo-o na adoração a Deus e fortificando os laços de fraternidade entre as várias tribos. Só assim merecerá a bênção da terra e a paz em seus domínios. (396)

144
Diante de tudo que acontece, de bom e de funesto, há uma atitude que é básica para definir a coragem e a maturidade de uma pessoa: a abertura de seu coração. Esta, aliás, é a imagem mais tocante que temos de Cristo: com as mãos pregadas, indefeso, silencioso e impotente, deixou que lhe rasgassem o coração num derradeiro e eloqüente testemunho de amor pelos homens. Viver de coração aberto é, por isto, muito mais do que um simples ideal: é a própria definição do verdadeiro homem de Deus. (402)

145
Os cabelos brancos são, segundo a Bíblia, uma gloriosa coroa e uma bela recompensa. Deus, no livro de Daniel, é apresentado como um velho de cabeleira branca como a pura lã. Envelhecer é o destino inevitável da vida e, ao mesmo tempo, uma bênção divina. As pessoas tem a vida inteira para se preparar para a velhice. Como é bonito um velho que viveu intensamente os anos verdes e maduros de sua vida e chegou à velhice com um rosto enrugado mas sereno, com um coração cansado mas feliz! (400)

146
Foi-se o tempo em que bastava dar a palavra para se firmar um contrato e estabelecer obrigações. As pessoas tinham, então, dizia-se, caráter. Atualmente, aceita-se que somos o país da impunidade, no qual abundam os corruptos e os "picaretas". Quando as pessoas deixam de ser corretas, deteriora-se a relação entre elas, a vida vira anarquia e todos procuram apenas, egoisticamente, levar vantagem em tudo. A Bíblia garante que o homem reto é abençoado por Deus. O falso é abominado. (404)

147
Ser bom não quer dizer ser conivente, fechando os olhos ao que não presta e aprovando, por fraqueza ou covardia, as atitudes erradas de pessoas queridas ou importantes. Ser bom é, antes de mais nada, amar e ter a coragem da verdade, abominando a mentira e a hipocrisia, denunciando erros e enquadrando os que erram. As crianças precisam aprender, na experiência dos adultos, que o certo é bom e que o errado é reprovável. Caso contrário, engrossarão as fileiras dos indecisos e covardes. (405)

148
A confiabilidade não se conquista com confissões. Não adianta proclamar: "Sou confiável" ou "mereço confiança". A virtude da confiabilidade de alguém só é reconhecida pelos outros. Eles é que dirão se alguém merece ou não confiança. Tal pessoa transmite tranqüilidade. Ela é como uma rocha sobre a qual se pode fazer assentar os planos comuns. Mais vale uma pessoa confiável que realiza menos do que uma desonesta que faz grandes coisas, mas causa permanentes preocupações. (399)

149
Coragem não é nem ousadia irracional nem diplomacia engomada. Coragem é a capacidade de enfrentar os desafios que ameaçam a dignidade. Por dignidade se entende a grandeza vocacional das pessoas e da comunidade humana. A pessoa nasce e as sociedades existem para viver, defender e fazer florescer determinado destino. Não se deve, é verdade, nem tentar o impossível nem fugir do que compete fazer. Isto seria ter coragem, virtude que preserva a vida e engrandece as pessoas. (397)

150
É certamente tempo perdido tentar raciocinar com quem, tomado por violentas emoções, age fora, longe e sem razão. Será tempo perdido e esforço inútil. O melhor que se tem, nestes casos, é deixar que as águas baixem, passe a borrasca e a pessoa volte ao uso da razão. Muitas pessoas confessam que não entendem como os outros não as entendem. Mas como querer ser entendido a nível de cabeça, se os gritos dos outros partem dolorosamente do coração? Não há razões que só o coração conhece? (401)

151
A amizade se alimenta de um amor puramente de admiração que une as pessoas em vista de um aperfeiçoamento humano mais íntegro e pleno. Na amizade, o outro é respeitado pelo que é e ajudado a elevar-se e superar-se em direção à plenitude do que poderá vir a ser. Tudo o que prejudica moral e espiritualmente um amigo não é amizade. Aliás, não existem maus amigos; o amigo só pode ser bom, pois só existe verdadeira amizade no caminho da admiração desinteressada e do bem incondicional. (399)

152
Especialistas listam 8 sintomas que apontam para o mau uso da capacidade humana numa empresa: 1. Repetição dos mesmos erros; 2. Duplicação do trabalho; 3. Relações tensas com os clientes; 4. Não-circulação das boas idéias; 5. Necessidade de competir com o preço; 6. Dependência de pessoas essenciais; 7. Demasiada lentidão em lançar novos produtos; 8. Não saber como cobrar pelo serviço. E se esta empresa fosse a sua vida? Quantos destes sintomas estaria apresentando? (396)

153
A antiga espiritualidade insistia sobre a busca da perfeição. E por perfeição entendia essencialmente a vida de união com Deus, fazendo sua vontade. Quanto mais a pessoa vivesse esquecida de si mesma e das criaturas, mais seria perfeita. Tal pessoa apresentaria um ponto fulcral sobre o qual se apoiaria toda sua vida ou teria uma caraterística tônica que alimentaria sua caminhada e opções. Esquecer-se e menos-prezar o mundo eram apenas decorrências, mas não o foco da perfeição. (405)

154
A verdadeira paz não é essencialmente sem conflitos, mas comporta a ausência de guerra e não aceita a eliminação do outro. Aceita caminhos diferentes e até conflitantes para garantir e reforçar seu ideal. Somente pessoas de grande fortaleza podem ser instrumentos desta paz, não renegando, por um lado, as próprias convicções nem condenando, por outro, as opções alheias. Caso contrário, a paz seria fruto duma frouxa diplomacia e teria seu mais exaltante templo nos cemitérios. (404)

155
Garante um mestre japonês que "o homem só chega quando deixa de viajar". Em outras palavras, quando deixa de se agitar e borboletear de flor em flor, sem nunca repousar em jardim nenhum. Por falta de paz interior, pode a pessoa estar sempre em busca de guloseimas que apenas a engordam balofamente sem dar-lhe musculatura e saúde espiritual. A pessoa precisa abrir seus olhos para o jardim que nasce debaixo de sua janela e deixar de sonhar com as flores do horizonte que nunca serão suas. (404)

156
O mais fácil e comum pecado é o da maledicência. Quanto prazer sentem as pessoas em falar mal dos outros! Falam mal por prazer, em nome da verdade, por simples maldade, por não ter o que fazer. Parece até que o demônio se compraz em fazer da língua o palco iluminado de seus investimentos malignos. Este não é só o mais fácil e comum dos pecados, é também o mais covarde e inútil. A quem aproveita ele, senão ao que o pratica e ao que lhe dá ouvidos? Triste, mesquinha e venenosa satisfação! (399)

157
A pessoa, embora tentada pelas quimeras faiscantes dos anúncios publicitários e bombardeada pela avalanche materialista que sofre diariamente, aspira por uma verdadeira espiritualidade, alimentando o sonho de valores imperecíveis. Sabe que só sobreviverá com grandeza quando ancorada firmemente nas profundezas do espírito. Os bens materiais, se bem que importantes e necessários, não lhe passam certeza definitiva. Só a nível de espírito entende que será feliz de verdade. (407)

158
A Teologia costuma dizer que Deus é insondável no mistério de suas escolhas. Delas temos satisfatórios vislumbres, mas não explicações definitivas. Aliás, se não chegamos nem a entender bem as escolhas humanas, como pretender enquadras as predileções divinas? É dentro deste caráter insondável que mergulha a eleição de Maria para Mãe de Deus, como Imaculada, como virgem no parto e Nossa Senhora das Dores. Diante do mistério, é melhor dobrar a cabeça do que amontoar perguntas. (404)

159
Palavra de Cristo: "Conheço minhas ovelhas e por elas dou minha vida". Por que, então, temer? Não é Ele o Filho todo-poderoso de Deus que também afirmou: "Nenhuma delas se perderá, porque ninguém as arrebatará de minha mão"? Nossas vidas estão garantidas por seu poder e o demônio não tem nenhum poder sobre nós. Aliás, não precisamos de exorcismos para afastar o inimigo, mas do cultivo da graça para sermos mais de Cristo. Ele é nosso bom pastor e nós, as ovelhas felizes de seu rebanho. (404)

160
Ficou famosa a expressão de um presidente que dizia preferir o cheiro de cavalos ao cheiro do povo. Infelizmente, não era apenas uma figura literária. O cheiro do povo, especialmente do povo pobre, incomoda as narinas de gente que desfruta do poder ou está acostumada com a ilusão cosmética duma falsa sociedade. A pessoa não vale por seu cheiro, mas por sua dignidade e caráter. Um carvoeiro honesto mereceria mais uma estátua pública do que um governante que não gosta do cheiro do povo. (406)

161
Os discípulos, decepcionados com o fim de Cristo, decidiram ir pescar. Jesus, então, lhes aparece e eles, diz o evangelista, não O reconheceram até que dissesse: "Vinde comer". Aí, ninguém mais duvidou que era Jesus. Não temos, nesta passagem, uma imagem do nosso tempo, no qual o pobre já não é reconhecido como irmão porque não se divide com ele o pão, não sendo convidado para comer? É preciso reafirmar que o pão fundamenta a fraternidade e até revela a presença de Deus na história. (403)

162
Biblicamente, pecar é errar logisticamente, rechaçando a Deus como senhor e fundador de uma aliança de interdependência e salvação. Quem peca ofende a generosidade de Deus que convida a criatura a fazer com Ele um caminho de felicidade e rejeita o convite divino de um amor sem partilha. O pecador é visto, por isto, como insensato tanto quanto infrator da aliança. Para São João, que define Deus como amor, o pecado é uma transgressão da lei do amor que tem sua fonte e garantia em Deus. (403)

163
A vida religiosa abre a pessoa para um ser transcendente, sem o qual ela não ultrapassaria os contornos da vida terrena. Sem Deus, a pessoa se tornaria apequenada. Quem vive conscientemente esta verdade tem uma vida religiosa explícita. Quem vive inconscientemente segundo esta verdade tem uma vida religiosa implícita. Os primeiros não são necessariamente melhores do que os segundos. Eles têm apenas uma motivação mais consciente. Há santas pessoas que não acreditam em Deus. (404)

164
Como tem gente que gosta de perder tempo! O tempo cronológico (o do relógio) não dá para não perdê-lo, pois ele passa mesmo com nossa relutância, mas o tempo cairológico (o da importância das coisas), este é muito mal usado e, até, perdido. Não é preciso neurotizar os minutos, como se tivéssemos de dar conta deles a uma entidade implacável. Mas o tempo cairológico depende de nossas escolhas. E o conselho sábio é: não perder tempo com minudências tolas e tolices irrelevantes. (398)

165
É difícil manter o equilíbrio entre dois valores tão díspares como a transparência e o pudor. Mas eles só se chocam quando a transparência vira exibicionismo e o pudor se apresenta como refratária opacidade. Quando um destes valores é exacerbado, por timidez (o pudor) ou por acintosa exposição (a transparência), o equilíbrio é afetado. A pessoa, por natureza, é um mistério, ao mesmo tempo, semi-velado e semi-descoberto. A justa medida de um sustenta a limpidez do outro. (398)

166
Para a virtude da caridade, não tem a menor importância a fé que praticam as outras pessoas. Para quem crê em Cristo, o importante é fazer o bem a todos, sem acepção de fé, cor, condição social ou preferência sexual. Nos necessitados de todas as pobrezas, encontramos o Cristo padecente, desprezado, de mão estendida. Dobrar-se sobre eles é um ato caridade divina e uma profissão de fé. Virar-lhes o rosto seria um pecado grave feito contra nosso Salvador escondido em suas misérias. (402)

167
A vida deve comportar, idealmente, uma luta pela vida e não um atalho para a fuga ou uma estratégia para a eliminação e morte do outro. O outro, mesmo quando inimigo, é alguém que deve ser respeitado, perdoado e integrado, e não eliminado violentamente. Este é o princípio básico da filosofia da não-violência ou da espiritualidade da resistência, que teve em Gandhi seu maior corifeu. A não-violência é um modo de superar a injustiça e de integrar as diferenças que podem ser conflituais. (406)

168
Embora seja doloroso e indesejável, morrer é uma necessidade. Uma vida interminável seria um suplício insuportável. Só Deus deve ser eterno, porque só Ele é absolutamente feliz. Nós, humanos, somos vida e morte, alegria e tristeza, paz e desassossego, felicidade passageira e dúvida permanente. Morrer é deixar para trás o que nos aflige e recuperar o que só pertence a Deus: sua natureza imortal. E, com ela, uma festa sem fim e uma alegria transbordante que não conhecerá ocaso. (402)

169
Não temer exageradamente o mal nem inflacioná-lo teatralmente é um importante sinal de maturidade humana e religiosa. A pessoa, por desarmoniosa estruturação psíquica ou por deficiente formação espiritual, é levada, às vezes, a dar demasiada importância ao mal e ao maligno, ofendendo com isto a onipotência de Deus. O demônio não é onipotente. Deus, sim, o é! Inverter as onipotências é pecar contra o Espírito Santo. Este pecado não tem perdão porque ofende a Deus frontalmente. (405)

170
A santidade requer distância do pecado e busca de intimidade com Deus. Por um lado, a pessoa é chamada a renunciar a tudo que paga tributo à sua natureza corruptível, que São Paulo chama de dimensão sárquica (carnal) de seu eu; por outro, ela procura moldar-se ao Deus de sua fé que se apresenta a ela como beleza e bondade, amor e grandeza, misericórdia e perdão, poder, pureza e solidariedade. Os puros, disse Jesus, verão a Deus. Nós dizemos: os santos são de Deus, estão com Ele e O respiram. (407)

171
Madura é a pessoa no vigor de sua identidade, esquecida de si mesma e aberta para os outros e para a realidade. Enfrenta com cordialidade os desafios de viver e mostra segurança emocional, sem descontrolar-se desregradamente e sem demonstrar obsessões incontroláveis. Madura é a pessoa que sabe perdoar e tem misericórdia dos outros. Como vive em paz, deseja e é construtora da paz, sem agredir e condenar a ninguém. Tal pessoa não busca honras e não se vende por honras duvidosas. (401)

172
Quem tem senso de humor não vive aos tropeços com o mal, mas ri-se das próprias insuficiências, como uma criancinha se diverte com os grandes óculos da vovó que mal consegue ajustar sobre seu minúsculo nariz. Serve a vida sem vangloriar-se e aceita seus fracassos sem deprimir-se. Ama a vida porque sabe que não é dono dela. Ela continua bonita, graças a Deus, por não ser obra de suas mãos. Diante de comportamentos trágicos, não consegue esconder as cócegas de um mal-disfarçado sorriso. (407)

173
Cada pessoa carrega dentro de si várias "personas" que se expressam como desejos ocultos ou chances possíveis. Uma delas, segundo Philippe Gaulier, professor de teatro e bufonaria, é a do "gêmeo estúpido". Para uso externo, apresentamo-nos sérios e ponderados. Mas no fundo, temos um espírito brincalhão, somos "bobos da corte". É importante, por isto, não se levar muito a sério. Rir um pouco da vida não faz mal a ninguém. Mas é um excelente antídoto contra as tensões de viver. (401)

174
O espírito é uma dimensão aberta de vida. A pessoa sempre pode ser mais. Seu espírito tem um endereço divino, de eternidade. O animal, não. Ele tem uma vida fechada de identidade definida. O ideal da vida espiritual, portanto, é o de crescer para além e para fora de si mesma em direção ao absoluto. E isto acontece quando a pessoa vive total e plenamente o destino que tem. Fechada em si, como um bicho, a pessoa definha e se descarateriza. Literalmente, seu limite é Deus, o grande Outro. (402)

175
Nós, homens, temos a graça da fragilidade afetiva e a lucidez das decisões racionais. Enquanto a mulher tem um coração forte e sensível, exigente, fiel e terno, nós temos um coração volúvel e irrequieto, aberto e pacificador. Não sendo a fidelidade o apanágio de nossos comportamentos masculinos, apreciamos e zelamos por aquela que é a virtude e a luz de nossa casa. Sabemos que, sem ela, não teríamos nem paz nem alegria. Elas pensam menos? Talvez. Mas têm muito mais graça. Certamente. (407)

176
Enquanto se está bem, não se dá o verdadeiro apreço à saúde que se tem. É só quando alguém se sente doente que percebe o bem que perdeu. O povo simples é muito sábio quando diz que, não faltando saúde, tudo o mais é suportável. Cuidar da saúde é importante: trata-se de uma homenagem que se presta ao Senhor da vida, em quem não há sintomas de doença. Muitas pessoas passam a vida reclamando de tudo e de todos, esquecendo-se de dizer todos os dias: Muito obrigado, meu Deus, pela saúde que tenho. (405)

177
A rotina pode ser massacrante, principalmente para o amor. Muita gente, aliás, confessa: "A rotina está me matando, já não agüento mais". Há rotinas que têm cheiro de morte, mas a rotina, em si, não é má. Precisa apenas de uma dosagem justa. Como não dá para comer sobremesa o tempo todo, também seria horrível não sair nunca do feijão-com-arroz de todos os dias. Mas há uma rotina que é uma bênção: é a rotina de abrir amanhã os olhos, mais uma vez, para o milagre da vida e para a graça de viver. (405)

178
A arte da distinção é muito importante para que se possa viver sem maiores sobressaltos. Dou um exemplo: uma batida de carro é apenas uma batida de carro. Há pessoas que não sabem dizer: "Ele bateu no meu carro". Rotundamente afirmam: "Ele me bateu". Ora, ninguém nos bate. Quando não se sabe distinguir entre coisas e pessoas, acaba-se atropelando a vida injustamente. O latim tem um provérbio sábio: Qui bene distinguet bene docet. Quem bem distingue... não perde a compostura. (400)

179
Que não falte pão na mesa das famílias nem escolas para as crianças. Que não falte coragem para os doentes nem dinheiro no bolso dos trabalhadores. Que não falte inspiração para os educadores nem alegria para os dançarinos. Que não falte lucidez para os que governam nem dignidade para os governados. Que não falte fé para os que pregam nem serenidade para os mártires. Que não falte disposição para os que vivem nem confiança para os que morrem. E que todos exaltem a graça e o milagre da vida. (407)

180
Quero levantar-me todos os dias para abençoar a vida e louvar o santo nome de Deus. Quero ver em cada homem um irmão, ajudando-o a crescer em seus anseios de grandeza. Quero respeitar a dor alheia e enxugar as lágrimas de quem chora por falta de amor. Quero apertar a mão e abraçar quem tem caráter e dignidade e levantar a voz contra quem é insolente. Quero ser homem de fé, jardineiro da esperança, profeta da cidadania, construtor da paz, servo das causas comuns e arauto desatado da alegria. (407)

 
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